Odir Cunha - Jornal da Tarde
Boitempo é uma pequena poesia de Carlos Drumond de Andrade que fala do tempo na roça delimitado pela rotina do gado ("...No gado é que dormimos e nele que acordamos... A lua chega no leite, morno esguicho das tetas e o dia é um pasto azul que o gado reconquista."). Mas a jovem editora Boitempo, fundada em 1995, que ganhou três prêmios Jabuti em quatro anos de vida, tem esse nome porque foi esta a forma que a jovem empresária Ivana Maria Tavares Jinkings, de 37 anos, encontrou para homenagear seu pai, Raimundo Jinkings, neto de ingleses que montou uma rede de livrarias em Belém do Pará e tentou, nos anos 60, em vão, levar sua editora, também Boitempo, adiante.
"Nas lembranças da minha infância vejo os soldados da polícia federal entrando em casa à procura de livros considerados subversivos. Meu pai, dirigente comunista, editava Mao Tse Tung, textos de esquerda, mas não conseguia distribuir nenhum livro, porque eles eram apreendidos antes de irem para a rua." Ivana ri ao lembrar que até livros infantis e o clássico O Vermelho e o Negro foram levados pelos zelosos militares por terem a capa vermelha.
Filha de Raimundo e de Isa, descendente de portugueses, Ivana é a caçula de cinco irmãos: Nise, 44 anos; Leila, 43; Toninho, 42 e Álvaro, 41. Os irmãos homens é que tomam conta das seis livrarias Jinkings de Belém.
Há 17 anos Ivana casou-se com um empresário paulista, e mudou-se para cá quando ele foi transferido. Hoje, casada com José Carlos Monteiro da Silva, diretor da editora Atual, mora perto da editora, na região de Pinheiros, para conciliar melhor o trabalho e a educação dos três filhos: Daniela, de 16 anos; Kim, de 13, e Luca, de dois anos e meio. Bióloga formada em Belém, em São Paulo só trabalhou "com texto": dois anos como jornalista no jornal Voz da Unidade; mais dois anos na editora Ática; quatro anos na editora Atual e trabalhou para revistas da editora Abril, até que em setembro de 1995, depois de descartar a idéia de abrir uma livraria, lançou a Boitempo, uma editora onde pudesse lançar os livros dos quais gosta, com o o tempo e o esmero que invariavelmente faltam ao trabalho jornalístico ("Aquela coisa muito corrida do jornalismo me desagradava muito").
De jeans, camiseta, sotaque que lembra o carioca, mas é do Pará, um sorriso lindo e uns olhos que parecem ver além das aparências, Ivana Jinkings, uma das raras mulheres editoras do país, nos recebeu para falar da Boitempo.
JT – Por que uma editora?
Ivana Jinkings – Não me identifico com o trabalho do jornalista. Precisa ter um pique que eu não tenho. Gosto de fazer um trabalho mais inteiro. Aquela coisa muito corrida do jornalista, é tudo muito de qualquer jeito (é óbvio que é de qualquer jeito porque o ritmo impõe), era uma coisa que me desagradava muito. Então tive idéia de montar uma livraria. Andei vendo com a minha família e acabei percebendo que para montar uma livraria o investimento inicial era muito grande. Precisa ter um bom ponto inicial e era tudo muito caro. Como meu pai também teve uma editora em Belém, pequena, que depois fechou, aí acabei resolvendo montar uma. Era plano montar a editora e depois junto a livraria, mas eu já desisti. Uma editora já dá trabalho suficiente.
Qual a proposta da editora?
A idéia é trabalhar um segmento mais intelectualizado do mercado, que compra livros com regularidade. Acho que o best seller não forma o leitor. O leitor de best seller não é o habitual. Não era nossa idéia trabalhar com livros de grande venda, mesmo sabendo que eles viabilizam algumas editoras que trabalham essa dubiedade: livros de grande venda que bancam outros tantos de qualidade. A primeira idéia era resgatar textos de grande qualidade ou nunca editados no Brasil, ou editados há muito tempo e perdidos. Tanto que o primeiro título que a gente editou foi o Napoleão, de Stendhal, um texto nunca editado aqui, jamais traduzido. Nessa linha depois a gente editou um conto inédito de Machado de Assis, Terpsícore; dois contos de Guy de Maupassant e uma carta inédita de Mário de Andrade, Uma carta ao pintor moço, com a qual ganhamos o Prêmio Jabuti.
Quantos prêmios Jabuti a editora já ganhou?
Três. De melhor produção editorial, com Carta ao Pintor Moço, de Mário de Andrade, em 1996; melhor livro-reportagem com O Século do Crime, de José Arbex Jr. e Cláudio Tognolli, em 1997, e melhor livro-reportagem com Paulo Autran, um homem no palco, de Alberto Guzik, em 1998.
Por que Boitempo?
O nome é um poema do Drumond (Carlos Drumond de Andrade). A razão mesmo é que no final da década de 60 meu pai abriu em Belém uma editora que se chamava Boitempo. Dele e de outro dirigente comunista. Mas teve vida curtíssima, porque antes de sair da gráfica já vinha a polícia e apreendia. Ele editava Mao Tse Tung, textos de esquerda...
Por que o livro é tão caro no Brasil?
Quanto as tiragens são pequenas, o custo unitário é muito alto e, conseqüentemente, o preço de capa é caro. Com isso, as pessoas compram menos livros. As pessoas comprando menos, você é obrigado a ter o mesmo volume de lançamentos. Você não pode deixar de lançar, ou sai do mercado. E o mercado não comporta tantos lançamentos. As grandes editoras lançam 12, 15 livros por mês. E é sempre assim: desses 15, um vai vender. Os outros fazem volume. O mercado não absorve. O número de lançamentos cresce de forma geométrica e o de leitores de forma aritmética.
O que mais encarece um livro?
A tradução encarece bastante, assim como comprar direitos. Na Boitempo a gente tem livros mais baratos, de 10, 11 reais, mas é um outro selo, uma outra linha que a gente está lançando até para atingir o público que não compra um livro de 22, 25, de 32 reais. E usando um multiplicador super apertado. Eu sei que as grandes editoras usam o multiplicador cinco, às vezes até sete (cinco ou sete vezes o preço de custo). Eu uso normalmente o multiplicador três ou quatro. Do preço de capa, 55% vai para o distribuidor, 10% para o autor, há ainda os gastos com impostos, a estrutura... O que sobra é o mínimo pra gerar outros lançamentos. A pequena editora sofre de uma coisa que a grande não: ela precisa ter um preço de capa compatível com o mercado, mas eu compro papel mais caro, porque eu compro pouco; eu pago impressão muito mais caro, porque imprimo pouco, em menores tiragens, e o trabalho que eu terceirizo, a parte de texto, eu ainda pago melhor do que a maior parte das grandes editoras. Então, o preço unitário do livro, para mim, é muito mais caro do que para uma grande editora.
O público não cresce?
Cresce, mas pouco. Você está sempre jogando mais títulos para o mesmo público. Nossa expectativa é de que esse mesmo público que compra livros, compre mais. Você não amplia o mercado, aumenta o número de livros para o mesmo público.
O que poderia ser feito para popularizar o livro?
Uma política oficial mesmo. É uma coisa que vem de longe, vem da escola. Mas não sou pessimista. Isso começa a ser feito de uma forma lenta, principalmente nas escolas particulares. Acho que essa garotada está readquirindo o hábito de leitura. Acho que eles já não sofrem mais aquele impacto da televisão que nós sofremos. Num país em que 20% da população é analfabeta, você tem de ter uma política oficial de incentivo, um programa de incentivo à publicação.
Mas há programas de incentivo...
Muito pouco. Elas têm funcionado assim: um dono de um banco xis edita a história do banco dele para não pagar imposto de renda. Distribui o livro para os amigos e não paga imposto. Isso eu acho que é furto. Tinha de ter uma lei de incentivo com controle, para incentivar a cultura e não essas obras que não têm nenhum interesse para a população. O que pode interessar a história da família de um dono de banco?
Você já fez algum livro com incentivo?
Não. É algo que a gente precisa ver. Se essas leis existem, é para a gente utilizar. Mas com projetos legais. Tenho uma coleção que está há dois anos em projeto que acho que agora vai sair, em uma coedição com um grupo de professores da literatura brasileira da USP. Uma coedição da Boitempo com a Humanitas, que é a editora da USP. O título provisório é Resgate. Há muita coisa na literatura brasileira de grande qualidade com uma edição perdida no tempo, uma edição quase pirata. Vamos resgatar isso.
Poderia adiantar o nome de alguns desses autores?
Tem um, quase desconhecido, que se chama Osório Alves de Castro. Seu estilo lembra um pouco o Guimarães Rosa. Seu livro, Porto Calendário, é um romance que se passa na década de 50, na Bahia. É uma saga no sertão baiano, uma coisa belíssima que quase ninguém conhece. É um livro que precisa ser publicado. Há também uma antologia de textos tirados da literatura brasileira sobre o exílio.
O estudante está lendo mais hoje porque as obras pedidas são mais leves?
A escola começa a perceber com o que que você pode iniciar. Minha filha mesmo, foi obrigada a ler pela escola O Guarani. Achou infernal. E é mesmo. Chatíssimo. Mesmo Machado de Assis ou Guimarães Rosa, não é com qualquer coisa deles que você pode iniciar. No caso de Guimarães Rosa, o ideal seria iniciar com As Primeiras Histórias.
Quais seriam as melhores obras para se iniciar um jovem na leitura?
Bem, eu comecei a gostar de livros com Monteiro Lobato. Li tudo, deixava de lado qualquer coisa para ler Monteiro Lobato. Depois li muita aventura, romances policiais, uma coleção, Jovens do Mundo Todo. Mas nenhum dos meus filhos se empolgou muito com Monteiro Lobato, talvez porque fique longe da realidade deles. Foi uma frustração para mim.
O que eles lêem?
A Daniela, minha filha mais velha, lê bastante. Hoje acho que ela lê mais do que eu. Tem mais tempo. Lê de um modo diversificado. Ela pega o principal dos melhores autores. Leu O Manifesto, ficou super empolgada com ele. Leu os mais importantes de Machado de Assis.
Como você escolhe o livro a ser editado pela Boitempo? Feelling? Gosto pessoal? Procura oferecer o que o mercado pede?
É muito do meu gosto mesmo, do que eu acho legal. Fora isso tenho algumas pessoas que trabalham com a Boitempo e às vezes indicam livros, pessoas nas quais confio muito e que quando indicam um livro, ele está praticamente aceito. Muitas vezes não consigo ler. Estou com um problema: tenho uma quantidade enorme de originais e não estou conseguindo dar conta deles. Alguns eu tenho passado para pareceristas e dependendo do parecer eu leio ou descarto. No geral, faço uma primeira seleção. Alguns devolvo de cara. Eu não edito infantil, esotérico, anjos, auto-ajuda, essas coisas todas.
Você é procurada por muitos autores novos?
Bastante. Às vezes tem coisas muito legais, mas é um risco muito grande você lançar um autor, porque é uma loteria. Já lancei autores novos com coisas muito legais, a recepção de imprensa foi muito boa, mas depois a venda é sempre difícil porque o distribuidor tem muito medo. Quando sabem que é um autor estreante, às vezes eles não querem nem em consignação. E no meu caso eu dependo totalmente desse mercado, dos livreiros. Nosso livro é vendido só em livraria, em nenhum outro espaço.
Algum livro a surpreendeu? Teve um sucesso maior do que o esperado?
Napoleão, o primeiro. Eu não tinha uma grande expectativa de venda. Era um livro de um texto bom, inédito, de um autor conhecido, caprichei muito na edição, cuidei muito da tradução. Achava que era um livro que ia dar a cara da editora. Mas não tinha expectativa de muita venda porque não é um texto fácil. Não é um texto muito linear. O Stendhal acompanhou Napoleão em algumas batalhas e fez um relato pessoal dessa convivência, é parcial, não é uma coisa de historiador e nem um romance. Achava que era um livro que ia ser bom para a editora, mas ele me surpreendeu. Em um mês vendeu a primeira edição, a segunda também foi muito rápida, e até hoje ele sai legal.
Teve um outro livro sobre Lukács (filósofo marxista húngaro), que eu também tinha uma expectativa super pequena e vendeu muito bem. Fora isso, teve alguns que venderam bem, mas eu já esperava, como O Século do Crime, Terpsícore... A primeira edição de Carta ao Pintor Moço também foi bem rápida.
Como anda a venda dos seus livros?
Os que têm uma venda contínua são os que vão sendo adotados. E é interessante porque a gente não faz esse trabalho, não temos como divulgar... Mas temos muitos adotados em universidades, colégios... Quando o livro é lançado, ele vai para as vitrines, fazem pilhas, vai para os balcões de lançamento... Depois, para a prateleira. Com essa quantidade enorme de lançamentos, os livreiros não conseguem manter seu livro bem exposto, é um problema físico, e aí a venda cai mesmo. Como eu trabalho muitos livros para o meio acadêmico, de filosofia, sociologia, ciências sociais, ciências humanas, esses têm uma continuidade. O resto, literatura mesmo, pode ter um movimento inicial muito grande, mas depois acaba caindo muito.
Você participa de todo o processo de produção?
De todo. Quando não faço pessoalmente, acompanho. Capas algumas vezes eu não fiz, eu acompanhei... Isso é uma coisa que numa editora pequena você ainda pode fazer. E quero continuar fazendo. Por isso digo que não vou crescer muito. Meu projeto seria editar dois livros por mês, o que significaria dobrar minha produção atual.
Sua distribuição é boa?
A gente vende para as redes Siciliano e Saraiva, para a Cultura, a Livraria da Vila. A nossa distribuição não dá pra dizer que é nacional, mas é quase. Os grandes centros todos recebem. Em Belém nós estamos sempre entre os mais vendidos (risos). Até porque para se vender bem é básico que o livro esteja bem exposto, e lá eles sempre têm uma exposição super legal. Tem essa coisa de termos uma rede de livrarias da família lá e também isso de as pessoas saberem que a Boitempo é de uma paraense. Tem essa coisa meio bairrista. Quando a gente ganha um prêmio, sai nos jornais de lá.
Como é o seu público?
Exigente, mais intelectualizado, que escolhe bem o que vai ler. Tem de ser um livro de qualidade, bem escrito, não tem uma linha muito clara... Tem poesia, conto... Tem muito a ver com a qualidade do texto.
Falando nisso, quais foram os melhores textos que você já leu?
De brasileiros, vamos no óbvio: gosto muito de Machado de Assis, muito Monteiro Lobato na infância, José Lins do Rego; me impressionou muito A Mãe, do Gorki (Maximo Gorki, escritor russo). Gosto muito do Jack London, Anatole France, Stendhal. Li muito pouco de Guimarães Rosa, acho que é uma falha minha. Graciliano Ramos eu gosto muito. Um contemporâneo que eu gosto muito é o J. J. Veiga. As coisas mais recentes eu compro e não leio. Não tenho acompanhado o que tem saido.
Quais serão os próximos projetos da Boitempo?
No final deste mês estaremos lançando uma antologia que se chama Com Palmos Medida – terra, trabalho e conflito na literatura brasileira. É um livro organizado pelo Flávio Aguiar, da USP, com prefácio de Antonio Candido. Está grande, todo ilustrado, pintado pelo Enio Squeff, lindíssimo, com 420 páginas. Ainda este mês lançaremos Cenas do Brasil Migrante, uma coisa pouco tratada hoje que é a migração brasileira. São oito ensaios. Teremos um livro sobre o tropicalismo; um outro de 1.000 páginas que é básico para se estudar o capital, chamado Além do Capital, tem Os Negros Jacobinos, sobre a revolução de Santo Domingo, a única revolução escrava que deu certo; um romance do Jack London, O Tacão de Ferro, o livro mais denso, mais político dele.
Como você vê a Boitempo daqui a dez anos? Pretende crescer?
Não pretendo crescer muito em estrutura. Acho que daqui a dez anos vou ter um catálogo bom, consistente... A Boitempo é uma editora que tem um nome já, um selo respeitado. Alguns intelectuais que admiro bastante e eles dizem que acham os livros bem editados, bem cuidados, bonitos. Daria para fazer mais barato do que a gente faz, mas a gente procura caprichar no papel, no acabamento, ter bons capistas, pessoas que mexem bem com o texto.
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