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Coleções: Revista: Selo:


Título: Margem Esquerda n.14
Autor: Vários autores
Páginas: 160
ISSN: 1-6787684
Preço: R$ 28,00
A crise ecológica manifesta uma contradição fundamental do capitalismo: entre o sistema produtivo e as condições de produção. Desde os primórdios da acumulação primitiva do capital, a conquista de mais e mais lucro se dá com a destruição de trabalhadores e da natureza. Contraditoriamente, o capitalismo destrói sua base, minando a própria capacidade de reprodução. A sorte das classes trabalhadoras e a do meio ambiente estão diretamente vinculadas. A compreensão crítica do vínculo entre luta de classes e ecologia se torna tema indispensável ao pensamento marxista.

Organizado por Carla Ferreira e Mathias Luce, o dossiê deste volume reúne textos dedicados ao meio ambiente, onde, segundo Luce, “a crise climática é apenas a ponta do iceberg da ativação dos limites do capital, quando o imperialismo se torna mais agressivo e fecha o círculo vicioso que coloca em xeque o futuro da humanidade”. Os sociólogos norte-americanos John Bellamy Foster e Brett Clark discorrem sobre as contribuições de Marx e Mészáros à crítica da cisão no metabolismo ecológico e no sociometabolismo provocada pelo funcionamento do capital. O texto do geógrafo Carlos Walter Porto-Gonçalves critica o apetite do capital, que, por meio de patentes industriais e biopirataria, privatiza o conhecimento indígena. Michael Löwy reflete sobre a insustentabilidade do modo de produção e consumo dos países capitalistas avançados. Segundo Mathias Luce, o texto de Löwy ressalta que “a consigna ‘mudar o sistema, não o clima’ e a recente Conferência Mundial dos Povos sobre as Mudanças Climáticas e pelos Direitos da Madre Tierra, em Cochabamba, evidenciam a radicalização das lutas ecológicas no movimento altermundialista”. E o urbanista norte-americano Mike Davis revela como o descontrole das autoridades sanitárias, sob os interesses da agroindústria, favoreceu mutações genéticas do vírus da gripe H1N1. As contradições do capitalismo tomam nova forma a partir da Revolução Informacional. Em entrevista concedida a Henrique Amorim, em Paris, o sociólogo francês Jean Lojkine expõe os impactos do capitalismo atual no mundo do trabalho, em especial nas identidades classistas.

Abrindo a seção de artigos, Slavoj Žižek procura responder à questão levantada por Walter Benjamin, a respeito de ser ou não possível uma resolução não violenta de conflitos. Para falar sobre o tema sempre presente da “questão judaica”, os filósofos Zoltán Tarr e Judith Marcus descrevem a relação de Lukács com essa temática. Afrânio Mendes Catani e Renato Gilioli analisam as memórias de presas políticas durante a ditadura na Argentina, de 1974 a 1983. Luiz Renato Martins trata da perda de um sentido histórico dos atos culturais, que, segundo ele, é sintoma da passagem de um ideal de formação do Brasil para uma prática de desmanche. Por fim, o historiador inglês Perry Anderson retoma a noção de hegemonia de Giovanni Arrighi para entender as dinâmicas das relações internacionais de poder e discutir as perspectivas da crise de hegemonia norte-americana.

Leia aqui a apresentação completa e veja abaixo o Sumário da Margem Esquerda n. 14:

SUMÁRIO

Apresentação
Ivana Jinkings e João Alexandre Peschanski

ENTREVISTA

Jean Lojkine
HENRIQUE AMORIM

DOSSIÊ: IMPERIALISMO, ECOLOGIA E CRISE ESTRUTURAL

A dialética do metabolismo socioecológico: Marx, Mészáros e os limites absolutos do capital
BRETT CLARK e JOHN BELLAMY FOSTER

Por uma ecologia política crítica da Amazônia
CARLOS WALTER PORTO-GONÇALVES

Crise ecológica, capitalismo, altermundialismo: um ponto de vista ecossocialista
MICHAEL LÖWY

O capitalismo e a gripe suína
MIKE DAVIS

ARTIGOS

Linguagem, violência e não violência
SLAVOJ ŽIŽEK

Georg Lukács: filósofo e judeu na Europa do século XX
ZOLTÁN TARR e JUDITH MARCUS

Vozes da resistência: prisioneiras políticas na Argentina (1974-1983)
AFRÂNIO MENDES CATANI e RENATO GILIOLI

Dos estudos da formação à greve como formação
LUIZ RENATO MARTINS

Algumas notas históricas sobre hegemonia
PERRY ANDERSON

CLÁSSICO

Sobre a Revolução Russa (1918)
ROSA LUXEMBURGO

HOMENAGENS

Giovanni Arrighi: um pensamento para o século XXI
CARLOS EDUARDO MARTINS

Daniel Bensaïd: militância política como filosofia
JOÃO MACHADO

RESENHAS

O pensamento de um intelectual insubstituível
VIRGÍNIA FONTES

Manifesto contra a delinquência acadêmica e a pedantocracia
MAURO LUIS IASI

NOTAS DE LEITURA

A formação do mercado de trabalho no Brasil
LUIZ BERNARDO PERICÁS

Estado, política e classes sociais: ensaios teóricos e históricos
EDILSON JOSÉ GRACIOLLI

Da miséria ideológica à crise do capital: uma reconciliação histórica
MIGUEL VEDDA

POESIA

Não te rendas
MÁRIO BENEDETTI

IMAGENS
BOB WOLFENSON E RICARDO DIAS

APRESENTAÇÃO DAS IMAGENS

Até quando?
LUIZ RENATO MARTINS

Ficha técnica
Título: Margem Esquerda n. 14
Vários autores
Páginas: 160
Ano de publicação: 2010
ISBN: 1678-7684
Preço: R$ 28,00
PUBLICAÇÕES NA IMPRENSA:


Jornal de Piracicaba
2010-08-15
Redação



Revista
Com textos de Michael Löwy, Mike Davis, Perry Anderson e Slavoj Ziziek, entre outros grandes nomes do pensamento contra - hegemônico, a Boitempo apresenta a edição número 14 da Revista Margem Esquerda. O número conta ainda com dossiê Imperialismo, Ecologia e Crise estrutural, além de texto clássico de Rosa Luxemburgo sobre a Revolução Russa.

Margem Esquerda 14 - Ensaios Marxistas
Vários autores
160 páginas
Editora Boitempo
Preço sugerido: R$ 28
PUBLICAÇÕES NA IMPRENSA:


Revista histedbr online
-2010-08
Entrevista



Entrevista com Michael Löwy
ENTREVISTA MICHAEL LÖWY

Nota preliminar: não posso responder em nome do “marxismo”. Existem mil marxismos, muitas interpretações possíveis. Só posso dar minha opinião enquanto marxista, ecossocialista, internacionalista.

1. Revista Histedbr On Line – Como o marxismo pensa a questão ecológica e a questão agrária?

Michael Löwy – O marxismo nos dá instrumentos fundamentais para entender a crise ecológica atual, e o desastroso processo de aquecimento global: resultam do caráter profundamente irracional do sistema capitalista, baseado na expansão ao infinito, na produção de mais e mais mercadorias inúteis, na acumulação ilimitada do capital, e no desprezo por qualquer regra ou principio que seja um obstáculo à maximização dos lucros.

O capitalismo é inerentemente contraditório com a defesa do meio ambiente e do equilíbrio ecológico do planeta. E um sistema intrinsecamente perverso que tem de ser superado se queremos evitar una catástrofe ecológica sem precedentes na história da humanidade.

Entretanto, acho que o marxismo deve rever algumas de suas colocações: por exemplo, é importante entender que a revolução socialista implica não só a mudança das relações de produção – a propriedade privada dos meios de produção – mas também a transformação radical das próprias forças produtivas. Deve se aplicar ao aparelho produtivo aquilo que Marx escrevia sobre o aparelho de Estado: os trabalhadores não podem se apropriar do aparelho burocrático capitalista e colocá-lo a seu serviço; tem de “quebrá-lo” e substituí-lo por uma outra forma política: um poder democrático dos trabalhadores. O que está colocado então é uma mudança de todo o sistema produtivo, dos padrões de consumo, enfim, de toda a civilização industrial capitalista moderna. O desafio do ecossocialismo, que a forma do marxismo no século 21, é de pensar num novo modelo de civilização, mais além da mercadoria e do capital, baseado na solidariedade e no respeito pela “Terra-Mãe”.

Quanto à questão agrária: algumas das pistas mais interessantes para pensar a questão agrária no mundo e na América Latina em particular foram sugeridas pelo grande pensador marxista peruano, José Carlos Mariategui, que mostrava, já em 1927-30, a importância das tradições comunitárias camponesas e indígenas – o que ele chamava de “comunismo inca” (encontramos exatamente a mesma expressão em Rosa Luxemburgo) – para a luta pelo socialismo moderno.

Os camponeses, organizados na grande rede “Via Campesina” – da qual faz parte o MST – são hoje em dia uma das forças mais avançadas e radicais no movimento altermundialista, no combate ao capitalismo agrário e às políticas neoliberais, em defesa de uma agricultura camponesa que respeite o meio ambiente. Os marxistas tem muito a aprender com estes movimentos. Não se pode reduzir o sujeito da transformação social, em particular nos países do Sul, unicamente à classe operaria fabril. Aliás, em todas as grandes revoluções do século 20 – a mexicana, a russa, a chinesa, a vietnamita, a cubana – os camponeses tiveram um papel decisivo.

2. Revista Histedbr On Line – Qual a pertinência e o alcance do conceito marxista de classe social? Como o marxismo analisa as transformações em curso no mundo do trabalho?

Michael Löwy – Os conceitos marxistas de classe social e de luta de classes são ao mesmo tempo um instrumento incontornável de analise da realidade e um vetor da ação transformadora. Sem duvidas existem problemas essenciais que não se reduzem ao conflito de classes: a opressão da mulher, a dominação de etnias ou nações, a destruição do meio ambiente. Mas na medida em que estas questões estão ligadas, de uma forma ou de outra, com o sistema capitalista, existe uma articulação, uma convergência, uma relação dialética com a luta de classes.

As transformações do mundo do trabalho tomam formas muito diferentes no centro e na periferia do sistema. Existem algumas tendências gerais: redução do peso da classe operaria industrial, expansão do setor de serviços, proletarização do trabalho intelectual. Mas de uma maneira ou de outra, a grande maioria da população é composta de mulheres e homens que tem de vender sua força de trabalho para sobreviverem. Temos aqui o proletariado no sentido amplo, o conjunto das classes subalternas que vivem de seu trabalho e são submetidas à dominação do capital.

Nos países periféricos encontramos uma enorme massa de pobres e excluídos, desempregados permanentes, condenados a uma sobrevivência precária na economia “informal”: é o “pobretariado”, forma característica do capitalismo dependente. A maioria desta multidão de deserdados vem do campo, de onde foi expulsa pelo desenvolvimento do agronegócio capitalista, para concentrar-se nas margens das grandes cidades: é o “Planeta-Favela” de que falava Mike Davis. O grande desafio para os sindicatos, movimentos sociais e partidos de esquerda é conseguir organizar este “pobretariado”.

3. Revista Histedbr On Line – Como as propostas marxistas podem contribuir para o desenvolvimento de um projeto educacional no Brasil?

Michael Löwy – Do ponto de vista marxista, a educação é uma das prioridades de qualquer política social. Um primeiro passo seria, como em Cuba ou na Nicarágua, uma grande campanha de alfabetização, mobilizando a juventude escolar para ir a todos os recantos do país, utilizado a pedagogia ativa de Paulo Freire. Recursos enormes que hoje são desperdiçados com compra de armamentos inúteis – porta aviões! – ou na subvenção a banqueiros e usineiros, deveriam ser dedicados ao orçamento da educação, em todos os níveis, desde o primário ao universitário; é fundamental ampliar a rede de ensino publico gratuito, e marginalizar as empresas privadas, enorme sistema parasitário que se desenvolveu explorando as falhas da educação publica. É preciso garantir o acesso ao ensino secundário e universitário ao conjunto dos jovens brasileiros. Isto permitirá não só criar centenas de milhares de postos de trabalho, mas contribuirá para elevar o nível cultural da população, aprimorar a qualificação profissional dos trabalhadores, ampliar substancialmente o publico leitor e reduzir a criminalidade juvenil. Enfim, seria importante associar os professores e os alunos, assim como seus sindicatos e associações a uma reforma estrutural da educação, buscando superar a herança do elitismo, do autoritarismo e da exclusão social e/ou racial, e introduzindo métodos pedagógicos libertários.

4. Revista Histedbr On Line – Quais os desafios, limites e possibilidades do marxismo na sociedade atual?

Michael Löwy – Um certo tipo de marxismo, de corte positivista e dogmático, transformado em ideologia de Estado pela burocracia dirigente dos assim chamados países do “socialismo real” (a começar pela URSS) entrou em profunda crise com a queda – ou conversão ao capitalismo – destes regimes a partir de 1989. Mas o marxismo vivo, aquele que inspirou Rosa Luxemburgo e Trotsky, Lukács e Gramsci, José Carlos Mariategui e Farabundo Marti, Walter Benjamin e Ernst Bloch, Ernesto Che Guevara e os teólogos da libertação, nos dá, em sua diversidade, pontos de partida indispensáveis para entender a sociedade atual.

O marxismo não é um paradigma fechado, um sistema de “verdades científicas” estabelecidas de uma vez por todas, um catalogo de “leis econômicas” (ou históricas, ou políticas) invariáveis, mas um método dialético, humanista/historicista, de análise e transformação da realidade – uma realidade que obviamente não é a mesma no século 21 que na época de redação do Capital de Marx. Isto não impede que a sociedade em que vivemos ainda seja capitalista – na realidade, a dominação planetária do capital é muito maior hoje em dia do que nos tempos de Marx e Engels – baseada na exploração, na dominação e na guerra.

Pessoalmente sou favorável a um desenvolvimento do marxismo visando aprofundar sua ruptura com os paradigmas da civilização (capitalista) moderna. Já Walter Benjamin, em seu Livro das Passagens inacabado, propunha uma reformulação do marxismo de forma a libertá-lo de qualquer influência do positivismo e da ideologia burguesa do “Progresso”.

Para mim o grande desafio para o marxismo no século 21 é integrar a questão ecológica. É o que tenta fazer o ecossocialismo, uma corrente de pensamento e de ação que se reclama ao mesmo tempo da defesa ecológica do meio ambiente e da análise marxista do capitalismo. Para os ecossocialistas, a lógica do mercado e do lucro capitalistas conduzem a destruição dos equilíbrios naturais, com conseqüências catastróficas para a humanidade. Em ruptura com a ideologia produtivista do progresso – em sua forma capitalista e/ou burocrática – e em oposição à expansão ilimitada de um modo de produção e de consumo incompatível com a proteção da natureza, o ecossocialismo representa um outro modelo de civilização, uma alternativa radical ao paradigma capitalista/industrial dominante.

veja mais em: http://www.histedbr.fae.unicamp.br/revista/edicoes/38e/index.html

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05/03/2013 - Marx: a criação destruidora
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