A transformação da crise dos mercados imobiliário e financeiro dos Estados Unidos em uma crise econômica global levou à desmoralização o discurso liberal em todo o mundo. Para avaliar seus impactos e alternativas, Margem Esquerda n. 13 traz o dossiê “Hegemonia em tempos de crise”, composto por alguns dos mais importantes analistas desse fenômeno: o francês François Chesnais, o norte-americano Robert Brenner, o brasileiro José Luís Fiori e o inglês Peter Gowan. Chesnais, formulador da tese da financeirização do capitalismo, destaca a longevidade da recessão e as duras consequências para os trabalhadores. Mas lembra que a situação atual apresenta oportunidade ímpar para a construção de alternativas.
A capacidade de recomposição conservadora da hegemonia norte-americana é analisada por Fiori, que discute ainda a ampliação das alianças lideradas por Washington, na busca de um novo consenso que permita reformular suas condições de dominação. Coerente com sua tese sobre o capitalismo, Brenner diz que vivemos uma etapa da declinante perda de vitalidade das economias centrais. Fórmulas fictícias e momentâneas de fomentar o crédito ao consumo finalmente explodiram, produzindo um desequilíbrio de proporções incalculáveis e de longa duração. Gowan, por sua vez, discute o projeto de um modelo público que se choca com a hegemonia financeira construída nos anos 1970.
Abrindo esta edição está a filósofa brasileira Marilena Chaui, entrevistada para Margem Esquerda por Francisco de Oliveira, Rodrigo Nobile, Olgária Matos e Wolfgang Leo Maar. Na pauta, sua formação, suas leituras, a universidade, o Partido dos Trabalhadores. Da seção Artigos fazem parte: Immanuel Wallerstein – “O duradouro legado da revolução mundial de 1968”, texto polêmico no qual diz que 1968, apesar da derrota, foi o evento mais importante do século XX; Marcello Musto – “A redescoberta de Karl Marx”, sobre as obras completas de Marx-Engels (Mega-2) –; Marcelo Carcanholo e Grasiela Baruco – “As aventuras de Karl Marx contra a pulverização pós-moderna das resistências ao capital”, no qual procuram recolocar a crítica social em um plano marxista totalizante; e Edilson Graciolli e Marcílio Lucas – “‘Terceiro setor’ e ressignificação da sociedade civil”, uma anotação crítica sobre conceitos que ganham corpo no ideário contemporâneo.
O Clássico da vez é um inédito do filósofo húngaro Georg Lukács, redigido em janeiro de 1967. Trata-se de um posfácio à nova edição de Lênin: sobre a unidade de seu pensamento – escrito logo após a morte do líder bolchevique em 1924 –, que será em breve publicado pela Boitempo. De outro livro e outro importante pensador trata o Comentário deste número – assinado por Marcos Del Roio e Geraldo Magella Neres – sobre Antonio Gramsci in contrappunto: dialoghicol presente, volume de Giorgio Baratta que propõe um acerto de contas com a forma de ler e discutir a obra de Gramsci.
Já o poema “Policrítica na hora dos chacais”, de Julio Cortázar, faz uma defesa apaixonada de Cuba. Foi a forma que encontramos para homenagear simultaneamente o cinquentenário da Revolução e um dos maiores escritores de todos os tempos. Com a palavra o responsável pela seção, Flávio Aguiar: "Nascido em Bruxelas, aos quatro anos Cortázar mudou-se para a Argentina, onde se formou em Letras e tornou-se professor. Em 1951, por discordar do governo peronista, mudou-se para Paris, onde morou até morrer. Publicou livros de renome mundial. Foi criticado por morar na França – por aqueles que julgavam ter ele perdido sua identidade latino-americana, porém manteve sempre um compromisso aberto, arejado e não isento de crítica com o que de melhor havia na América Latina. Apoiou a Revolução Cubana, o governo de Allende e os Sandinistas.
Mais conhecido como romancista e contista, Cortázar foi também tradutor, poeta e ensaísta. O texto que Margem Esquerda apresenta, em prosa poética, foi publicado em Cuba no auge da campanha contra o governo revolucionário dessa `vanguarda admirável da América`. Certa vez, em referência à Revolução mexicana de 1910, Alfonso Reyes afirmou que todo o intelectual latino-americano tinha duas pátrias: a sua e o México. Desde 1959, tem três, o que inclui Cuba".
O teatro brasileiro perdeu, neste semestre de 2009, dois grandes nomes: Augusto Boal e Reinaldo Maia. Boal, ex-integrante do Teatro de Arena, criador do Teatro do Oprimido e autor de livros traduzidos para mais de vinte idiomas, morreu de leucemia no dia 2 de maio. Maia, dramaturgo, diretor e ator teatral, um dos criadores do grupo Folias d’Arte, foi vítima de um enfarte fulminante na manhã do dia 17 de abril. A esses dois resistentes, que não se
dobraram ao “mercado”, dignificaram e entenderam o teatro como meio de emancipação política e de intervenção social, dedicamos esta edição. – Ivana Jinkings
Sumário
Apresentação
Ivana Jinkings
Entrevista
Marilena Chaui
Por Francisco De Oliveira, Rodrigo Nobile, Olgaria Matos e Wolfgang Leo Maar
Dossiê Um momento histórico crítico
François Chesnais
A esquerda e a crise
José Luís Fiori
A crise que se aprofunda
Robert Brenner
Crises na capital
Peter Gowan
Artigos A redescoberta de Marx
Marcello Musto
As aventuras de Karl Marx contra a pulverização pós-moderna das resistências ao capital
Marcelo Dias Carcanholo e Grasiela Cristina da Cunha Baruco
O duradouro legado da revolução mundial de 1968
Immanuel Wallerstein
“Terceiro setor” e ressignificação da sociedade civil
Edilson José Graciolli e Marcílio Rodrigues Lucas
Clássico Posfácio a Lenin
Georg Lukács
Comentário Como e por que ler Gramsci hoje
Geraldo Magella Neres e Marcos Del Roio
Resenhas O marxismo de Caio Prado Jr.
Marisa M. Deaecto
Em defesa da totalidade: o humanismo marxista de Lucien Goldmann
Fábio Mascaro Querido
Notas de leitura Leandro Konder: memórias de um intelectual comunista
Rodrigo Castelo Branco
As duas faces do gueto
Afranio Mendes Catani
Poesia Policrítica na hora dos chacais
Julio Cortázar
Ilustrações
Rogério Ferrari
PUBLICAÇÕES NA IMPRENSA:
Carta Maior
2009-05-07
José Luís Fiori
A esquerda e a crise
Neste período haverá resistência e haverá conflitos sociais agudos, e se a crise se prolongar, deverão se multiplicar as rebeliões sociais e as guerras civis nas zonas de fratura do sistema mundial. Mas do nosso ponto de vista, não haverá uma mudança de modo de produção em escala mundial, nem tampouco ocorrerá uma superação hegeliana do sistema inter-estatal capitalista. A análise é de José Luís Fiori, em artigo escrito para a revista Margem Esquerda, nº 13, que será lançada em breve.
Esse artigo foi escrito para a revista Margem Esquerda, n° 13 (Editora Boitempo), que será lançada em breve. O texto integra um dossiê que trará também artigos de François Chesnais, Robert Brenner e Peter Gowan.
A esquerda keynesiana interpreta de forma mais ou menos consensual, a nova crise econômica mundial que começou no mercado imobiliário americano, e se alastrou pelas veias abertas da globalização financeira. Seguindo o argumento clássico de Hyman Minsky [1], sobre a tendência endógena das economias monetárias à instabilidade financeira, às bolhas especulativas e à períodos de desorganização e caos provocados pela expansão desregulada do crédito e do endividamento, quando se faz inevitável a intervenção publica e o redesenho das instituições financeiras [2], sem que isto ameace a sobrevivência do próprio capitalismo.
Por isto, apesar de suas divergências a respeito de valores, procedimentos e velocidades, todos os keynesianos acreditam na eficácia, e propõem, neste momento, uma intervenção massiva do estado, para salvar o sistema financeiro e reativar o crédito, a produção e a demanda efetiva das principais economias capitalistas do mundo [3]. No caso da esquerda marxista, entretanto, não existe uma interpretação consensual da crise, nem existe acordo sobre os caminhos do futuro. Alguns seguem uma linha próxima da escola keynesiana, e privilegiam a financeirização capitalista como causa da crise atual, enquanto outros seguem a linha clássica da teoria da sobre-produção, do sub-consumo [4], e da tendência ao declínio da taxa de lucros [5]. E ainda existe uma esquerda pós-moderna que interpreta a crise atual, como resultado combinado de tudo isto e mais uma série de determinações ecológicas, demográficas, alimentares e energéticas.
Do ponto de vista propositivo, alguns marxistas acreditam na eficácia de uma solução keynesiana radicalizada [6], outros acham que chegou a hora do socialismo [7], e muitos consideram que acabou o capitalismo e a modernidade e só cabe lutar por uma nova forma de globalização solidária, onde as relações sociais sejam desmercantilizadas, e o produto social seja devolvido aos seus produtores diretos [8]. Numa linha diferente, se colocam os autores neo-marxistas que associam as crises econômicas capitalistas, com o que chamam de ciclos e crises hegemônicas mundiais, que envolvem - além da economia - as relações globais de poder [9]. Estas teorias lêem a história do sistema mundial como uma sucessão de ciclos hegemônicos, uma espécie de ciclos biológicos dos estados e das economias nacionais que nascem, crescem, dominam o mundo e depois decaem e são substituídos por um novo estado e uma nova economia nacional que percorreria o mesmo ciclo anterior até chegar à sua própria hora da decadência. Neste momento, a maioria destes autores consideram que a crise econômica atual é uma parte decisiva da crise da hegemonia dos EUA, que deverão ser substituídos por uma novo centro de poder e acumulação mundial de capital, que provavelmente está situado na China.
Do nosso ponto de vista, entretanto, a melhor maneira de pensar o “ sistema inter-estatal capitalista, que se formou a partir da expansão européia do século XVI, não é através de uma metáfora biológica, e sim cosmológica, olhando para o sistema como se ele fosse um universo em expansão contínua. Com um núcleo central formado pelos estados e economias nacionais que lutam pelo "poder global", que são inseparáveis, complementares e competitivos e que estão em permanente preparação para a guerra, uma guerra futura e eventual, que talvez nunca ocorra, e que não é necessário que venha a ocorrer [10]. Por isto, os estados e economias que compõem o sistema inter-estatal capitalista estão sempre criando, ao mesmo tempo, ordem e desordem, expansão e crise, paz e guerra. E as potências que uma vez ocupam a posição de liderança, não desaparecem, nem são derrotadas por seu sucessor. Elas permanecem e tendem a se fundir com as forças ascendentes, criando blocos político-econômicos cada vez mais poderosos como aconteceu, por exemplo, no caso da sucessão da Holanda pela Grã Bretanha, e desta, pelos Estados Unidos, que significou de fato um alargamento sucessivo das fronteiras do poder anglo-saxônico.
Não existe ainda nenhuma teoria que dê conta das relações entre as crises econômicas e as transformações geopolíticas do sistema mundial. Mas o que já está claro faz muito tempo é que dentro do sistema inter-estatal capitalista, as crises econômicas e as guerras não são, necessariamente, um anuncio do "fim" ou do "colapso" dos estados e das economias envolvidas. Pelo contrário, na maioria das vezes fazem parte de um mecanismo essencial da acumulação do poder e da riqueza dos estados mais fortes envolvidos na origem e na dinâmica destas grandes turbulências. Agora bem, do nosso ponto de vista, as crises e guerras que estão em curso neste inicio do século XXI ainda fazem parte de uma transformação estrutural, de longo prazo, que começou na década de 1970 e provocou uma "explosão expansiva" e um grande aumento da "pressão competitiva" interna, dentro do sistema mundial. Esta transformação estrutural em curso começou na década de 70, exatamente no momento em que se começou a falar de crise da hegemonia americana, e de início da crise terminal do poder americano. E no entanto, foi a resposta que os EUA deram à sua própria crise que acabou provocando esta transformação de longo prazo da economia e da política mundial que está em pleno curso.
Basta dizer que foram estas mudanças lideradas pelos EUA que trouxeram de volta ao sistema mundial, depois de 1991, as duas velhas potências do século XIX, a Alemanha e a Rússia, além de incluir dentro do sistema, a China, a Índia, e quase todos os principais concorrentes dos Estados Unidos, deste início de século. Neste sentido, aliás, a“crise de liderança” dos Estados Unidos, depois de 2003, serviu apenas para dar uma maior visibilidade a este processo que se acelerou depois do fim da Guerra Fria, já agora com novas e velhas potencias regionais atuando de forma cada vez mais desembaraçada, na defesa dos seus interesses nacionais e na reivindicação de suas zonas de influência.
Do ponto de vista do sistema inter-estatal capitalista, esta dinâmica contraditória significa que os EUA ainda estão liderando as transformações estruturais do próprio sistema. A política expansiva dos EUA, desde 1970 ativou e aprofundou as contradições do sistema, derrubou instituições e regras, fez guerras e acabou fortalecendo os estados e as economias que hoje estão disputando com eles, as supremacias regionais, ao redor do mundo. Mas ao mesmo tempo, estas mesmas competições e guerras, cumpriram e seguem cumprindo um papel decisivo, na reprodução e na acumulação do poder e do capital norte-americano, que também necessita manter-se em estado de tensão permanente, para reproduzir sua posição, no topo da hierarquia mundial. O fundamental, no fim de cada uma destas grandes tormentas é saber quem ficou com o controle da moeda internacional, dos mercados financeiros, e da inovação tecnológico-militar de ponta.
Neste momento, não há perspectiva de superação do poder militar dos EUA, do ponto de vista de suas dimensões atuais, da sua velocidade de expansão, e da sua capacidade de inovação, apesar dos seu insucesso no Oriente Médio. E tampouco existe no horizonte a possibilidade de substituição dos EUA como mercado financeiro do mundo, devido a profundidade e extensão dos seus próprios mercados e do seu capital financeiro, e devido a centralidade internacional da moeda americana.
Basta olhar para a reação dos governos e dos investidores de todo mundo que estão se defendendo da crise do dólar fugindo para o próprio dólar, e para os títulos do Tesouro americano, apesar de sua baixíssima rentabilidade, e apesar de que o epicentro da crise esteja nos EUA. E o que mais chama a atenção, é que são exatamente os governos dos estados que estariam ameaçando a supremacia americana, os primeiros a se refugiarem na moeda e nos títulos do seu Tesouro. Para explicar este comportamento aparentemente paradoxal, é preciso deixar de lado as teorias econômicas convencionais e também, as teorias das crises e sucessões hegemônicas, e olhar para a especificidade deste novo sistema monetário internacional que nasceu à sombra da expansão do poder americano, depois da crise da década de 70.
Desde então, os EUA se transformaram no mercado financeiro do mundo, e o seu Banco Central (FED), passou a emitir uma moeda nacional de circulação internacional, sem base metálica, administrada através das taxas de juros do próprio FED, e dos títulos emitidos pelo Tesouro americano, que atuam em todo mundo, como lastro do sistema dólar-flexível. Por isso, a quase totalidade dos passivos externos americanos é denominada em dólares e praticamente todas as importações de bens e serviços dos EUA são pagas exclusivamente em dólar. Uma situação única que gera enorme assimetria entre o ajuste externo dos EUA e dos demais países [...]. Por isso, também, a remuneração em dólares dos passivos externos financeiros americanos que são todos denominados em dólar, seguem de perto a trajetória das taxas de juros determinadas pela própria política monetária americana, configurando um caso único em que um país devedor determina a taxa de juros de sua própria dívida externa. [11] Uma mágica poderosa e uma circularidade imbatível, porque se sustenta de forma exclusiva, no poder político e econômico norte-americano.
Agora mesmo, por exemplo, para enfrentar a crise, o Tesouro americano emitirá novos títulos que serão comprados, pelos governos e investidores de todo mundo, como justifica o influente economista chinês, Yuan Gangming, ao garantir que é bom para a China investir muito nos EUA; porque não há muitas outras opções para suas reservas internacionais de quase US$ 2 trilhões, e as economias da China e dos EUA são interdependentes. (FSP, 24/11). Por isto, do meu ponto de vista, apesar da violência desta crise financeira, e dos seus efeitos em cadeia sobre a economia mundial, tampouco haverá uma sucessão chinesa na liderança política e militar do sistema mundial. Pelo contrário, do ponto de vista estritamente econômico, o mais provável é que ocorra um aprofundamento da fusão financeira em curso desde a década de 90, entre a China e os Estados Unidos, e esta integração será decisiva para a superação futura da crise econômica. A crise atual começou na forma de um tufão, mas deverá se prolongar na forma de uma epidemia darwinista, que irá liquidando os mais fracos, por níveis sucessivos, nacionais e internacionais, e aprofundará a corrida imperialista que começou nos anos 90. Na hora da volta do sol poucos estarão na praia, mas com certeza os EUA ainda estarão na frente deste grupo seleto. E quase todos os países que estavam ascendendo nas duas últimas décadas e desafiando a ordem internacional estabelecida, serão recolocados no seu lugar. Neste período haverá resistência e haverá conflitos sociais agudos, e se a crise se prolongar, deverão se multiplicar as rebeliões sociais e as guerras civis nas zonas de fratura do sistema mundial, e é provável que algumas destas rebeliões voltem a se colocar objetivos socialistas. Mas do nosso ponto de vista, não haverá uma mudança de modo de produção em escala mundial, nem tampouco ocorrerá uma superação hegeliana do sistema inter-estatal capitalista.
[1] Minsky, P.H.(1975) The Modeling of Financial Instability: An introduction", 1974, Modelling and Simulation. John Maynard Keynes, 1975, e "The Financial Instability Hypothesis: A restatement", 1978, Thames Papers on Political Economy.
[2] Wade, R. (2008), A new global financial architeture”, in New Left, n53, set/out
[3] Ferrari, F. e Paula, L.F. (2008), Dossiê da Crise, Associação Keynesiana Brasileira, UFRGS
[4] Oliveira, F. (2009), “Vargas redefiniu o país na crise de 30”, in www. cartamaior.com.br, 6/01/2009
[5] Brenner, R. (2008)”O princípio de uma crise devastadora”, in , in Against the Current, fev 2008
[6] Tavares, M.C. (2008), “Entupiu o sistema circulatório do sistema do capitalismo”, in www.cartamaior.com.br13/11/2008 e Belluzzo,L.G. (2008) Cortar gasto publico?”, www.cartamaior.com.br. 13/11/2008
[7] Amin, S. (2008). There is no alternative to socialism, in Indian’s National Magazine, vol 25, issue 26, de 20/12/2008 e Meszaros, I.(2009) A maior crise na história humana”, in www.cartamaior.com.br, 07/02/2009
[8] Wallerstein, I. (2008) “Depressão, uma visão de longa duração”, in www.cartamaior.com.br, 13/11/2008
[9] Arrighi, G. (2008) “A hegemonia em cheque”, in www.cartamaior.com.br, 19/06/2008
[10] Este argumento está desenvolvido em J.L.Fiori “O Poder Global e a Nova Geopolítica das Nações” , Editora Boitempo, São Paulo, 2007, e no artigo “O sistema inter-estatal capitalista, no início do Século XXI”, in J.L.Fiori, C.Medeiros e F.Serrano, “O Mito do Colapso do Poder Americano”, Editora Record, Rio de Janeiro 2008.
[11] Serrano, F. (2008) “A economia Americana, o padrão “dólar-flexível” e a expansão mundial nos anos 2000”, in J.L Fiori, F. Serrano e C. Medeiros, O MITO DO COLAPSO DO PODER AMERICANO,Editora Record, Rio de Janeiro.
PUBLICAÇÕES NA IMPRENSA:
Jornal do Brasil
2009-05-17
Peter Gowan
O novo sistema de Wall Street
Esta é uma versão resumida de um artigo publicado na revista New Left Review, de Londres, sob o título “Crisis in the Heartland: consequences of the New Wall Street System”. O artigo integra o dossiê especial sobre a crise econômica internacional da última edição da Revista Margem Esquerda, lançada pela Boitempo Editorial. Com apresentação de Ivana Jinkins e organização de Emir Sader, o dossiê conta ainda com ensaios do francês François Chesnais (Um momento histórico crítico), do brasileiro José Luis Fiori (A esquerda e a crise) e do americano Robert Brenner (A crise que se aprofunda). Todos analisam a crise internacional e seus impactos. Margem Esquerda publica ainda entrevista com a filósofa Marilena Chauí, concedida a Francisco de Oliveira, Rodrigo Nobile e Olgaria Matos. Respeitado analista internacional, o professor Peter Gowan é autor, entre outros, do livro A roleta global, editado no Brasil pela editora Record.
Grande parte do debate sobre as causas da crise dentro da corrente principal assume a forma de uma teoria “do acidente”. Isso explica a derrocada como resultado de ações contingenciais por parte do Federal Reserve Board (Fed) – comandado então pelo seu ex-presidente Alan Greenspan –, dos bancos, dos supervisores ou das agências de classificação de risco. Já argumentamos contra isso, propondo que uma estrutura relativamente coerente, que denominamos de “novo sistema de Wall Street”, deve ser compreendida como causa da crise. Além disso, devemos observar um aspecto notável dos últimos 20 anos: a extraordinária harmonia entre os operadores de Wall Street e os supervisores de Washington, o sinal de um projeto em integrado.
Uma explicação alternativa, bem aceita nos meios socialdemocratas, é que tanto Wall Street quanto Washington foram tomados por uma falsa ideologia “neoliberal” ou de “livre mercado” que os desviou do bom caminho. Um giro criativo de extrema-direita nessa crença sugere que a ideologia problemática foi o laissezfaire – ou seja, nenhuma regulação –, enquanto se necessita de um “pensamento de livre mercado”, o que implica alguma regulação. A consequência de qualquer das versões é normalmente uma discussão algo inócua sobre “a dose” ou “o tipo” de regulação que consertariam as coisas.
Nem Greenspan nem os presidentes dos bancos acreditaram nas versões sérias desse credo. Greenspan não tem argumentado que os mercados financeiros são eficientes ou transparentes; aceitou plenamente que eles podem tender a bolhas e estouros. Também entenderam que todos os diversos modelos de risco usados pelos bancos de Wall Street eram falhos – e estavam condenados a ser. A solução deles era, em essência, diversificar o risco. Portanto, os modelos ignoraram as ameaças sistêmicas de que Greenspan e outros estavam bem conscientes: uma repentina reviravolta negativa em todos os mercados.
O debate real sobre a organização dos sistemas financeiros não é acerca dos métodos e modos de regulação. É entre opções sistêmicas em dois níveis: 1) um sistema bancário e de crédito público, voltado para a acumulação de capital no setor produtivo versus um sistema bancário e de crédito capitalista, que subordine todas as outras atividades a seus próprios impulsos para o lucro; 2) um sistema monetário e financeiro sob controle cooperativo nacional-multilateral versus um sistema com caráter imperial, dominado pelos bancos e Estados atlânticos atuando em conjunto.
Um modelo público?
Todos os sistemas econômicos modernos, capitalistas ou não, necessitam de instituições de crédito para facilitar as trocas e as transações, de bancos para produzir dinheiro a crédito e sistemas de compensação para facilitar a liquidação de dívidas. Esses são serviços públicos vitais, como o é um serviço de saúde. Eles são também inerentemente instáveis. Ademais, as questões de diretrizes para a canalização do crédito são de grande importância econômica, social e política. Assim, é racional a propriedade pública do sistema bancário e de crédito. Mesmo hoje, a maior parte do sistema bancário alemão permanece em mãos do setor público. O sistema financeiro chinês é, em sua maioria esmagadora, centrado num punhado de grandes bancos de propriedade pública, e o governo dirige suas estratégias de crédito. É possível divisar tal modelo público operando com bancos privatizados. O sistema japonês do pós-guerra teve esse caráter, com todos os bancos estritamente subordinados aos controles das diretrizes do Banco do Japão por meio da janela de redesconto. No pós-guerra, o cartel dos bancos comerciais britânicos pode também ser considerado como operando amplamente dentro dessa estrutura.
Mas o sistema de crédito privado capitalista, centrado nos bancos, operaria dentro da lógica do capital financeiro – na fórmula de Marx, D-D´: adiantando dinheiro a terceiros para ganhar mais dinheiro. Assim que esse princípio é aceito como o alfa e o ômega do sistema bancário, a lógica funcional aponta em direção à apoteose de Greenspan. Esse é o modelo que foi adotado pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido desde os anos 1980: tornar rei o capital monetário. Envolve a total subordinação das funções públicas do sistema de crédito à sua autoexpansão. Na verdade, todo o espectro da atividade capitalista submerge sob o manto do capital financeiro. Esse tem sido o modelo que se tornou dominante, chamado de “novo sistema de Wall Street”. Tem sido um gerador de riqueza extraordinária dentro do sistema financeiro. Mas hoje está em crise profunda.
Dominação financeira
O “novo sistema de Wall Street” alimentou o surto econômico liderado pelos consumidores norteamericanos em 1995–2008. Isso foi respaldado por uma campanha global com o fim de afirmar que esse surto não era resultado de crescimento alimentado por endividamento, ajudado por tendências altamente destrutivas no sistema financeiro, mas pelas instituições do livre mercado.
Aqui, então, encontra-se a base, nas relações sociais mais amplas do capitalismo norte-americano, para a ascensão ao predomínio do “novo sistema de Wall Street”: ele desempenhou papel central em assegurar o crescimento alimentado por dívida. Esse modelo anglo-saxão foi baseado na acumulação de dívida por parte do consumidor: foi crescimento hoje pago por esperada expansão no futuro. Foi um blefe.
Implicações A cantilena servida no passado pelo Tesouro e o Fed acabou. Os sistemas financeiros à moda norteamericana são tidos agora como perigosos. Não menos perigosa é a estrutura dos sistemas financeiros europeus, a qual a crise mostrou que é um castelo de cartas, mesmo que ainda esteja de pé.
As crises dos sistemas norteamericano e europeu terão dois efeitos. Em primeiro lugar, aumentar a credibilidade do modelo estatal chinês, apoiado no sistema financeiro centrado nos bancos. Essa é a séria alternativa aos modelos de crédito do mundo Atlântico. Em segundo lugar, à medida que a crise se desenvolva, parece provável que retorne à vida política a discussão mais ampla do modelo público, reabrindo o debate que foi silenciado desde 1991. Alguns predizem mudanças mais profundas em curto prazo, tais como a substituição do dólar como moeda mundial ou o colapso das instituições ocidentais líderes dentro da economia internacional.
É provável que assistamos à intensificação de duas tendências básicas estruturais nas relações créditodébito de longo prazo na economia mundial. Em primeiro lugar, as relações creditícias entre o mundo Atlântico e seu Sul tradicional na América Latina, África e adjacências, historicamente policiado pelo FMI. Esse relacionamento se enfraqueceu ao longo da última década, mas é provável que seja reforçado na atual crise. Em segundo lugar, as relações de devedores complementares entre os EUA e as economias do novo centro de crescimento da Ásia Oriental, que provavelmente se aprofundarão e se estreitarão, em particular entre a China e os EUA. Esse é um relacionamento de poder no qual a China e outros credores podem exercer alavancagem política real sobre Washington. As economias da Ásia Oriental, especialmente a China, provavelmente se tornarão ainda mais críticas das tendências macroeconômicas mundiais, enquanto a centralidade dos EUA se enfraquecerá durante sua longa estagnação.
Por duas razões, ainda não parece claro se isso significará que a Ásia Oriental começará a construir um novo mercado de arranjo institucional para a economia mundial, desafiando aqueles do mundo angloamericano: em primeiro lugar, as divisões internas dentro da Ásia; em segundo, a questão das atuais prioridades estratégicas da China. A Ásia Oriental tem óbvio interesse em construir seus próprios mercados de commodities e petróleo centralizados, e de promovê-los à liderança mundial, pondo fim à predominância de Londres e Chicago. Mas a China agora está muito sobrecarregada na manutenção do crescimento doméstico e tentando transferir a dinâmica da acumulação de capital da costa para o interior. Atualmente, não tem o menor interesse em desafiar os norte-americanos na modelação das instituições da economia mundial. Assim, os EUA têm algum espaço para respirar. Mas é tal a força social e política de Wall Street, e as fraquezas das forças sociais que poderiam pressionar por uma reativação industrial lá, que parece mais provável que a classe capitalista norte-americana perderá a oportunidade. Se isso ocorrer, ela desfrutará de outro round de crescimento do PIB alimentado por dívida, financiado pela China e outros, enquanto os EUA se tornarão menos importantes para a economia mundial.
Peter Gowan é professor de Relações Internacionais da London Metropolitan University e um dos editores da revista New Left Review. Tradução de Luiz Mariano de Campos.
PUBLICAÇÕES NA IMPRENSA:
Jornal do Brasil
2009-05-31
Robert Brenner
A crise que se aprofunda
A crise que se desenvolve na economia mundial é inegavelmente a mais devastadora desde a Grande Depressão e poderá ser análoga em termos de gravidade. Isso porque ela manifesta problemas enormes e não solucionados na economia real, literalmente envolta por um endividamento de décadas, bem como um colapso financeiro de profundidade não vista desde a época do pós-guerra. É a interação mutuamente agravante entre o enfraquecimento da acumulação de capital e a desintegração do setor financeiro, o que tem impedido os formuladores de políticas de reverter a inclinação da queda e tornado seu potencial para a catástrofe tão evidente.
Compreensivelmente, os analistas da crise têm tomado como ponto de partida o colapso do setor bancário e do mercado de títulos, o epicentro do terremoto. Com poucas exceções, eles continuam a sustentar não apenas que a crise pode ser explicada por problemas no setor financeiro, mas também que a economia real é forte e que os chamados fundamentos estão em boa forma. Isso não poderia ser mais enganoso.
A fonte primária da crise atual é a declinante vitalidade das economias avançadas desde o fim do surto do pós-guerra em 1973 e, especialmente, desde 2000. Indicadores apontam que o desempenho econômico tem se deteriorado a cada ciclo de negócios. Mais importante, o ciclo de negócios recém-concluído, de 2001 a 2007, foi de longe o mais fraco do período pós-guerra nos EUA, Europa Ocidental e Japão; isso apesar do maior estímulo econômico patrocinado pelo governo americano em tempos de paz – superávits e déficits governamentais, empréstimos hipotecários recordes das famílias, que tornaram possível a subida do preço das moradias e a taxa de câmbio declinante do dólar.
O enfraquecimento secular da acumulação de capital e da demanda agregada tem se enraizado no declínio e na falha em se recuperar a taxa de retorno do capital, que perpassa todo o sistema e que decorre da tendência persistente do excesso de capacidade, isto é, de oferta nas indústrias mundiais. Desde o começo da redução do crescimento, as autoridades impediram as crises por meio de empréstimos públicos e privados, sempre crescentes, que subsidiavam a demanda, em especial durante as recessões. Mas elas asseguravam um mínimo de estabilidade às custas do aprofundamento da estagnação, pois a acumulação sempre crescente de dívida e a incapacidade de dissipar o excesso de oferta deixaram a economia ainda menos sensível a estímulos.
Clinton
Na maior tentativa de romper o vício do endividamento, em 1993, o governo Clinton e, posteriormente, os seus pares europeus começaram a equilibrar o orçamento. Mas o impacto resultante na demanda ajudou a empurrar as economias avançadas ao seu pior ciclo depressivo do pós-guerra, entre 1991 e 1995, deixando o sistema sem um motor.
Para estancar o sangramento e garantir o crescimento, o Federal Reserve Board (Fed, o BC americano), logo após meados da década, recorreu ao remédio desesperado adotado pelas autoridades econômicas japonesas nos anos 1980. As empresas e as famílias, ao invés dos governos, dariam impulso à economia por meio de rounds titânicos de tomada de empréstimos e corte de gastos, tornados possíveis pelos históricos incrementos nas respectivas riquezas contábeis, permitidas pelas altas recordes nos preços dos ativos, estes animados pelo baixo custo dos empréstimos. Os déficits privados, empresariais e das família substituiriam os públicos. Assim, o dinheiro fácil foi disponibilizado ao longo de todo o período subsequente. A debilidade do investimento empresarial causou uma drástica redução na “demanda” por crédito nesse setor. A interminável compra de ativos em dólar por parte dos governos do Leste Asiático, com o objetivo de manter depreciado o valor das suas moedas, respondeu pela crescente “oferta” de empréstimos subsidiados. Assim, o custo real do empréstimo de longo prazo caiu firmemente. Enquanto isso, o Fed se certificava de que as taxas de juros de curto prazo não aumentassem, para não prejudicar a realização de lucros nos mercados financeiros, caso reduzissemse as taxas dos fundos federais. Observou-se nos últimos 12 anos o espetáculo de uma economia mundial na qual a continuidade da acumulação de capital tornou-se literalmente dependente das históricas ondas especulativas, alimentadas por dirigentes e reguladores estatais – primeiro nas ações, entre 1995 e 2000, e, posteriormente, nos empréstimos habitacionais alavancados entre 2000 e 2007.
Mas enquanto a substituição do que poderia ser chamada de determinação de preço keynesiana, para a superada versão a partir de 1996, era incapaz, ainda mais que sua antecessora, de reverter a implacável tendência subjacente a um enfraquecimento econômico sistêmico, ela não poderia senão aumentar a exposição do sistema a uma crise financeira. O ascendente preço das ações impulsionaram o surto da “Nova Economia”. Mas, já no verão de 1998, a expansão econômica dos Estados Unidos começava a desacelerar, tanto pela queda dos lucros empresariais não financeiros como pelo preço das ações.
O outono seguinte assistiu ao mais assustador colapso financeiro até aquela conjuntura no pós-guerra, e a economia mundial parecia caminhar para uma profunda queda cíclica. Contudo, por meio de uma épica série de reduções de juros, o Fed superou a crise pela reativação da bolha do mercado acionário. Mas não pôde evitar que o sistema entrasse em uma grave recessão em 2000 e 2001, quando a forte queda do mercado de ações privou a economia do seu motor principal.
A taxa de juros de longo prazo continuou a cair, propiciando a base para novas bolhas, desta vez de empréstimos habitacionais e alavancados. As taxas de juros das hipotecas caíram drasticamente e levaram a um crescimento do preço das casas e da riqueza das famílias. Ainda em 2003 e apesar do estímulo, os lucros, os investimentos privados, o emprego e as exportações ainda não conseguiam atingir o nível apresentado em 2000. Ademais, o mercado de hipotecas estava no pico, enquanto reduziam-se as condições de acesso às habitações por causa da explosão do preço das moradias, ameaçando a riqueza contábil habitacional e a expansão econômica. Como em 1998, isso requereu uma dramática intervenção por parte do Fed para manter a economia em expansão. O presente do Federal Reserve de dois anos de taxa de curto prazo real abaixo de zero, bem como sua determinação em convidar e supervisionar uma histórica queda nos padrões do empréstimo hipotecário, criaram as condições para um aumento súbito e massivo desses empréstimos subprime desde 2003, e o último tornou possível a continuação da corrida habitacional e do ciclo ascendente.
Ainda assim, é mais do que improvável que credores pudessem ser encontrados em quantidade suficiente para financiar esses empréstimos duvidosos e sustentar a expansão, se não tivesse ocorrido também o prolongado declínio da taxa de juros de longo prazo. Outra histórica explosão especulativa, desta vez nos mercados de crédito internacional, provou-se, assim, indispensável para manter o crescimento da economia real.
Mas isso serviu de testemunho do enfraquecimento da economia. Pois, apesar do maior estímulo em tempos de paz da história da economia americana, o ciclo de negócios seguinte foi de longe o mais fraco do período pós-guerra. Quando a bolha habitacional perdeu força em 2006, uma economia real, que tinha dependido de empréstimos hipotecários inadimplentes, mergulhou inexoravelmente em recessão, enquanto o setor financeiro, que submergiu em ativos enormemente sobrevalorizados por hipotecas inadimplentes, desabou. O preço de moradias, em queda, minou a riqueza das famílias, a demanda dos consumidores e o capital das instituições financeiras; e uma séria recessão começou.
O que tornou o espectro de uma severa queda cíclica em uma realidade de uma catastrófica crise sistêmica foi o desenvolvimento, no setor financeiro, de um “sistema bancário paralelo”. De acordo com o mantra de Wall Street, a excitação no mercado de crédito, de fato, representava pouco perigo sistêmico, pois os grandes bancos, dos quais a economia dependia para o fornecimento de crédito, estavam ostensivamente securitizando as hipotecas que eles originaram ou compraram, e vendiam-nas amplamente, dispersando o risco entre milhões de investidores. Mas, logo após o colapso inicial de crédito do começo de agosto de 2007, tornou-se claro que a realidade era o oposto. Em resposta à intensificada competição e à queda dos retornos – ajustados aos riscos – que estavam afetando o setor financeiro – e, na esperança de se faturar uma “bolada” por meio de ganhos de capital com bolhas de ativos lastreados em hipotecas –, as maiores casas financeiras do país mantiveram quantias assustadoramente grandes de instrumentos lastreados em hipotecas que haviam emitido, e estavam financiando esses ativos muito perigosamente nos mercados de crédito de curto prazo. Assim, quando o preço das moradias caiu, muitas dessas instituições se encontravam efetivamente destituídas do seu capital e sem acesso ao crédito, de fato, em bancarrota.
O colapso do mercado financeiro prejudicou a capacidade de empréstimos às corporações e às famílias. Isso acelerou o desdobramento da crise de consumo, emprego e lucro na economia real, o que – pela exacerbação da queda de preços do mercado imobiliário e, consequentemente, dos títulos lastreados por hipotecas – tornou o colapso do setor financeiro menos controlável.
Mas isso era apenas metade da história. O problema não era somente que as empresas e as famílias não podiam obter o crédito que precisavam, mas que não iriam ou não podiam demandá-lo. Ao longo de todo o ciclo de negócios, as empresas fizeram pouquíssimos investimentos e, portanto, pouquíssimas tomada de empréstimos para expansão. Como esperar que o fizessem agora, face ao colapso da demanda e do lucro em queda? A economia enfrentou um ciclo em espiral declinante, que se retroalimenta, e é perigoso.
Com a economia real em desintegração, tornando-se ainda mais desastroso o histórico colapso financeiro, e vice-versa, como poderiam as autodescritas intervenções do governo, conquanto titânicas, conter esperançosamente a maré? Onde, quando e como isso vai acabar não passa de especulação.
Este artigo foi publicado originalmente na edição n. 13 da revista Margem Esquerda, da Boitempo Editorial.