Beatriz Resende
Não tem jeito, fim de ano é mesmo época de balanços, ganhos e perdas, melhores e piores. O ano teve suas peculiaridades: certamente, não se fala mais em globalização do mesmo modo que se falava antes do 11 de setembro. A dicotomia Oriente/Ocidente tomou face nova, mediações se impondo, bandidos e mocinhos, vítima e heróis se confundindo. Argentina e Brasil não se regem mais pelos antagonismos tradicionais, antes dividem medos similares. Se os nosso vizinhos “dá-me-dois”, mergulhados em súbita latinoamericanização, tiveram que rever a arrogância de outros tempos, do lá de cá invejamos a garra que souberam mostrar, a valentia das senhoras tão dignas logo de volta cobrando seus mortos, o povo na rua reclamando comida e emprego, demitindo ministro.
As dicotomias cada vez dão menos conta do que se passa mundo afora e unanimidade só mesmo em torno da facilidade de encontrarmos piores momentos do ano. Em alguns casos, como na TV, difícil é desempatar.
Surpreendentemente, porém, na contramão da enxurrada de piores do ano, veio, porém, nossa literatura. Remando valente, sobreviveu a crises, a desvalorizações do real, aos cortes de gastos . Bravamente reagiu à política a favor da ignorância nacional, autorizada e institucionalizada, comandada pessoalmente por nosso Ministro da Educação. Nadando a contrapelo, o universo editorial trouxe alegrias a crianças e adultos. Boas traduções e interessantes autores novos continuam mostrando que, como dizia Flaubert, mergulhar na orgia perpétua da literatura continua sendo a única maneira de se suportar a existência.
As pequenas editoras mostraram, mais uma vez, que estão no páreo para valer. A Aeroplano, junto com o Paço Imperial, passou o ano apostando na revisão corajosa e minuciosa do Modernismo brasileiro e terminou arrasando com a charmosa caixinha que junta artes plásticas, arquitetura e a poesia do Rio de Janeiro. A Dantes foi andando devagarzinho mas acabou o ano com gol de placa lançando “O autor mente muito” de Carlos Sussekind e Francisco Daudt da Veiga.
Mas os tempos de Fla-Flu parecem ter acabado num ano que esteve mais para São Caetano e Atlético Paranaense e, daqui deste balnerário a caminho de se transformar em piscinário, escolho saudar a paulista editora Boitempo. Também recente – criada em 1995 – também dirigida por mulheres, a Boitempo viu sua coragem em apostar em jovens escritores brasileiros altamente premiada.
Segundo Ivana Jinkings, uma das donas, o nome da editora é homenagem ao poema de Drummond que deu nome a livro mas também à pequena editora do pai, uma Boitempo do Pará, por onde o valente comunista editava livros que não demoravam a ser apreendidos. A própria Ivana passou pela escola de quadros que já foi o Partidão e escreveu para o Voz da Unidade, jornal do PCB que teve lá seus bons momentos.
A verdade é que a Boitempo escolheu ter cara, cor e cheiro, o que não anda sendo muito comum em tempos de neoliberalismo. Investiu em autores agressivos que podiam ou não dar certo, bancou ensaios sobre pensadores fora de moda como o velho e bom Georg Lukács ou Astrogildo Pereira, o utópico que acreditava ser “melhor errar coletivamente do que acertar individualmente”, apostou numa tradução cuidadosa de “Aurora” do vienense Arthur Schnitzler, menos lembrado do que merece.
Sem dúvida alguma, o lançamento mais importante do ano foi “Eles eram muito cavalos”, de Luiz Ruffato. Com esse conjunto de fragmentos, reunidos em torno da unidade de tempo – um só dia – e de lugar – a cidade de São Paulo, Ruffato garantiu um espaço de indiscutível importância no nosso universo literário, continuando uma carreira que começou pela poesia mas encontrou na prosa arrojada um tom de rara felicidade. Foi na própria Boitempo que Luiz Ruffato publicou os contos de “Histórias de remorsos e rancores”( 1998) e seguiu com o premiado “(os sobreviventes)”, de 2000. Valeu a confiança numa prosa que junta o experimentalismo necessário a sacudir a acomodação reinante nos relatos intimistas ou pseudo históricos que andam por aí com domínio arte verbal e uma erudição que não se exibe mas transparece.
Foi um conjunto de autores surgidos na década de 90 que garantiu à editora outro excelente resultado: “Geração 90: manuscritos de computador”, organizado por Nelson de Oliveira, autor que, muito elegante, não se incluiu e foi publicar seu conjunto de narrativas “O filho do crucificado” no Ateliê Editorial. Com a seleção proposta, Nelson de Oliveira calou de vez a boca dos que achavam que a literatura brasileira vivia do passado.
É claro que nem tudo foi perfeito, “Plínio Marcos, a crônica dos que não têm voz”, não funcionou. Muita teorização, muito necrológico, para pouca crônica. E também não é toda crônica, por mais importante que tenha sido no momento de sua publicação, que resiste satisfatoriamente ao “congelamento” em livro.
Por outro lado, “Moscow” de Edyr Proença mostra que vale a pena ficar de olho nesse moço. A breve história, passada na Praia do Mosqueiro, ilha próxima de Belém, que a garotada local chama de Moscou, tem um tom de “Rap do Pequeno Príncipe”. Fala de pobreza, de crimes violentos, da vida que não vale nada. A violência gratuita ou por uns trocados não é mais exclusiva das grandes cidades. Globalização do funk, das facadas e dos estupros. Um pouco machinho demais para meu gosto (precisa ler mais Mirisola) mas original na revelação de uma realidade perversamente funkeira do Pará, mostrando que o autor pode vir a ser mais uma aposta exitosa da editora.
Parabéns, portanto, à turma de Boitempo Editorial e se 2002 for bom para a editora certamente será também para o leitor.
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