Duas edições para desfazer desentendidos sobre Marx
Para assinalar os 140 anos da Comuna de Paris, chega nova edição, traduzida do original em inglês, de A guerra civil na França. Karl Marx elaborou esse conjunto de textos no calor dos acontecimentos do início dos anos 1870, em nome do Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores. Paralelamente, em uma nova edição a partir do alemão de O 18 de brumário de Luís Bonaparte, sobre o golpe de estado de 1851, o pensador analisa como o personagem-título, presidente da França e sobrinho de Napoleão, impediu a eleição que indicaria seu sucessor e se proclamou imperador. Os textos sobre Luís Bonaparte não eram folhetos político-partidários como os do livro sobre a Comuna de Paris, mas sim artigos para uma revista de Nova York, publicada em alemão e destinada a simpatizantes da revolução socialista.
Como ocorre com outros textos de Marx, uma coisa é o que ele escreveu e outra o que muitos adeptos leram em seus escritos. Nos dois trabalhos, antes de comentar os assuntos, o pensador realizou um exaustivo exercício de investigação a partir de jornais, revistas e livros. Escrevendo, como vimos, no calor dos acontecimentos, Marx pressupunha de quem o lia o conhecimento dos fatos. Na verdade, se não estudar a história do golpe de 1851 e da Comuna de 1871, o leitor se perderá entre nomes, alusões e glosas. Não lhe adiantam muito as observações dos editores, mesmo porque, pelo menos no caso de O 18 de brumário, há grande confusão nelas. Uma das notas, por exemplo, na página 18, remete para aquela da 70, que não existe (a nota 69 é a última do livro).
Mas a investigação serviu, como dizia Lenin, para Marx fazer "uma análise concreta de uma situação concreta", muito bem documentada, mostrando como, por trás da luta entre os grupos ligados ao jornal National, ou entre as facções militares, pairavam as lutas de classes nas quais intervinham as diferentes facções do proletariado, os diferentes setores da burguesia e da pequena-burguesia, a massa algo indistinta dos camponeses. E é aqui que está o problema. Como os nomes das classes são fáceis de entender, muitos leitores de Marx, em vez de perceberem que estavam lidando com análises de situações muito concretas, e que estavam diante de textos político-partidários, julgaram deparar tão somente com uma teoria abstrata, e passaram a procurar em outras situações as mesmas facções do proletariado, os mesmos setores da burguesia etc., como se fossem essências imutáveis, almas eternas, incapazes de se modificar. Por exemplo, tornou-se célebre o fato de muitos marxistas considerarem os assalariados do setor de serviços como "pequenos-burgueses". Por essas e outras, Marx ainda viveu para dizer: "Não sou marxista".