Da Primavera Árabe a Wall Street, com passagem pelos indignados europeus, os levantes londrinos e os estudantes chilenos, diferentes motivos e circunstâncias levaram à onda de manifestações pelo globo. Há mais diferenças que semelhanças, mas pelo menos um traço crucial os movimentos possuem em comum: o sujeito coletivo. Em todos esses lugares, os protagonistas das mobilizações são jovens. Uma juventude precarizada, por um lado, pelas relações de trabalho. Por outro, pela opressão política dos Estados nacionais, pela deterioração dos serviços públicos e pela retirada de direitos, na esteira da contenção de gastos.
Do ponto de vista desse sujeito coletivo comum - o jovem - o momento atual guarda semelhanças com o maio de 68, apontou Ruy Braga, professor de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP) e um dos organizadores do livro Infoproletários: degradação real do trabalho virtual(Boitempo, 2009), em conversa com a coluna. Mas ele salienta que há uma diferença crucial. Aquela era época de expansão econômica. Agora, o período é de crise prolongada, o que acrescenta elemento explosivo ao atual caldeirão. Ruy participa hoje do debate “Ocupar o mundo”, em São Paulo, promovido pela Boitempo Editorial. Ao lado do sociólogo Francisco de Oliveira, do economista Paul Singer, entre outros, ele discutirá os rumos da atual crise do capitalismo.
A NOVA FORMA DE COMBATE
Ruy Braga destaca que a atual onda de levantes representa o amadurecimento das formas de protesto. Desde a década de 90, os grandes atos, em particular os anticapitalistas, tinham como alvo os grandes eventos, como reuniões do Banco Mundial, do G7 ou da Organização Mundial do Comércio. Era relativamente fácil mantê-los sobre controle. Mas os movimentos aprenderam que é muito mais difícil para os poderes estabelecidos lidar com contramovimentos que se apóiam na ocupação política e simbólica de espaços públicos.
INDIGNADOS BRASILEIROS EM FORMATOS TRADICIONAIS
No Brasil, os protestos organizados a partir das redes sociais são ainda embrionários. A maior sintonia com movimentos no mundo inteiro vem de formas e setores tradicionais. Tais manifestações de descontentamento puderam ser vistas nas greves em obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), no começo do ano, nas greves de professores praticamente no Brasil inteiro, nas paralisações dos bancários, dos Correios e muitas outras. “Aqui o ritmo é outro, a crise é outra”, aponta Ruy Braga.