Em Cinismo e falência da crítica, Vladimir Safatle discute alienação e desejo numa nova ordem social
A crítica do cinismo como forma predominante da subjetividade contemporânea é conhecida dos leitores de Peter Sloterdijk. Mas me parece que a leitura de Crítica da Razão Cínica pode nos levar a entender que o sujeito da "falsa consciência esclarecida" seria imune à alienação. Como se amodernidade capitalista, em sua fase avançada, tivesse aperfeiçoado de tal maneira os dispositivos de engajamento subjetivo em relação à nova ordem social a ponto de dispensar a alienação. Diante de dificuldades teóricas desta ordem, o filósofo e professor da USP Vladimir Safatle acaba de empreender mais um esforço, mais uma volta no parafuso do pensamento crítico que, de Regel a Kant, passando por Adorno e seus companheiros da Escola de Frankfurt, dedicou-se a compreender as transformações sofridas pela consciência cínica, desde a antiguidade clássica (Diógenes) até as variantes do cinismo moderno.
Ninguém melhor do que Safale, no Brasil, para levar a cabo a tarefa. Em Cinismo e falência da crítica, o autor de A paixão do negativo (Unesp) e Lacan (Publifolha), entre outros, dá sequência a seu projeto "freudiano-marxista" - portanto, radicalmente materialista - de abordagem dialética da modernidade. O estudo sobre as transformações do cinismo moderno, desde
Diderot (O Sobrinho de Rameau) até nossos dias, procura desvendar com o auxílio de pensadores atuais como Slavoj Zizek, Giorgio Agamben e Paulo Arantes, as grandes linhas de força que atam o sujeito contemporâneo à nova ordem capitalista a
partir do que lhe é mais indomável e íntimo (ou extimo, como leria Lacan num de seus terríveis neologismos): seu próprio gozo. Os seis ensaios independentes do livro abordam, a partir de objetos diferentes duas questões fundamentais: 1. em que consiste a alienação e 2. qual a função da crítica em uma sociedade que já não acredita em seus pressupostos normativos.
O autor parte da observação de que o capitalismo, em sua fase consumista (a partir dos anos 1960-70) passou a contar com novos dispositivos que realizam o controle social através de seu oposto aparente: a multiplicidade de modos de vida e a flexibilidade da personalidade. A eficiência dessa modalidade "fluida" do poder disciplinar coloca em questão o que Adorno percebeu como a solidariedade necessária entre identidade e ideologia. A ilusão oitocentista do homem "idêntico a si mesmo" (e às suas idéias) foi dispensada no mundo em que a primeira condição de inclusão no laço social é a permanente disponibilidade dos sujeitos para todas as novidades do mercado. O novo sujeito da sociedade de consumo é explicitamente convocado a relacionar-se com a Lei de acordo com sua conveniência. Para Safatle, o cínico atualizado tem mais afinidades com o perverso freudiano, que se autoriza tomar a Lei do Pai na versão que lhe convém, do que com os grandes mestres da ironia dos séculos 18 e 19. A razão cínica, como (falsa) consciência esclarecida, é capaz de denunciar o caráter ilusório, de crença, dos pressupostos que sustentam a ordem, de modo a autorizar o sujeito a ocupar um lugar de exceção diante da Lei.
Mas seria a consciência cínica transparente também para si mesma? A denúncia das crenças que sustentam a ordem social seria sufIciente para fazer do cínico um sujeito imune às formações do inconsciente? O autor cita Zizek, para quem a opacidade ideológica que permite a alienação, até mesmo da falsa consciência esclarecida, não passa pela crença (ou pelo saber), mas pela repetição de fazeres automatizados, que Althusser chamou de "rituais materiais". Ora, automatismos de repetição indicam a persistência das manifestações do desejo inconsciente. É o que Safatle afirma logo adiante: o engajamento dos sujeitos na ordem contemporânea não se dá pela via da razão, mas do desejo inconsciente. Cai por terra, dessa forma, a pretensão de transparência total da consciência cínica.
O primeiro ensaio da segunda parte do livro, Por uma crítica da economia libidinal, serve-se de Freud e Lacan para investigar em que ponto a consciência cínica falseia. A velha culpa do eu diante dos imperativos morais do supereu teria sido abolida em uma sociedade regida pelo imperativo do gozo? É evidente que não, uma vez que a obrigação de gozar é o mais cruel e exigente mandato do supereu.
Sob a fragilidade da Lei explícita já estaria em vigor outra Lei, perpetuando frente a outro Mestre a servidão, que nunca foi tão docemente
voluntária, dos ditos "consumidores" do terceiro milênio. O capitalismo atual não manteria ainda falsas interdições apenas a fim de nos seduzir com o permanente convite à transgressão que sustenta a nova ordem consumista?
A leitura de Cinismo e falênda da critica esclarece que, ao não crer em nada, o cínico ainda crê na possibilidade de realizar a versão mais infantil da lei: a lei do gozo. A "ética do direito ao gozo" com que Sade inaugurou a modernidade seria a forma mais infantil de obediência a que o cínico está submetido, identificando-se não a um valor, mas a uma atitude. Paradoxalmente, neste ponto a artimanha do cinismo vem a claudicar: o cínico não está imune ao fatalismo melancólico descrito por Walter Benjamin, desencantado coma "realidade sem substância" que ele próprio trabalha docilmente para produzir.
Maria Rita Kehl,
psicanalista, é autora de Sobre ética e psicanálise e Ressentimento, entre outros
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