Questão conceitual
EVANDO NASCIMENTO
ESPECIAL PARA A FOLHA
Considero sempre temerário que se transforme o debate intelectual em vitimização. Em nenhum momento desqualifiquei "Cinismo e Falência da Crítica" (editora Boitempo, 216 págs., R$ 36), de Vladimir Safatle [no Mais! de 5/10].
Ao contrário, atendendo ao convite do caderno, começava a resenha afirmando expressamente o interesse em lê-lo. Deixo, portanto, ao eventual leitor comparar minhas reflexões ao conteúdo do livro.
Dada a insuficiência argumentativa de Safatle em sua réplica do último domingo, comentarei apenas o rótulo "pós-estruturalista", que o autor insiste em utilizar.
Quando, muito raramente, me ocorre referi-lo, ponho todas as aspas e explico que, ao contrário do estruturalismo, o qual constituiu um movimento com um programa relativamente estabelecido e com participantes autodeclarados, jamais os autores chamados de "pós-estruturalistas" (sobretudo Deleuze, Foucault e Derrida) se definiram assim.
Como todo rótulo, esse serve apenas a quem quer lidar com a filosofia de modo enciclopédico, e não como debate efetivo de idéias. Confunde-se geração com homogeneidade teórica.
Na França, "pós-estruturalismo" é uma designação que causa espanto, pois só se justifica no âmbito norte-americano, onde principalmente os detratores sentiram a necessidade de rotulá-los, para poder melhor atacar, gerando uma falsa identidade, por vias negativas, como muitas vezes ocorre.
Incumbe à lucidez filosófica evitar o amálgama, esse sim típico de Wikipédia. Haveria muito mais a comentar sobre os problemas conceituais e metodológicos do livro, mas, para este espaço, considero suficiente.
EVANDO NASCIMENTO leciona na Universidade Federal de Juiz de Fora (MH).
Risco necessário
VLADIMIR SAFATLE
ESPECIAL PARA A FOLHA
Quero acreditar que esta será a oportunidade para uma confrontação de idéias que, infelizmente, não houve na resenha de Evando Nascimento.
Nada seria pior para os leitores que ver alguém abandonar tal oportunidade e repetir equívocos resultantes de leitura apressada, valer-se de expedientes pouco recomendáveis, como selecionar trechos descontextualizados, cobrar explicações e fundamentos de operações de interpretação que já forneci em outros livros e artigos ou ainda ignorar que o projeto de meu livro (compreender modificações estruturais em processos gerais de racionalização social) exige a constituição de campos de interface entre áreas como teoria social, psicanálise, estética e filosofia.
Não fui o primeiro a confrontar-se com uma necessidade dessa natureza. Certamente não serei o último. De toda forma, a título de esclarecimento sobre uma "questão de método", creio profundamente que uma dimensão maior da interpretação de textos da tradição filosófica consiste em identificar articulações e diálogos possíveis entre experiências intelectuais muitas vezes marcadas por contextos e épocas distintas.
Diga-se de passagem, alguém como Derrida (especialidade de Nascimento) fazia isso muito bem. Posso defender, com tranqüilidade, todas as articulações que sugeri e tenho certeza de que o tempo mostrará que algumas articulações mais "arriscadas" estavam corretas.
Não se abandona o rigor filosófico quando se admite, conscientemente, a necessidade de assumir riscos. As melhores experiências intelectuais do século 20 nos ensinaram isso. Deveríamos aprender com elas.
VLADIMIR SAFATLE leciona filosofia na USP.
|