A partir da perspectiva histórica, o filósofo Vladimir Safatle reflete sobre o lugar do cinismo no mundo contemporâneo
Nas mais de 200 páginas de Cinismo e falência da crítica, do filósofo VIadimir Safatle, passamos por Hegel, Foucault, Freud e Lacan, em aparente tour pelas pirâmides do pensamento ocidental, mas sem abandonar um motivo central de todo esse percurso; o capitalismo contemporâneo e as regulações em geral como evidências de uma lógica pautada pelo cinismo. Essa lógica sustenta-se pela indiferença, pela descrença e pela "distância", tendo em vista a ausência de convicção nas ações e nos discursos. Tais regulações carregam sua própria crítica, anulam a crítica de "fora" e colocam o cinismo como instância superior, sem compromissos e responsabilidades.
Cinismo como base das regulações das formas de vida, regulações não mais coercitivas e com vista a um engajamento, mas baseadas no estímulo do prazer e na flexibilidade das identidades. Cinismo como anomalia aceita como padrão em momentos de crises de normatizações, de indeterminação, de convivência entre discursos e práticas em oposição (sem cair na histeria freudiana, mas em um processo de "interversão", no mesmo solo). O quadro em que isso se dá, seguindo Safatle, é da ironização absoluta de condutas e valores. O cinismo é a desafecção em situações nas quais se espera indignação. É o conceito de "indigno", nesse panorama, que é colocado abaixo. A dignidade, para o cínico, não é questão.
Safatle desenvolve uma perspectiva histórica do cinismo, desde os cínicos gregos, que negavam a polis e desejavam a physis, procurando em uma instância perdida, não retornável (o homem natureza), um contraponto aos padrões de conduta (a cultura, a sociedade). Uma negação resignada, sem projeto, condicionada pelas estruturas criticadas, liberta de vinculos e de paixões, de compromissos e valores. Não seria cínico o crítico impotente e cético, para quem a impotência e o ceticismo são condições, não efeitos somente, porque essa falta de crença e projeto lhe dá liberdade, se
não para a atuação crítica, certamente para agir
sem inibições e referências limitadoras da ação. No cinismo, pode-se tudo, sem culpas. O que está em jogo, afinal, não é a responsabilidade?
Essa seria a lógica de uma época considerada pós-ideológica, em que, em vez de o sistema justificar-se ou esconder seus efeitos nocivos, assumeos ironicamente e esvazia a crítica "de forá', produzindo, assim, uma ideologia da transparência e não do mascaramento. Uma ideologia reflexiva, um enunciado que se anula, sem com isso ser abalado, justamente porque o paradoxo, em vez de colocar o sistema em crise, acaba por ser a base de sua manutenção. Idéias adaptam-se a realidades sociais contrárias a seus ideais. A ausência de legitimidade torna-se o núcleo da forma de nosso tempo. Um novo processo de conservação, não mais a partir de conflitos entre posições, mas sustentado pela mobilidade dessas posições, pela convivência entre contrários aparentes.
Mantendo-nos na trajetória de Safatle, essa
contemporaneidade vive um deslocamento do
Super Eu, que era mobilizador da culpa pelo gozo em Freud e se transformou em estímulo ao gozo em Lacan, mas agora um gozo sem culpa, sem vinculos, sem compromissos, um gozo as vezes soterrado pela necessidade da escolha pelo prazer. Não há mais a ética calvinista do acúmulo (imagem do banco) e da rejeição ao gozo, ou do gozo no próprio trabalho (imagem do escritório), mas sim uma cultura do consumo vinculada a essa noção de gozo (o shopping), de descartabilidade, de quantidade associada a uma insatisfação permanente, que resulta em busca também permanente por novas insatisfações. O consumista é um Don Juan. O gozo não se prolonga, ele se multiplica.
Mas não haveria uma regulação do gozo, como pensava Foucault, no sentido de padronização? Não para Lacan e Safatle. Não apenas o bonito e o saudável é chamado à festa hedonista, mas também o feio e o doente, porque tomar remédios é quase motivo de orgulho. Qualquer identidade, seja a do atleta ou a do depressivo, e talvez mais ainda a do atleta deprimido, têm lugar nessa festa. Porque nenhuma identidade atende à sede do gozo supremo, assim co
mo ninguém crê nessa utopia. É preciso manter-se em movimento de troca. Dentro dessa dinâmica "bipolar", uma mesma marca, em anúncios em uma mesma revista, pode ter dois discursos distintos, porque o próprio público não é único. O público "são" vários e em mutação. O máximo de segmentação, na verdade, pressupõe o máximo de mobilidade. Não existem vários públicos fixos e em confronto. Existe um grande público em constante transformação e troca de lugares.
Safatle relativiza a potência rebelde do riso segundo Bakhtin, lembrando que, se o carnaval propõe a inversão da norma, ao seu final a norma se recoloca, sem conflitos, com aceitação generalizada. O carnaval é, portanto, a hora do recreio, assim como todo tipo de "riso crítico", não mais que zona de escape, sem efeitos transformadores, porque está incorporado. O próprio Estado financia obras críticas a suas incompetências, assim como as empresas patrocinam narrativas críticas ernrelação ao capitalismo. Nada há mais a esconder. A opacidade está na transparência, a alienação na revelação. Não se trata de engano, mas de aceitáção, mas com os sinais invertidos.
Não há cinismo sem ironia, a linguagem do cínico. A ironia pressupõe entendimento do deslocamento do signo em relação a sua significação. O dizer não está para onde ele aponta. Para o irônico, a realidade é insatisfação, gerando inadequação da experiência e uma atitude de desaprovação sem indignação, com ar de superioridade e potência na indiferença. O cínico não é o hipócrita e não age de má-fé, pois, para isso, teria de mascarar a particularidade de seus interesses, apelando para a universalidade do dever como estratégia. O cínico assume-se como tal, ri do mundo e de sua condição no mundo, como um Mabuse impotente, sem Viagra. É uma atitude política de reação a esse estado de coisas, portanto, que inspira Safatle a afirmar, na dedicatória do livro a sua filha Valentina, que um dia ela compreenderá, depois de ler Cinismo e falência da crítica, por que seu pai ri tão pouco.
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