A clássica teoria da dependência já não basta para explicar a inserção do Brasil no mundo, afirma Leda Paulani, professora de economia da Universidade de São Paulo, USP, e presidente da Sociedade Brasileira de Economia Política. O conceito mais adequado é o de "servidão financeira": o país tornou-se plataforma de valorização do capital, e corre o risco de sofrer uma desindustrialização precoce.
Apesar do suposto boom de exportações, a análise mostra que o Brasil regrediu: "Nos anos 1980, a gente exportava muito mais manufaturados, produtos de alto valor agregado, a pauta era muito mais diversificada." A tese é exposta no texto Investimentos e servidão financeira, escrito com o pesquisador Christy G. G. Pato, e parte do livro Brasil Delivery (editora Boitempo).
JOSÉ ARBEX JR. Você no Brasil Delivery avalia o primeiro ano do governo Lula e prevê mais desemprego, desmantelamento da economia. Você errou?
O suposto acerto do governo Lula tornou-se perceptível apenas no final do primeiro mandato, melancólico do ponto de vista do crescimento, do emprego etc. Houve retomada do crescimento mundial, a partir de 2002, puxado pela China e pela economia estadunidense, e pela recuperação do saldo comercial; isso foi puxando a economia brasileira.
É evidente, até pela comparação com os outros países da América Latina, que esse período poderia ter sido muito mais aproveitado pelo Brasil.
Você diz, no livro, que Lula não pegou a casa tão desarrumada assim, em 2003.
A economia estava estabilizada. Não era verdadeira a imagem que se criou para justificar a adoção de uma ortodoxia tão profunda: a de que o Brasil estava à beira do abismo.
Quando se fala de crise nacional da economia, se pensa ou na incapacidade de honrar os compromissos externos ou no descontrole monetário, retomada da inflação. Os dois argumentos justificaram o aprofundamento da política de FHC. São as duas peças que tento desmontar. Depois do Plano Real, particularmente depois da mudança cambial, não havia mais elementos que permitissem que a "rodinha" da inflação inercial voltasse a girar.
Quanto ao baixo nível das reservas, não era muito alto, porque houve a crise cambial, fomos ao FMI pela terceira vez. Mas, olhando a variação das reservas em 2002, não houve fuga de dólares, de capital, nada disso, como teve quando da crise cambial: entre setembro de 1998 e janeiro de 1999, o nível das reservas vai caindo; faz uma curva de queda, muito mais acentuada ainda, no final de dezembro para o começo de janeiro, quando se muda a política cambial. Não há absolutamente nada parecido com isso ao longo de 2002.
Então, como explicar a política econômica do governo Lula?
O PT, quando chegou ao Planalto, já tinha trocado um projeto de nação por um projeto de poder. "Não vamos mais seguir pelo caminho arriscado, vamos seguir pelo caminho seguro." Desde a Carta aos Brasileiros já estava mais ou menos configurada essa escolha.
O Brasil acaba de adquirir o investment grade.
Três agências são encarregadas de avaliar os riscos. O economista francês François Chesnais fala de uma nova geopolítica administrada pelos operadores do mercado financeiro: definem se o capital vai para cá ou para lá.
Meia dúzia de cabeças quase que definem o andamento futuro do planeta. As agências de risco comparam indicadores, e é claro que esses indicadores serão tanto melhores quanto maior for a rentabilidade combinada com a segurança dos investimentos a serem realizados em cada país. A Standard & Poor's, a mais importante dessas agências, colocou o Brasil no primeiro degrauzinho do patamar dos países confiáveis. Combinando isso com a taxa de juros cavalar que ainda temos, que voltou a ser a maior do mundo, haverá entrada de muitos recursos, e se nada for feito, isso vai provocar uma desvalorização ainda maior do dólar.
A história monetária mostra que as piores crises vieram de processos continuados de valorização da moeda doméstica. Os Estados Unidos enfiaram goela abaixo do Japão uma valorização do iene ao longo de uns dez anos, provocaI do a recessão da sua economia.Então, não devemos festejar coisa alguma.
Autores importantes falam em desindustrialização precoce, incluindo alguns acima de suspeitas de "esquerdismo", como o professor Bresser Pereira. É claro que você tem algumas "ilhas na economia que não serão afetadas, como a prospecção do petróleo em águas profundas e o biocombustível, em que o Brasil assume, pela primeira vez, a posição de vanguarda tecnológica em setores estratégicos.
Mas é preciso saber se isso é suficiente par dar dinamismo a uma economia do tamanho da brasileira, cujo mercado doméstico será
completamente afetado por esse desbalanceamento das moedas.
Qual a relação entre o Brasil e a crise internacional?
Todo esse processo de globalização financeira é, de alguma maneira, resultado do cenário mundial a partir dos anos 1970. O sistema de Bretton Woods (criado em 1944;
estabeleceu o dólar como moeda universal, e o dólar se referenciava no ouro. Mas os Estados Unidos não podiam, por exemplo, promover a desvalorização de sua moeda. A valorização implícita do dólar começou a provocar déficits comerciais fortes, e os parceiros dos Estados Unidos, em contrapartida, passaram a exigir o ouro relativo aos dólares. Só que não tinha ouro.
Em 1971, Richard Nixon resolveu desvincular o ouro do dólar. Seguiu-se um período de indefinição do sistema monetário. Havia a perspectiva de se caminhar para alguma coisa na direção de uma moeda virtual. Mas os Estados Unidos reagiram.
No final de 1979, Paul Volcker, presidente do FED (Banco Central estadunidense) deu uma paulada na taxa de juros (elevada para 17 por cento) e recuperou a hegemonia da moeda rapidamente. E aí eles voltaram a ter o monopólio da emissão do meio de pagamento internacional geral, voltaram a ter o privilégio sem pagar o preço de estar com sua política cambial amarrada. E eles usaram e abusaram desse poder.
Só que esse sistema chegou ao limite: como conciliar a necessidade da economia estadunidense crescer, manter o dólar como moeda hegemônica, sendo que o dólar se desvaloriza? Esses dois objetivos não são perfeitamente conciliáveis. Mas os Estados Unidos são um caso particular que é um caso geral, ou seja, é um país com uma economia doméstica tão poderosa, que se as autoridades estadunidenses mudarem a forma com a qual têm atuado até agora e pararem de intervir como estão fazendo - porque eles baixaram os juros, jogaram bilhões na economia -, o tombo que essa economia sofre derruba a China e o resto do mundo. E o Brasil, de certa forma, está eufórico por causa disso, porque por conjunções históricas particulares, combinada com nossas decisões internas de política econômica, nos levou a uma situação em que temos abundância de moeda forte, e a nossa própria moeda então parece uma moeda forte.
Do ponto de vista deles, a esquerda brasileira já não representa risco algum.
Você concorda com essa avaliação?
Acho que sim. A submissão completa do governo Lula a esses tipos de imperativos já foi um sinal muito importante para os invesidores estrangeiros, para o capital financeiro desterritorializado, estrangeiro e nacional.
O fato de o governo Lula ter feito todas as concessões que fez é muito mais importante do que o governo FHC ter feito. A esquerda está num impasse histórico, e no Brasil talvez mais profundo.
Uma recessão mais grave dos EUA pode implicar a perda de capacidade de consumo e quebrar o resto do mundo.
Você tem uma catástrofe potencial, mas é difícil prever quando e de que forma ela vai acontecer. As intervenções das agências multilaterais, dos bancos centrais fortes (como o japonês e o europeu) vão acomodando a situação, mas ao mesmo tempo jogam para frente o nó que tem por trás do sistema como um todo.
Se a gente pegar, por exemplo, o ano de 2003, o estoque de ativos financeiros mundiais - depósitos bancários, títulos de dívida privada e pública e participações acionárias - esse estoque de riqueza é 326 por cento do PIB mundial.
Nos anos 1980. o estoque de ativos financeiros era de 100 por cento do PIB mundial. Conclui-se que a riqueza imobiliária financeira vem ocupando um espaço cada vez maior na riqueza total. De 100 para 326, você tem um crescimento que dobrou e dobrou de novo, e cresceu mais 30% em cima do PIB mundial nesse período. Por isso que volta a importância de conceitos como o capital fictício, que o Marx trabalha na seção 5 do livro 3 do Capital.
CHRISTY PATO O Brasil se insere no circuito do capital fictício, à medida que passa da fase da industrialização para se tornar plataforma de valorização financeira.
Quando a gente analisa a participação da economia brasileira no cenário internacional pelo lado do comércio, de 1945 para cá, a gente vê que a pauta de exportações nossa hoje é muito menos importante do ponto de vista de valor agregado do que já foi. Nos anos 1980, por exemplo, com toda a crise, a gente exportava muito mais manufaturados, produtos de alto valor agregado, a pauta era muito mais diversificada. Nesse sentido, a gente voltou para trás, lá para a época dos ciclos, como dizia o Celso Furtado.
A participação do Brasil no comércio mundial, hoje, representa menos que 1 por cento, não é?
Não é nem quantitativamente, muito menos qualitativamente substantiva. O que tem de novo é a abertura financeira e a inserção financeira do Brasil. O Brasil é hoje uma plataforma de valorização financeira. Ao analisar os dados de longo prazo, concluí com o Christy que o conceito de dependência econômica precisa ser repensado, não dá mais conta da relação que hoje une o Brasil ao resto da economia mundial. O conceito tem que ser de servidão financeira. O Christy começou a pensar sobre isso, ele já havia estudado o Fernando Henrique e acabamos produzindo um texto com uma parte mais teórica histórica, em que o Christy faz uma analogia audaciosa entre o sentido da colonização, como fez o Caio Prado, e o recente sentido da industrialização.
O Brasil, no período que vai de 1930 até os anos 1980, tirando a guerra, basicamente a partir de 1945 até a crise da dívida, ainda ensaia os seus passos para terminar a segunda revolução industrial, constituir a sua matriz. Enquanto isso, o mundo entrava na terceira revolução industrial e já caminhava no sentido da prevalência do capital financeiro. Com isso, torna-se possível entender corretamente a questão metodológica que sustenta a analogia entre o sentido da colonização e o sentido da industrialização num país periférico como o Brasil. Foi o de construir as bases para a sua posição como plataforma de valorização financeira mundial.
A política neoconservadora de Bush combina o poder econômico com a escalada militarista.
Esse neoconservadorismo tão desbragado coloca a nu o caráter meio bárbaro, o poder hegemônico militar e geopolítico dos Estados Unidos. Agora, eles vão colocar uma roupinha nova se os democratas ganharem. Mas eu acho que essa é uma das frentes em que, bem ou mal, a hegemonia estaduniden- se ainda é palpável.
O dólar não é mais palpável, apesar de ainda constituir 70 por cento das reservas mundiais. A força do dólar está no tamanho dos estoques de dívidas, de papéis do tesouro estadunidense que o Japão e a China carregam.
Se a China trocar por euro, acabou...
Basta jogar 10 por cento, já faz uma confusão bem grande.
Ela tem 1 trilhão de dólares de reservas...
É. Deve ter um pouco mais agora. A Rússia, por exemplo, tem 20 por cento ou 25 por cento de suas reservas em dólar e o resto em euro. O Chávez fez a mesma coisa, mas são países que ainda não têm grande expressão mundial. Seja como for, todo dia, em todos os jornais e na mídia em geral você tem a repercussão dos fatores econômicos.
A capacidade de fatores econômicos interferir em outras instâncias da vida social é potenciada pela mídia, e é muito visível essa história de que o dólar desvaloriza. São relações materiais efetivas que amarram interesses da acumulação de capital no mundo inteiro à permanência da hegemonia estadunidense.
Os comentaristas e especialistas econômicos são gerentes locais da nova geopolítica do capital, no sentido de fojar consensos?
Não são gerentes, mas grandes difusores desses conceitos. É a financeirização do jornalismo econômico. A economia se reduz às finanças, o enfoque é o das finanças, sempre.
Essa forma de ver o mundo econômico e o mundo material se torna dominante e consensual, no sentido de que ela se instala nas consciências sem que se tenha feito uma opção por ela.
Não se trata de dar ao cara a opção de ver o mundo pelo prisma das finanças ou por outros prismas. O trágico é que apenas uma maneira de ver a economia vai se instalando, vira senso comum. Isso é um reflexo de uma série de outras coisas que são mais profundas. A gente observa isso dentro do ambiente acadêmico também. E aí é claro que quem escolhe as posições não é ingênuo."
|