Em Os irredutíveis, Daniel Bensaïd relança o desafio apaixonado de inventar um mundo que não seja mais uma mercadoria
Daniel Bensaid é um pensador ainda pouco traduzido para o português, embora tenha escri
to mais de 20 livros. Professor de filosofia na Universidade de Paris 8 e ativista político, seu pensamento original e contestador mereceria maior difusão. Assim, é muito bem-vinda a edição de Os lrredutíveis. Ela é oportuna também porque mostra como pensa hoje um destacado líder do maio de 1968 francês que continua fiel ao inconformismo daquela época.
Os irredutíveis é uma obra sintética em dois sentidos: é breve e, não obstante, tenta sintetizar os debates no pensamento social sobre o mundo contemporâneo na virada do milênio. Era um momento particularmente difícil para as esquerdas, em que parecia não haver alternativas à ordem dominante. Colocavam-se dilemas políticos e teóricos que permanecem até hoje, e de que o autor tenta dar conta. Ele acrescenta um prefácio à presente edição, atualizando o tema à luz dos acontecimentos e dos debates a partir de 2001, a começar pelo célebre 11 de Setembro.
A força e, talvez também, a debilidade do livro derivam de seu caráter de manifesto político e, ao mesmo tempo, de balanço de debates teóricos intrincados. Tudo resumido em 98 páginas instigantes, mas nem sempre inteligíveis facilmente, até pelo debate com dezenas de pensadores e políticos (cerca de 170!). As citações são geralmente livres, há poucas notas de rodapé.
A força de manifesto expressa-se no estilo, que remete a Walter Benjamin e suas teses enigmáticas sobre o conceito de História, e ao Guy Debord de A Sociedade do Espetáculo, com sua verve contra o mundo fetichizado. A pretensão não é pequena.
Há momentos brilhantes de pensamento e de retórica contra o homo resignatus típico dos nossos dias, especialmente o intelectual. O autor convoca à indignação contra as mazelas sociais e políticas de um mundo em que prevalece a privatização generalizada e a concorrência entre as pessoas. Seria preciso lutar por outra lógica, "da solidariedade, do serviço público, do bem comum da humanidade", incompatíveis com o capitalismo.
Se entusiasma os adeptos de sua causa inconformista, o caráter sintético do texto não apresenta argumentos suficientes para convencer um leitor menos familiarizado com o tema. Mas o livro pode servir para mapear o debate contemporâneo, que Bensaid resume em cinco "teoremas", divididos em vários "corolários" e "escólios". Eles são especialmente provocativos para os que discordam do autor, incluindo aqueles afinados com as correntes de esquerda criticadas.
No primeiro teorema, Bensaïd recupera a relevânciada política como esforço para recriar os limites do possível. Coloca-se na contracorrente da despolitização do presente, que poderia dar razão ao temor de Hannah Arendtde que a política pudesse desaparecer da face da terra, pela abolição da pluralidade e pelo predomínio do cálculo egoísta. Nesse capítulo, começa a batalha sem trégua que atravessa todo o livro, contra os "antiiluministas pós-modernos", para os quais a luta de classes e o projeto de emancipação comunista já não teriam importância.
O segundo teorema discute a questão das lutas de classe no mundo de hoje em sua relação
com outras lutas sociais, que ele não minimiza, mas procura pensar em interação com as classes. Reconhece a "pluralidade do homem" e a "multiplicidade do eu", que não se reduziriam à atividade de trabalhador assalariado. Mas nem por isso compartilha da idéia de desintegração da classe trabalhadora como sujeito histórico.
A globalização mercantil, como nova fase da dominação imperial, é analisada no terceiro teorema. Ela envolveria a
mercantilização do mundo, que seria preciso combater, em nome do bem comum. O autor critica as políticas sociais prevalecentes, que chama de "políticas da piedade" . pois afastariam os despossuídos das relações de poder, tomando-os como "objeto de compaixão, em vez de torná-los sujeitos de sua própria emancipação".
O stalinismo, suposta "falsificação burocrática" do comunismo, é tratado no quarto teorema. Bensaid debate com vários intérpretes do tema e ousa reafirmar a atualidade da emancipação comunista: a revolução não teria necessariamente de redundar em despotismo. Recusa, porém, que se continue usando o termo ditadura do proletariado - que fazia sentido no século 19, pois se contrapunha virtuosamente à tirania do poder arbitrário, mas hoje estaria carregado de ambigüidades e referências históricas trágicas. Nesse
tópico, é especialmente interessante a polêmica com os historiadores- até mesmo os marxistas. como Hobsbawm - acusados de minimizar as possibilidades descartadas pela história de privilegiar a "objetivação da história realmente existente". Mas novamente apenas se abrem pistas provocativas.
O quinto teorema refere-se ao debate da modernidade e da pós-modernidade. Bensaïd retoma a lógica dialética da razão e da totalização, que não confunde com totalitarismo. O pensamento pós-moderno, ao tomar o capitalismo como um conjunto incoerente e fragmentado, "e não um todo governado por uma lógica imanente, permite conciliar as resistências parciais e pontuais com a subordinação global à dominação do sistema".
Enfim, o autor reconhece importância da derrocada das crenças míticas e das certezas absolutas. Mas expõe suas "certezas relativas" e relança o desafio apaixonado de inventar um mundo que "não seja mais uma mercadoria", que oponha "ao direito sagrado da propriedade o direito profano à existência".
Marcelo Ridenti, professor de Sociologia na Unicamp, autor e organizador de, entre
outros, História do Marxismo no Brasil (volumes 5 e 6)
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