Apologia dos Bárbaros reúne textos de Mike Davis que evidenciam o lado sórdido da política dos EUA.
Depois do indispensável Planeta Favela, a editora Boitempo coloca nas livrarias Apologia dos Bárbaros, reunião de textos combativos do singular sociólogo norte-americano Mike Davis, numa tradução de Francisco Raul Cornejo. São artigos, na maior parte das vezes, curtos, principalmente sobre a vida política norte-americana, evidenciando tudo o que ela tem de mais sórdido e cínico, aliás bastante coisa. Depois da morte de Edward Said, talvez o único par de Davis no campo das idéias seja o do também singular acadêmico Noam Chomsky. Vida longa aos dois!
O primeiro ensaio, para não deixar dúvida do que virá depois, expõe de imediato a honestidade intelectual do autor: "Crimes contra a humanidade não são menos ou mais terríveis quando ocorrem em um arranha-céu de Nova York, em um campo de refugiados palestinos ou em um vilarejo curdo." O tom do livro é necessariamente indignado, certeiro no alvo e, sempre, cheio de dados e de detalhes constrangedores. A passagem seguinte, muito correta, não deixa dúvidas: "Mas quem pode negar que o principal obstáculo estrutural a qualquer tipo de mudançasocioeconômica duradoura nessa região é a profana e inexpugnável aliança entre as companhias de petróleo, os fabricantes de armas,norte-americanos, o sionismo de direita e as abastadas classes dominantes da península árabe?" Todo mundo atrás de dinheiro, eu complemento, muito sujo.
Entre os tantos, um dos meus textos preferidos é o debate com Tom Frank, cujo assunto principal é a vida eleitoral norte-americana. Com o contexto atual de uma nova eleição, a conversa entre os dois se torna esclarecedora. O desastre de New Orleans, ou talvez seja melhor dizer o crime contra a humanidade, recebe uma análise ácida e solidária. A propósito, um dos charmes dos ensaios é a combinação entre o tratamento cáustico das questões e uma evidente disposição política de expor as estruturas hipócritas que mantêm a ordem dominadora contemporânea. Davis, portanto, transbordasolidariedade ao mesmo tempo em que não esconde a acidez. Ele está em guerra contra o império, não pode diminuir o tom.
Sem dúvida, a melhor parte é a quinta, Velhas Chamas. São textos voltados sobretudo para questões históricas da contracultura norte-americana, a indústria do entretenimento, os movimentos civis e a atividade política do próprio autor. Como abertura, a entrevista Artífices do Terror, sem moralismo, analisa os primeiros atos que vieram a desembocar no que se conhece hoje, dramaticamente, por "terrorismo". Ninguém gosta muito de falar, mas vamos sublinhar aqui que o de Estado também existe, já que bombas explodem e matam se lançadas
das mãos de civis ou de militares. Elas não fazem distinções burocráticas.
Esse trecho do livro talvez tenha me encantado também porque traz visíveis paralelos literários. Artífices do Terror, por exemplo, lembra o fantástico romance Os Demônios, de Dostoiévski. Mais para o final, o ensaio Noites de Tumulto na Sunset Strip, de tom memorialístico, relembra os primeiros anos de militância de Mike Davis na luta pelos direitos civis e pode ser caracterizado, sem medo, como uma excelente peça literária. Um paralelo possível, no caso, é com o romance Os Exércitos da Noite, um dos pontos altos de Norman Mailer, que descreve uma das marlifestações de protesto contra a Guerra do Vietnã no final da década de 1960.
Não estou fazendo comparações à toa: o livro, repito, tem um sentido de solidariedade, o que exige alinhamento de forças. Aqui, vale destacar: Mike Davis está muito bem acompanhado.
Atenta à opção estrutural do autor, a Boitempo tomou uma opção editorial muito feliz e somou aos ensaios do livro um conjunto de cartuns,
do artista Latuff. Nos desenhos, a disposição de denúncia de Latuff encontra tradução perfeita em traços firmes e bem definidos, próximos do jornalismo em quadrinhos de, por exemplo, Joe Sacco. Minha charge preferida é a que mostra, no primeiro quadro, uma senhora norte-americana abraçando o caixão do filho enquanto abaixo a mãe iraquiana chora a morte do seu também e, por fim, o filho da mãe responsável pelas outras duas mortes abraça não um caixão, mas um barril de petróleo.
Não faz meu estilo, e muito menos o grau de cinismo contemporâneo o permite, fazer uma apreciação chapa branca. Semanas atrás, para ajustificar sua "santa luta", esse filho do presidente norte-americano defendeu o uso de "técnicas alternativas" de interrogatório. A
gente sabe que o nome mais apropriado disso é tortura. Pois bem, essa resenha se alinha solidariamente aos prinípios de dignidade humana básicos e, portanto, a Mike Davis e coloca Apologia dos Bárbaros na cabeceira.
Ricardo Lísias- é ficcionista, autor de, entre outros, Anna O e Outras Novelas
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