O filósofo húngaro István Mészáros não é autor de escrita fácil, pois a matriz germânica de sua formação intelectual se revela já na peculiaridade de seu texto escrito em língua inglesa, originalmente sintética. Destaque-se ainda a profundidade de suas análises nos campos da filosofia e da política, sua imensa erudição nas artes e na literatura e o caráter singular de suas argumentações minuciosamente apoiadas em fatos concretos da história dos homens, desde os mais complexos até os mais prosaicos.
Isso significa que, em tempos de informação subliminar e reflexão minimalista, estamos diante de um pensador surpreendente pela rica recorrência de mediações na qual ancora sua produção absolutamente crítica da ordem social vigente. Apesar de toda complexidade insólita de seu texto, é justamente essa característica de seus escritos que, desde 2002, com a edição brasileira de sua obra de maior envergadura, Para além do capital , vem despertando o interesse de um público ávido de questionamentos mais agudos sobre a realidade e de apontamentos claros e responsáveis em relação a um futuro radicalmente alternativo.
Eis um pouco dos critérios que o orientam a desvendar os enormes desafios e dificuldades a serem enfrentados se, de fato, houver disposição para superar a distância que separa a nossa existência regulada pelos princípios políticos da igualdade formal de uma existência humana verdadeira e fundada na igualdade substantiva.
A questão persevera em toda obra de István Mészáros, pois no caráter absolutamente antitético de uma e de outra forma de ser da humanidade – uma existente, a outra possível – ele finca os pilares da sua seminal teoria da transição socialista.
É assim que, desde A teoria da alienação em Marx, de 1970, Mészáros estabelece o nexo de sua rigorosa investigação acerca dos principais fatos que abalaram o século XX. E, tanto quanto Marx em sua época, é incansável sua cruzada contra todas as teorias que, de um modo ou de outro, contribuem para a mistificação do tempo histórico. Nisto se encaixam todas as matrizes liberais que fazem a apologia do sistema; toda forma de niilismo a um só tempo irado e resignado com a existência vazia imposta pelo capital; e as vertentes do marxismo instrumental que de tanto criarem regras para a revolução, acabaram por aprisionar seu sentido mais legítimo, mais libertário, mais social.
Seu mais recente trabalho, O desafio e o fardo do tempo histórico , uma antologia de nove ensaios e uma entrevista, alguns dos quais já publicados no Brasil, não constitui exceção.
Muito ao contrário. Em suas páginas, Mészáros torna a perscrutar o caráter imperativo e destrutivo das positivações atuais do capital, condenando a mais severa das penas, e com ainda maior convicção, todas as suas possíveis formas de reprodução social.
Portanto, não se espere desse livro algum tipo de novidade efêmera, mas a confirmação cabal de cada uma de suas teses já registradas anteriormente, algumas polêmicas, todas muito instigantes. Mas, algo a destacar nele é o aprofundamento do significado histórico da crise estrutural do capital à luz de suas manifestações cada vez mais irracionais, nocivas e desafiadoras.
Por isso, contra o coro dos que proclamam que “não há alternativa” para o sistema, Mészáros reafirma que, na verdade, não há remédio capaz de amenizar a gravidade extrema de suas contradições permanentemente criadas e insolventes. E à “esquerda democrática”, que ainda “crê” em mudanças sociais mediante o aperfeiçoamento moral das instituições burguesas, ele responde que, sob o capital, a barbárie é iminente.
Para o filósofo, as evidências ameaçadoras contra a humanidade emanadas dessa lógica societária mantida sob o controle do capital, só poderão ser verdadeiramente extirpadas numa ordem social controlada pelos produtores livremente associados.
Baseado, então, na atualidade clássica da concepção marxiana da história, Mészáros vem se confirmando como um dos mais importantes teóricos da revolução e dos mais argutos ideólogos dos seus verdadeiros sujeitos históricos. Isso porque vem contribuindo decisivamente para a ativação do potencial emancipatório da classe trabalhadora – reconfigurada pelas necessidades contingentes do sistema de reprodução social do capital – que, das misérias atualmente impostas sobre ela, vêm encontrando novas e criativas formas de reorganização e de reabertura da história.
Não por acaso, logo na Introdução, Mészáros dedica esse livro aos seus melhores e maiores interlocutores para compreender a crise terminal do sistema:
[Antonio] Gramsci, [Attilla] József e Che Guevara foram testemunhas da crise cada vez mais profunda da ordem social do capital no decorrer do século XX. Tinham plena consciência da intensidade sem precedentes dessa que começava a ameaçar a própria sobrevivência da humanidade. Em primeiro lugar pela violenta tentativa fascista e nazi-fascista de redefinir as relações internacionais de poder político-militar e, particularmente, nos anos finais de Che, pelo novo e agressivo desígnio, manifestado pelo imperialismo hegemônico global dos Estados Unidos da América, de dominar permanentemente a ordem mundial.
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