Pensador húngaro marxista, István Mészáros esteve muito próximo de outro dos maiores intelectuais de esquerda do século passado, o filósofo, crítico literário e político Georg
Lukács, de quem foi colaborador.
O pensamento de Lukács - em que pesem as naturais objeções em um tempo em que o capitalismo parece ter soterrado as aspirações libertárias do pensamento socialista e em que a experiência efetiva dos chamados "socialismos reais" inegavelmente é matéria do passado, ao menos na forma estabelecida dos capitalismos de Estado - se caracterizou por extremo rigor lógico e profundidade conceitual, aliados a grande dose de realismo político. Lukács combinou como poucos a figura do intelectual e do ativista político, como se pode observar, por exemplo, nas críticas ao que caracterizava como o absenteísmo político de Adorno e dos frankfurtianos. Para Lukács, Adorno se reduzia a um crítico cultural niilista, a exercer seu ramerrão rabugento no HotelAbismo.
Lukács teria pretendido prosseguir a obra de Marx em seus escritos de maturidade, nomeadamente a Ontologia do ser social. Em certa medida, pode-se entender o projeto de Mészáros, em seus escritos teóricos mais ambiciosos como o alentado Para além do capital, como alimentando a idéia de, por sua vez, continuar o projeto de Lukács (e, em conseqüência, o de Marx).
Nesse amplo estudo acerca das transformações sofridas pelo capitalismo tardio, que atingiu níveis de dominação mundial impensáveis na época de Marx, Mészáros procede a uma interpretação crítica, materialista e radical do movimento da história, rejeitando aquilo que considera, em sua expressão sarcástica, os "socialismos Mickey Mouse". A emancipação da humanidade (na forma de uma atualização do pensamento marxista) passa, para
Mészáros, não apenas pela superação do capitalismo, mas do capital, o que explicaria o título de seu livro e seu distanciamento crítico dos socialismos reais.
Ao modo de alguns pensadores brasileiros, combinando pessimismo teórico com a tentativa de articulação de uma visão e uma estratégia coerentes para a esquerda após as crises e turbulências do século passado, Mészáros argumentará que o "o futuro do socialismo será decidido nos Estados Unidos" e que "ou o socialismo se afirma universalmente, e de tal forma que inclua todas as áreas, inclusive as áreas capitalistas mais desenvolvidas do mundo, ou não terá sucesso". Outro ponto a destacar no pensamento de Mészáros é o papel preponderante concedido à América Latina no processo histórico de emancipação política e combate do capital, pela simples razão que, em nossa experiência terceiro-mundista, as promessas seculares de "modernização" e "desenvolvimento" não se realizaram, o que permite a criação de uma reserva intelectual e política de resistência ao pensamento hegemônico de cunho neoliberal
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Em seu volume mais recente, O desafio e o fardo, dedicado a Che Guevara, Antonio Gramsci e ao poeta húngaro Attila Jósezf, Mészáros prosseguirá sua análise das contradições do capitalismo, atualizada pelos eventos do 11 de Setembro e suas conseqüências para as relações políticas internacionais, e sua tentativa de reavivar o projeto alternativo de uma filosofia e uma política socialistas.
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