O novo livro de Leandro Konder, Sobre o amor, apesar de estar em uma coleção denominada Marxismo & Literatura, não trata de ma interpretação histórico materialista.
Diferentemente de Barthes, que se debruçou sobre os fragmentos do discurso amoroso, o autor compõe um mosaico de textos curtos, leves e saborosos, no qual procura apresentar as várias concepções de amor em autores que viveram épocas diversas. Não esclarece o critério de suas escolhas, mas na vastidão e volatilidade do tema, uma frase de Shakespeare define a essência do livro; “O curso do verdadeiro amor nunca é sereno”.
De fato, o leitor é levado a navegar num rio turbulento de muitos afluentes e cachoeiras e, em alguns momentos, por tranqüilos remansos, onde se encontram preciosidades que cresceram à sombra.
Apesar de começar por um banquete com o filósofo Sócrates, na antiga Grécia, não há preocupação em estabelecer uma ordem cronológica, ou um curso evolutivo dos conceitos de amor. O ziguezague da rota não deve ser motivo de preocupação, pois constam das instruções de bordo breves resumos, que, de algum modo, situam os autores na história e mostram como eles se relacionaram com as “idéias amorosas”. Portanto, ninguém ficará boiando no turbilhão dos sentimentos.
Dessa forma, vai-se da definição do amor platônico e do controverso “amor socrático” ao “amor desconfiado” do mineiro Carlos Drummond de Andrade, passando pela paixão de Marx, que encontrou brechas no seu imenso trabalho sobre a economia política para amar demais, não só sua mulher, mas também sua empregada Helene Demuth e, de cambulhada, toda a classe operária.
A elegante prosa erudita de Konder leva o leitor a contemplar também o drible romântico de Goethe no diabo e o amor como forma radical de encontrar o outro. Podemos, de igual modo, nos inteirar dos desacertos de Camões, coitado, e de como ele foi arrastado pelo seu fado de perdição. Num salto dialético, encontramos o utópico Fourier, suas 13 paixões radicais e outras idéias que causarão espanto pela modernidade, sem preconceitos, entre elas e a teoria da atração cósmica.
Num retorno à antiguidade romana, admiramos as traquinagens do bisavô dos libertinos, o poeta Ovídio, na época em que o cristianismo engatinhava. Mergulhamos na cama com Simone de Beauvoir e Sartre e ficamos sabendo do pacto que envolvia as noções de “amor essencial e contingente” – para desgraça de um certo americano.
Em Borges, observamos a repulsa do amor carnal e o deslocamento do afeto para a esfera da literatura. É de se perguntar por que o autor não examinou Kafka nesta nessa patologia. Decerto teria uma variante exótica das formas de escapar da conjugalidade no exercício do “amor epistolar” com o precioso auxílio de um pandeiro de Elias Canetti.
Hegel merece um capítulo especial, em que assistimos ao pensamento que articula de forma obscura a subordinação do amor e das paixões às astúcias e aos fins da razão.
Em seguida, no divã de Freud, vemos o ser humano caindo de quatro preso a sua animalidade, joguete de suas pulsões inconscientes e a redução do amor a sua expressão libidinal-genital.
Nos transportes de Jacob Boehme, encontramos suas visões, numa época de grandes fogueiras e muito medo, e a concepção mística que subordina a vontade ao amor na apreciação do desenvolvimento do homem. Do fogo inquisitório para o calor da lareira, o leitor é convidado a olhar por uma janela da 280 da Main Street, cidade de Amherst, onde testemunha os devaneios da grande poeta Emily Dickinson.
De volta ao redemoinho da história, vemos, sob as bandeiras vermelhas da revolução, a explosão do amor militante de Rosa Luxemburgo, o qual irrompe numa época em que o mal ainda era uma pequena serpente ensaiando romper a casca do ovo.
Falando em intolerância, Konder interpreta os versos do odiado Heine, que escapou de ser banqueiro para se transformar num dos maiores poetas da língua alemã, e conta como, num acesso de ciúme, envenenou o papagaio de sua mulher. No embalo, fala do abrutalhado Flaubert, dos amores fracassados e transgressores de seus personagens e o preço fatal dos preconceitos.
Leandro Konder também realiza a travessia do sertão, na intrincada prosa de Guimarães Rosa, para encontrar a neblina do encantamento de um estranho amor, em meio à festa da guerra da jagunçagem. De uma amizade estranha pula para outra, ao lançar uma nova luz da relação de Dom Quixote não com Dulcinéia, é claro. Imagine com quem? Em Shakespeare, capta a mudança do amor para uma forma interativa, diferente da viagem na maionese medieval de Dante e Petrarca.
O capítulo sobre Stendhal é um primor. O homem, que amou muitas mulheres num ensaio e nas suas obras-primas, mostra que o amor é risco e que no caminho existem terríveis condicionamentos sociais.
No conservador Balzac, que os dialéticos adoram, Konder nos dá uma aula sobre a era burguesa e os sentimentos.
Continua seus ensinamentos ao abordar Dostoievski, ao surpreender o escritor tentando entender as origens do mal. Com sua literatura onge dos bons sentimentos, desfilam humilhados e ofendidos, crimes, castigos e os insultos do homem do subterrâneo.
Ao falar do alemão Thomas Mann, o amor vai para a clínica. Escala montanhas para convalescer junto a amantes que discutem sobre a decadência.
Faz-se a anamnese da doença de uns e a autópsia de outros que morrem na praia de Veneza por um amor a la Oscar Wilde. Diagnostica-se a loucura que se aproxima com o nazismo.
Por fim, o poeta Carlos Drummond de Andrade pula a pedra do caminho e fecha o livro. Nesse capítulo, somos brindados pelo exame das sutis passagens do poeta que, partindo do solo de ferro de Itabira, vai ao encontro de um universo.
Na contramão da época negativa em que vivemos, do império do mercado sobre os sentimentos da humanidade, Konder demonstra, mais do que nunca, seu amor pela escrita, pela literatura, pelo pensamento, ao tentar conquistar e capturar a criatividade humana que, num ato de suprema audácia, inventou o amor.
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