Sobre o amor é o mais novo volume de ensaios do professor de filosofia Leandro Konder. Como já indica o título, trata-se de uma coleção de textos acerca de romancistas, poetas, filósofos e políticos que têm em comum a reflexão acerca da experiência amorosa.
Não estou certo se "ensaio" é a classificação mais adequada para definir o gênero exercitado por Konder em seus textos: todos são muito curtos (não ultrapassam, em geral, três ou quatro páginas) e combinam alguma informação biográfica sobre o autor em questão, mais um bocado de inserção histórica e um comentário também muito breve sobre a visão do amor na obra (ou obras) analisada.
É aqui que reside o que há de mais problemático no volume. É por demais evidente que o amor está longe de constituir
uma questão simples: muito pelo contrário, a possibilidade mesma do encontro do outro, a idéia da completude do ser através do amor, toda a riqueza da experiência erótica, em resumo, toda a complexidade da questão amorosa alimenta, há séculos, a imaginação dos poetas, o engenho dos pensadores, as dores dos músicos e, mais contemporaneamente, abarrota os consultórios e faz crescer exponencialmente os escritos dos psicanalistas.
Sendo essa uma experiência de tamanho grau de arrebatamento emocional, significação humana e complexidade conceitual, será que a leveza formal intencionalmente escolhida por Leandro Konder está à altura da questão?
Não se trata aqui, é bom que se destaque, de fazer uma apologia irrefletida de um tom de gravidade acadêmica ou de seriedade professoral (muito embora, em defesa do autor, ele justamente diga que evitou tal estilo excessivamente formal), mas da adequação da escrita a um fim almejado. A ironia e o humor são armas poderosíssimas para tratar de matéria muito séria, mas os gracejos que Konder prodigaliza em seus textos parecem, no mais das vezes, deslocados, ou remetendo a algo similar a uma conversa (douta) de botequim.
Algumas outras questões, talvez ainda mais graves, podem ser feitas ao livro de Leandro Konder. O leque da obra é de extensão oceânica, e por suas páginas vemos o cortejo que passa por Platão, Marx, Camões, Freud, Goethe, Drummond, Stendhal, Shakespeare, Dante, Simone de Beauvoir, Cervantes, Borges, Guimarães Rosa, numa espécie de suma da cultura ocidental, a que não escapam nem mesmo, em epígrafe, letras de samba e clássicos da MPB. Não é dillcil perceber que dada a amplitude do universo de autores e referências, a chance de cometer deslizes de interpretação e erros conceituais é igualmente astronômica. E eles efetivamente ocorrem.
Um exemplo escolhido muito rapidamente, tirado da literatura brasileira: ao comentar Grande sertão: veredas, Leandro Konder dirá que o título do romance de Guimarães. Rosa já aponta para "os caminhos da condição humana"; além de o comentário ser um truísmo e não auxiliar em nada a compreensão da obra, provavehnente teve por base a idéia, comum mas errônea, de que as "veredas" do título significam "caminhos". A palavra também possui esse sentido, do qual um leitor tão arguto quanto Guimarães Rosa tinha, é evidente, ciência. Sua acepção original, entretanto, é de "pequeno rio cercado por buritizais", ou seja, já a partir do título, há um nível de complexidade dialética entre o específico e local (os rios da região mineira e sua vegetação típica) e o metafórico e abstrato-universal (a viagem ou o caminho) que simplesmente desaparece na leitura de Leandro Konder.
Talvez nos imputem um rigor excessivo dada a pretensão explícita do livro, que aparece no capítulo "Concluindo,reabrindo": ali Konder afirma ter escrito seu livro para estudantes de letras, filosofia, história, jornalismo, etc., com a intenção de que esses se aproximem dos (ou retornem, de forma mais crítica aos) escritos e pensamentos dos autores citados.
Se tal efetivamente se der (alimento minhas dúvidas), é claro que o projeto se justifica. Sobre o amor é inegavelmente uma obra simpática, de leitura agradável, mas que poderia estar mais equilibrada no tom e merecerei um grau maior de profundidade e rigor nos conceitos e de sutileza nas análises.
Caso contrário, no lugar de introduzir os jovens ano mundo fascinante das letras e do pensamento de alguns dos maiores espíritos da humanidade, terá como efeito a propagação de uma versão pálida e rasa de autores que, não a troco de nada, tornaram-se clássicos e um tesouro da reflexão e da arte.
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