A mais segura das generalizações sobre a tradição ocidental é considerá-la uma série de notas de rodapé à obra de Platão, dizia o filósofo e matemático britânico Alfred North Withehead. E, nessa obra, poucos textos são tão fundamentais quanto certo bate-papo entre amigos intitulado O Banquete. Nesses tempos, ao menos em Atenas, o debate inteligente era parte da diversão e do ritual do symposion tanto quanto o vinho, as flautistas e o prazer de estar com o amado. A erudição, a literatura e a filosofia não eram uma chatice nem uma abstração distante da vida.
É com esse espírito que o filósofo Leandro Konder nos convida a Sobre o Amor. O livro pode ser lido como uma extensão desse texto fundador da civilização ocidental, como se dele participassem não só Sócrates, Aristófanes e seus companheiros de taça e ânfora, como também Marx, Goethe, Camões Fourier, Hegel, Freud, Rosa Luxemburgo, Guimarães Rosa, Cervantes, Drummond e mais uma dúzia de autores do mesmo quilate, sem chegar a quebrar o clima de “um papo filosófico com amigos num bar, tomando um chopinho” como diz o autor, sem se dispensar de contar fofcas sobre as vidas amorosas reais desses monstros sagrados, quando vêm ao caso,
É clássico usar O Banquete como introdução a Platão e o livro de Konder bem pode servir como introdução despretensiosa, em português corrente, a um estudo sério e atraente da filosofia e das letras tanto quanto da história do pensamento sobre o amor – tema apto como poucos a servir de ponte entre o etéreo e o terreno, a filosofia e o senso comum, a literatura e o papo descomprometido.
Fica-se a saber, por exemplo, do papel fundamental do amor nas críticas de Marx a Ludwig Feuerbach e na elaboração de sua própria filosofia, para a qual “a relação imediata, natural, necessária, do homem com a mulher” e “ a irrupção sensível da minha atividade essencial é a paixão”, como também da atribulada história da paixão do filósofo alemão por sua companheira Jenny e da já famosa infidelidade com a criada Helene Demuth.
Encontra-se também o caminho dos sonetos de Camões, para Konder mais sinceros e imortais que a patriotada épica. É a oportunidade de aprender a comover-se com as saudades do poeta lusíada pela mui fermosa chinesa da qual o fado o separou com um naufrágio no delta do Mekong: Alma minha gentil que te pariste/ tão cedo desta vida descontente / repousa lá no céu eternamente, / e viva eu cá na terra sempre triste. Ou de meditar na paradoxal combinação de escravidão e delicadeza na relação com sua Bárbara Pretidão de Amor,/ tão doce a figura, que a neve lhe jura/ que trocara a cor.
E outra vertente da história e da erudição, é possível também divertir-se coma frivolidade de Ovídio e a deselegância de seus amigos, em irrepreensível tradução do latim clássico para o cafajestes moderno. O poeta, segundo Konder, “menciona o costume dos homens que, ao conversar entre eles, observam as mulheres e dizem : essa eu já faturei (‘haec quoque nostra fuit’)”.
Como para deixar o leitor ainda mais à vontade, como se estivesse jogando conversa fora ao som de um violão, cada capítulo tem como epígrafe, mais ou menos críptica, alguns versos da música popular brasileira. Servem também, quem sabem, de réplica matreira à boutade de Caetano Veloso: Se você tiver uma idéia incrível, é melhor fazer uma canção/ está provado que só é possível / filosofar em alemão . Pensar em português brasileiro não é mais difícil do que cantar, parece dizer – e mostrar – o professor Konder. |