Parece tudo muito simples, mas o uso das palavras e o sentido que elas têm estão muito mais inseridos na história de uma sociedade e de seus grupos do que se possa imaginar. Termos como cultura, sociedade, massa, elite, classe, civilização, modernidade, determinismo, tão caros para se compreender o mundo têm, muitas vezes, uma história secular e sentidos inimagináveis em alguma época. Palavras e pessoas caminham juntas, construindo os sentidos do que se fala. Talvez esteja aqui a riqueza do trabalho do historiador inglês Raymond Williams (1921-1988) publicado há dois meses no Brasil pela Boitempo Editorial:
O que era para ser um livro, com cara de dicionário, para consulta esporádica quando, por algum motivo, se quisesse conhecer mais de perto um ou outro termo ligado a temas sociais e culturais, pode ser lido com o prazer com que se lê um boa obra historiográfica. A diferença é que os personagens são palavras que ganham vida, contextos, modificações ao longo dos tempos.
Mas antes de chegarmos a elas, vamos percorrer um pouco a vida desse autor, que se transformou num dos mais importantes intelectuais ingleses do século XX, conquistando respeito e admiração por seus estudos nas áreas da cultura e sociedade. Filho de um sinaleiro de estrada de ferro, Raymond Williams cresceu na efervescência das idéias marxistas que imperavam na classe trabalhadora britânica na primeira metade do século passado. Por meio de uma bolsa de estudos cursou Literatura em Cambrigde, a escola da elite inglesa. Foi recrutado para o Partido Comunista Inglês no primeiro ano do curso. O desencanto que experimentou na prática militante definiu os passos a seguir. Ele foi um marxista que rompeu com o marxismo ortodoxo e passou a fazer do grupo que ficou conhecido com Nova Esquerda. Para ele, a teoria marxista pura esbarrava na impossibilidade de pensar a sociedade a cultura em termos mais amplos, reconhecendo nelas o impacto decisivo na condução da vida e na produção intelectual dos diversos grupos sociais. Williams propõe uma crítica estética da arte de forma que ela possa transcender a pura forma de organização social ou de classe.
Os estudos do autor contribuíram para ampliar o tecido de investigação no campo da cultura. Seu primeiro trabalho nessa área foi com Somente no início da década de 90 chega ao Brasil o clássico Cultura (Paz e Terra). Nesse livro ele estende sua reflexão sobre o tema abordando-o a partir da ótica das instituições - que podem ser academias e escolas, dos formadores da produção cultural, das diversas formas de apresentação, reprodução e organização culturais. Além das artes clássicas como o teatro e a literatura, Williams estende o olhar para a publicidade, o jornalismo e a moda.
chega às livrarias brasileiras 32 anos depois da sua primeira edição,publicada na Inglaterra, em 1976, e chega atual, apesar da velocidade com que o mundo mudou - principalmente no campo cultural - nos últimos anos. Quando ele escreveu o livro queria "mostrar que alguns processos sociais e históricos importantes ocorrem no interior da língua de modo que indica quão integrais s]aos os problemas dos significados e das relações".
Por exemplo, quando se fala em comunicação de massa, cultura de massa, política para as massas, no sentido de que o alvo é uma produção em escala para um grande grupo, não se tem idéia de quão complexo é o termo "massa" e, ainda mais, a palavra "massas". Quando o termo "massa" surgiu se referia ao que era inferior, ou de baixo. Já significou plebeu e vulgar, gente comum. No francês era usado para se referir ao que era "amorfo". No século XIX o termo "massas" passou a ser usado quando se falava de grupo de trabalhadores. No século XX, a palavra "massas" ganhou um sentido revolucionário de povo. Hoje, as massas estão ligadas às multidões para quem se dirige a industria, a comunicação.
Outro bom exemplo é a palavra cultura. Considerada por Williams uma das mais complexas, ganha oito páginas do livro. Desde a origem do termo em latim, passeando pelos séculos, a partir do século XV até hoje, o vocábulo vai ganhando força, definindo formas de se organizar socialmente, classificando produções artísticas, interferindo na política.
Além dos termos clássicos, que formam uma espécie de unidade vocabular para um discurso sócio-cultural a partir da investigação de Williams, ganhou um apêndice com novos termos a convite da editora: arte como mercadoria, cinema, economia da informação, estudos culturais, globalização entre outros, ganham investigação atual a partir das recentes transformações.
SERVIÇO
Palavras-Chave - Um vocabulário de Cultura e Sociedade, de Raymond Williams, Boitempo Editorial. 458 pgs. R$ 64.
LEIA MAIS
Cultura. Raymond Williams. Paz e Terra. 239 pgs. R$ 39,90
E-MAIS
VOCABULÁRIO
1. Elite é uma palavra antiga que, desde meados do S18, adquiriu um significado social específico e, desde o início dos S20, outro significado social, relacionado, porém diferente. Em sua origem, elite era a designação de alguém eleito ou formalmente escolhido.
2. O termo arte é usado no inglês sobre o S13 da palavra art, do francês antigo e da palavra latina artem, habilidade. O uso hoje dominante de arte e artista para referir-se a essas habilidades ainda não se havia estabelecido até o final do S19, mas foi nesse conjunto que, no final do S18, fortaleceu-se e popularizou-se uma distinção hoje generalizada entre artista e artesão.
3. Moderno. Os primeiros sentidos da palavra eram próximos de "no sentido de agora, precisamente agora, ou o equivalente até meados do S19. Modernizar, desde o S18, tinha como referência inicial particular a edifícios, à moda, à ortografia, no sentido de provocar ajustes necessários. Somente no S20 o termo ganhou o equivalente a melhorar. |