A cerimônia que marcou a entrega do I Concurso Latinoamericano de Reportagem não poderia ser apenas uma formalidade. Como o objetivo era dar voz a quem não tem espaço na indústria jornalística, o concurso foi encerrado com um evento latino-americano que reuniu música, e palestras na sede do Sindicato dos Bancários.
Cerca de 50 pessoas presenciaram a entrega dos prêmios para a jornalista Raquel Júnia, vencedora na categoria Profissional, com uma reportagem sobre a boliviana Domitila Chungara e para os estudantes Túlio Moreira Rocha, da UFG, que escreveu sobre festivais latino-americanos de cinema e música e Bruno Terribas, da Unesp, que fez reportagem sobre a tomada da TV durante o processo da Comuna de Oaxaca, no México.
Mística
Nos movimentos sociais latino-americanos é comum iniciar qualquer evento com uma mística para envolver e emocionar os participantes.
A cantora Mariana Avena trouxe
clássicos do cancioneiro latino-americano.
Foto: Thiago Domenici
A entrega dos prêmios do I Concurso Latinoamericano de Reportagem contou com a abertura da cantora argentina Mariana Avena e com o encerramento do grupo Canto Libre.
Com uma voz impressionante, Mariana cantou clássicos do repertório da América Latina como "Razón de Vivir", "Pra não dizer que não falei das flores", "Los Hermanos" e "Chacarera de Las Piedras".
O público cantou junto a forte "Sobreviviendo" de Victor Heredia e aplaudiu de pé após o encerramento com clássica de José Martí, "Guantanamera".
Na parte final do evento, foi a vez do grupo chileno-brasileiro Canto Libre, parceiro do site Latinoamericano desde o lançamento, emocionar o público com um repertório marcado por canções com forte significado revolucionário como "Zamba del Che" e "Canto Libre", de Victor Jara, "Décimas del Folklore Venezolano", "Defiendo mi Tierra" e "Simón Bolíviar". O grupo fez também uma bela interpretação da "La Carta" de Violeta Parra, com a letra original da compositora chilena.
América Latina nos estudos de comunicação
Para Maringoni e Maria Cristina Gobbi o prêmio de reportagem
reforça a resistência da América Latina.
Além da mística, o evento contou também com as palestras da professora Maria Cristina Gobbi e do jornalista Gilberto Marigoni.
A professora Maria Cristina mostrou como o campo da comunicação tem uma tradição acumulada de estudos e lembrou da importância da Ciespal, que em 2009 completa 50 anos de fundação.
Para a professora, é preciso valorizar o pensamento acumulado no continente. Essa valorização, passa, por exemplo, pela citação de autores nos trabalhos acadêmicos de comunicação. Nomes como Luiz Ramiro Beltrán, Luis Beltrão e Mario Kaplún têm contribuições essenciais para compreender alguns fenômenos comunicacionais na América Latina e não é preciso recorrer apenas aos autores europes, como é tradição na academia.
O jornalista Gilberto Maringoni é autor de um dos verbetes da Enciclopédia Latinoamericana, um dos prêmios do Concurso, e falou sobre os ciclos político-econômicos da América Latina. Para Maringoni, depois de passar pela fase da exploração colonial, da industrialização pela substituição de importações, pelas ditaduras militares e pelo ciclos neoliberais, o continente agora vive uma fase de melhoria das condições de vida em algumas nações com governos progressistas e nacionalistas.
O jornalista alertou porém para fenômenos que podem desestabalizar a região como a retomada da 4a Frota norte-americana, o golpe em Honduras e a instalação de bases militares estadunidenses na Colômbia. "Uma das formas de domininação, além da força, é a palavra, é por isso que é importange que as novas gerações tenham consciência das lutas da América Latina e essa é uma das importâncias deste prêmio", declarou Maringoni.
Premiação
Os premiados foram convidados a contarem um pouco da experiência das reportagens. A jornalista Raquel Júnia contou da emoção de saber que Domitila continuava combativa. A reportagem de Raquel faz parte de um trabalho maior sobre o papel das mulheres durante as mudanças promovidas pelo governo Evo Morales na Bolívia. Como prêmio, a jornalista ganhou o livro "Ernesto Guevara, também conhecido como Che", de Paco Ignácio Taibo II, publicado pela Editora Expressão Popular e o DVD "Soy Cuba, o mamute siberiano".
O vencedor da categoria estudante, Túlio Moreira Rocha, disse que procurou sua pauta dentro de sua própria região, Goiânia, como um desafio, pois nunca viajou para fora do Brasil. A reportagem vencedora da Enciclopéida Latinoamericana é mais uma prova que não pode esquecer que o Brasil também faz parte da América Latina.
Para o 2° lugar na categoria estudante, Bruno Terribas, que fez uma reportagem sobre a tomada da TV durante os episódios do que ficou conhecido como Comuna de Oxaca, o prêmio foi o livro sobre a vida e obra de José Martí, da Expressão Popular e do livro "Luiz Gonzaga: a música como expressão do Nordeste", de José Farias, publicado pela editora Ibrasa.
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