Desde que Jorge Amado venceu o Prêmio Jabuti de Melhor Romance por Gabriela, Cravo e Canela, em 1959, um sem-número de escritores de talento aguarda ansiosamente pela entrega anual da honraria. Não é para menos. Uma prova de que o Jabuti conquistou a posição de mais importante prêmio das letras no Brasil encontra-se em seu extenso rol de vencedores. Nele, entre muitos, figuram nomes como Clarice Lispector, Rubem Fonseca, Sergio Buarque de Holanda, Haroldo de Campos e Lygia Fagundes Telles.
Ao longo da trajetória do Jabuti, contudo, fazer parte dessa lista deixou de ser um privilégio dos grandes escritores. Foi justamente por abrir espaço para outros atores da cadeia produtiva do livro que o Jabuti ampliou seu prestígio no mercado editorial brasileiro. Sem tirar o papel de protagonista do autor, fez crescer paulatinamente o número de categorias, que passaram de sete em sua primeira edição para 20 no ano passado, contemplando tradutores, ilustradores, ensaístas, críticos literários, produtores gráficos e também autores de obras didáticas, técnicas e científicas.
"O Jabuti já não é um prêmio exclusivamente literário. Hoje, ele abarca o reconhecimento de vários profissionais responsáveis pela feitura do livro", afirma José Luiz Goldfarb, curador do evento desde 1991 e coordenador do São Paulo: Um Estado de Leitores, programa de incentivo à leitura da Secretaria Estadual de Cultura. A própria expansão do setor nos últimos anos motivou a busca por uma maior abrangência no que diz respeito aos segmentos premiados. "O volume de publicações cresceu muito de dez anos para cá, e o aumento no número de categorias é apenas um dos reflexos disso", observa Ana Maria Haddad, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e jurada do prêmio desde 2003.
Para Hubert Alquéres, presidente da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp), o Jabuti se destaca entre os demais prêmios literários por estimular uma competição no mercado, o que ele considera bastante saudável. "O fato de a grande maioria das editoras brasileiras inscrever suas obras indica um enorme prestígio. E, ao avaliar outros aspectos, como a capa de um livro, o Jabuti movimenta o setor editorial no sentido de revelar talentos para além daqueles que se dedicam ao conteúdo."
Alquéres fala com propriedade: nos últimos quatro anos, a editora Imesp conquistou 14 prêmios, incluindo o de Livro do Ano Ficção de 2007 para Resmungos, coletânia de crônicas escrita pelo poeta Ferreira Gullar e ilustrada pelo artista plástico Antonio Henrique Amaral. "Quando cito o Jabuti que ganhamos, ainda fico impressionado. Todo mundo conhece e reconhece seu valor", garante o presidente da Imesp.
A própria longevidadê do prêmio, que completa 50 edições ininterruptas em 2008, é um sinal claro do peso que ele representa. "O Jabuti passa cada vez mais credibilidade com sua história. Não é um prêmio 'cometa', que acaba depois de alguns anos", avalia Maria Emília
Bender, diretora editorial da Companhia das Letras, que reúne em seu catálogo nada menos que 98 obras premiadas. "Quando uma condecoração desse gabarito alcança meio século de existência, é sinal de que ela cumpre seu papel", completa Rosely Boschini, presidente da Câmara Brasileira do Livro.
Diferencial estratégico
Membro da diretoria da Associação Nacional de Livrarias (ANL), Samuel Seibel acredita que a qualidade chancelada pelo Jabuti faz dele um instrumento fundamental para o negócio do livro. "Indiscutivelmente, é um prêmio importante para o autor, para o editor e também para o livreiro, que aposta naquelas obras vencedoras. Se isso se traduz em vendas, depende de como cada um usa essa ferramenta. Mas esse aspecto fica evidente quando se compara uma lista de dez livros em que apenas um deles ganhou o Jabuti. Até eu gostaria de ganhar um se fosse escritor", brinca Seibel, proprietário da Livraria da Vila, na capital paulista.
Luciana Villas-Boas, diretora editorial da Record, concorda com a idéia. "Quando um livro nosso é premiado, tentamos automaticamente valorizar a obra por esse aspecto, já que o Jabuti tem se mostrado uma peça determinante na construção da carreira do escritor", diz. Para Augusto Massi, diretor editorial da Cosac Naify, vale o mesmo raciocínio. "Todo autor premiado faz menção ao Jabuti em seu currículo, sinal de que, além de prestígio, ele realmente
apresenta um impacto de mercado."
Maria Emília, da Companhia das Letras, usa as obras didáticas e paradidáticas cómo exemplo do endosso que um prêmio como o Jabuti pode garantir. "Se eu fosse professora, o fato de um livro indicado para adoção ter vencido um Jabuti é muito favorável, pois leria aquela obra com
outros olhos. E, no caso dos nossos livros, trata-se de um reconhecimento de terceiros que complementa a chancela da própria editora."
Nesse sentido, o trabalho de divulgação dos eleitos, a cada edição, é tão importante quanto ganhar o prêmio. Além do anúncio espontâneo feito pela mídia, os representantes da cadeia produtiva entendem ser essencial fazer com que esta informação chegue ao leitor por outros canais, como o destaque das obras vencedoras no ambiente da livraria. A estratégia de marketing mais comum dos editores ainda é envolver o livro com uma cinta que indica a honraria.
"É uma credencial que certamente tem apelo de vendas. Ou serve ao menos para dar um fôlego à obra. No ano passado, assim que Resmungos ganhou, passamos a colocar a cinta nos exemplares antes de saírem para as livrarias. É quase o que acontece quando um filme ganha o Oscar: o mercado cinematográfico fica à espera de um novo campeão de bilheterias", compara Alquéres, da Imesp. "Os leitores brasileiros estão cada vez mais preocupados com a questão da qualidade. Ninguém entra numa livraria para comprar qualquer coisa", acrescenta.
A despeito dessa comparação com Hollywood, está claro que as atenções do Jabuti não estão voltadas apenas aos blockbusters. "O prêmio tem se mostrado bastante abrangente, como foi o caso do ano passado, quando muitas
pequenas editoras se destacaram", observa Luciana, da Record. Os números falam por si: na cerimônia de 2007, as 60 obras que alcançaram as três primelras colocações foram publicadas por 44 editoras distintas.
Análise criteriosa
A pulverização na premiação reflete a qualidade da produção alcançada por um número cada vez maior de editoras. E o rigor do processo de seleção do Jabuti é uma confirmação dessa excelência. Uma das maiores preocupações de Goldfarb, desde que assumiu a curadoria, foi estabelecer mecanismos criteriosos de avaliação e destacar profissionais e especialistas para o júri, que a partir de 2003 passou a ser orientado por um guia criado especialmente para a disputa. "Qualquer julgamento, notadamente para um prêmio como o Jabuti, é uma responsabilidade muito grande. Sabemos que há um peso no nome de cada editora, de cada autor, mas esse quesito não faz parte dos critérios do guia que orienta os jurados", assegura Ana Maria Haddad.
Por mais de 30 anos, toda essa credibilidade do Jabuti esteve calcada em sua constância e num corpo de jurados sempre formado por profissionais renomados. Faltava agregar a este prestígio, contudo, um envolvimento maior da própria categoria, pois até o início dos anos 1990 as inscrições giravam em torno de 300 livros, lembra Goldfarb. Para mudar o quadro, o Jabuti foi, progressivamente, aprimorado pela Câmara Brasileira do Livro, inclusive instituindo prêmios em dinheiro como forma de recompensar financeiramente o trabalho do escritor. '''Ano a ano, foi aumentando o número de inscrições; em 2007 recebemos 2.052, cerca de cem por categoria."
O curador diz, ainda, que esse número encontrou uma estabilidade a partir do momento em que a CBL começou a cobrar uma taxa de inscrição. "As editoras passaram a fazer uma seleção prévia do que consideram o melhor de sua produção. Até porque, ainda que sejam premiados três livros por categoria, sempre haverá bons autores de fora", acredita Goldfarb.
Para Rosely, presidente da CBL, a valorização do Jabuti também é um reflexo do empenho da equipe responsável por organizar a premiação, das inscrições até a entrega dos troféus. "Saber que este prêmio é referência para o mercado editorial é ao mesmo tempo o reconhecimento dos esforços de todos aqueles que trabalham para que ele aconteça", ressalta ela, lembrando que as inscrições para 2008 estarão abertas a partir deste mês.
O próprio interesse dos escritores em participar da competição evidencia a importância do Jabuti. "Quando um livro é contratado, a primeira manifestação do profissional é se perguntar qual a chance de sua obra vencer o prêmio. Na época das inscrições, chega a ser difícil lidar com essa expectativa dos autores. Por isso, inscrevemos no Jabuti todos
aqueles livros que cabem na disputa. Nunca faltamos com isso, é automático", afirma Luciana, da Record.
Para Ivana Jinkings, sócia-diretora e editora da Boitempo Editorial, o caráter democrático do Jabuti também se expressa na escolha do título de Livro do Ano Ficção e Não-Ficção - indicados por ampla votação entre os associados da CBL, ANL, ABDL (Associação Brasileira de Difusão do Livro) e Snel (Sindicato Nacional dos Editores de Livros). Foi o que ocorreu em 2007, quando a obra Latinoamericana tornou-se a primeira enciclopédia a ser indicada Livro do Ano Não-Ficção. "A Boitempo já recebeu vários Jabutis, além de outros prêmios, mas esse foi, entre todos, o de maior significado. Antes de tudo porque coroou um longo trabalho de coordenação, que envolveu 123 autores e uma equipe de mais de 20 pessoas ao longo de três anos", comemora.
"Foi a consagração de uma pesquisa séria: contra aqueles que apontaram na obra indícios de partidarismo, o mercado deu provas de independência", prossegue a editora da Boitempo. O sociólogo Emir Sader, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e um dos organizadores da enciclopédia, faz coro com Ivana e acrescenta: "As pequenas editoras
enfrentam uma máquina muito forte, que ocupa os principais espaços nas livrarias, na imprensa, nas compras públicas. Um prêmio concedido por uma entidade do mercado editorial é sempre um reconhecimento de significado."
Valorização do suporte
O espaço ocupado por pequenos e médios editores no Jabuti encontra alguns reflexos na maneira como o mercado editorial tem se comportado frente à profusão de conteúdos nos meios digitais. "Do avanço da internet ao crescente interesse pela TV e o recuo das livrarias independentes, tudo parece conspirar contra o livro", alerta Ivana. A saída, na visão da editora da Boitempo, é buscar nichos e investir em qualidade. "Penso que não há outra forma de as editoras independentes sobreviverem que não seja demarcando território e dedicando-se ao apuro das publicações."
Por se tratar de uma empresa pública, a editora Imesp sempre apostou nesses requisitos para conquistar espaço. "Nunca tivemos a intenção de concorrer com as editoras privadas. Nossa linha definiu-se por livros que, de alguma forma, resgatam a memória e a história das artes e das ciências humanas, entre outros temas que fogem ao interesse do mercado", considera Alquéres. "No caso de Resmungos, foi um desafio superar o caráter perecível da crônica, pois alguns temas ficam muito datados. Felizmente, desenvolvemos um projeto especial, bem ilustrado, de capa dura, para mostrar que um livro de crônicas pode ser uma obra perene."
Também foram esses preceitos - apostar num nicho e no acabamento - que deram destaque à Cosac Naify nas recentes edições do Jabuti. Em 2003, a editora conquistou um feito inédito: a obra Bichos que Existem & Bichos que Não Existem, de Arthur Nestrovski, vencedora na categoria Infantil/Juvenil- hoje separadas -, levou o prêmio de Livro do Ano Ficção. "Foi a coroação de um investimento que a editora fez para esse público. Depois disso, voltamos a vencer na categoria com o Gabriel [O Pensador, por Um Garoto Chamado Rorbeto, em 2006] e com o Fernando [Vilela, por Lampião & Lancelote, em 2007]. Usando aquelas metáforas futebolísticas, é como se a editora tivesse sido tricampeã da categoria nos últimos cinco anos", festeja Massi.
É preciso dizer que Lampião & Lancelote também figurou em primeiro e em segundo lugares, respectivamente, nas categorias Ilustração de Livro Infantil ou juvenil e Capa.
"Quando o autor apresentou seu trabalho, imediatamente busquei uma forma de imprimi-lo no maior tamanho possível para dar conta das imagens, que são lindas. Mesmo em papel, o livro do Fernando consegue se fantasiar de multimídia. Aberto, tem o impacto de um cenário para o pequeno leitor brincar. Isso por si é um apelo para levá-lo ao texto", ressalta o diretor da Cosac Naify.
Para o autor da obra, o Jabuti serviu para coroar o experimentalismo gráfico e a idéia original do livro, que promoveu um improvável encontro entre o cangaceiro brasileiro e o cavaleiro bretão. "Independentemente da categoria em que venci, o valor do prêmio está no fato de que todos voltaram seus olhares para a literatura em geral", acredita o autor e ilustrador Fernando Vilela.
Massi reforça a idéia de que os livros precisam se modernizar para não seguir apenas a reboque das novas tecnologias. "Hoje, o livro comum é muito individual. Já uma obra diferenciada, grande, pode ser acompanhada por quatro, cinco crianças. É preciso alterar os hábitos de leitura justamente para reforçá-las", defende o editor.
Mas, se o mercado deve estar em constante transformação, ao menos uma coisa não mudou ao longo desse meio século de Jabuti: sua importância segue em alta para leitores, escritores, e para o próprio mercado. "Cada livro é uma dádiva do escritor, que cria novos mundos, personagens e emoções usando apenas as palavras como ferramenta. Por isso, é fundamental reverenciar todo profissional envolvido em sua produção. Esta é a função do Jabuti: incentivar a literatura, o hábito de leitura e a própria cultura do Brasil", conclui a presidente da CBL.
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