O desabafo de Ferreira Gullar contra o curso do mundo atual lhe rendeu mais popularidade e, na noite de anteontem, um prêmio de R$ 30 mil. Seu livro Resmungos (Imprensa Oficial), reunião de crônicas publicadas na Folha de S.Paulo, foi escolhido como o Livro do Ano de Ficção durante a entrega do 49º Prêmio Jabuti, na Sala São Paulo. O escolhido como o melhor de Não Ficção foi Latinoamericana - Enciclopédia Contemporânea da América Latina e do Caribe (Boitempo), portentosa obra com 980 verbetes com dados gerais atualizados sobre cada país da região. Os organizadores também receberam R$ 30 mil.
'Para alguma coisa ainda serve um cara que dura tanto tempo', ironizou Gullar, de 77 anos, ao receber seu prêmio. Ele confessou surpresa com a escolha, que a dividiu com ilustrador Antonio Henrique Amaral, autor das aquarelas, xilografias, óleos, colagens e intervenções computadorizadas que ornamentam as páginas. 'Antonio é verdadeiro inspirador do livro, fruto da qualidade de seu trabalho.'
Notável por seu trabalho na poesia (Poema Sujo é uma obra considerada por muitos como uma das principais realizações poéticas do século passado), Gullar divertiu-se ao ser premiado justamente por um trabalho em prosa. 'Na verdade, sempre fui um cronista - quando vivi exilado na Argentina, escrevi uma série de crônicas para o Pasquim e outras publicações', conta. 'Acho que é um trabalho reflexivo muito interessante e, como sou participante da confusão, da bagunça que acontece em nosso país, posso também aproveitar para desabafar ou, como diz bem o título do livro, resmungar bastante.'
Embora complementares, os trabalhos são realizados de forma bem distinta. Gullar conta que a crônica é uma encomenda - tem prazo e tamanho definidos, muitas vezes até o tema. 'Já a poesia, eu não governo: vem quando ela quer. É impossível alguém se programar para escrever poesia.'
A presença de Ferreira Gullar à festa realizada em uma lotada Sala São Paulo era um indício de que seu livro seria escolhido como a melhor ficção do ano - a ausência do vencedor do Jabuti de melhor romance, Carlos Nascimento Silva, por Desengano (Agir), indicava que o caminho estava aberto para Gullar. Seu mais forte concorrente, portanto, parecia ser Lampião & Lancelote (Cosac Naify), de Fernando Vilela, que, fato inédito, venceu o Jabuti na categoria de melhor infantil e ilustração, além da segunda colocação entre as melhores capas.
Também a vitória de Latinoamericana foi muito comemorada. 'Trata-se de um reconhecimento da importância da América Latina e do Caribe', comentou o sociólogo Emir Sader, um dos organizadores. 'Essa é uma região ainda muito esquecida e que precisa urgentemente ser resgatada.' Segundo ele, o projeto nasceu depois que políticas e concepções neoliberais rebaixaram os países a meros campos de investimento e de especulação. 'A bibliografia sobre a América Latina e o Caribe foi vítima da mesma degradação que sofreram nossas nações.'
Antes de terminada a cerimônia, José Luiz Goldfarb, curador do Jabuti, anunciou que a festa do próximo ano, que vai marcar o cinqüentenário do prêmio, vai estar em sintonia com a comemoração dos 200 anos da vinda da família real portuguesa ao Brasil, fato que iniciou a produção editorial e jornalística no País. Goldfarb alertou, porém, que o prêmio não pretende se expandir, como aconteceu com o Portugal Telecom. 'O Jabuti existe para ajudar a produção da escrita brasileira, portanto, não vamos abrir para autores de língua portuguesa de outros países', comentou. |