É cada vez maior o interesse das editoras brasileiras pela África. E ele não se limita à poderosa Companhia das Letras, que detém os direitos autorais de Mia Couto, Luandino Vieira, Ondjaki, Pepetela e do sul-africano J. M. Coetzee, ganhador do Nobel. Uma nova editora, a Língua Geral, foi criada por um dos mais destacados escritores angolanos contemporâneos, José Eduardo Agualusa, para ampliar o intercâmbio entre os países lusófonos. Sob esse novo selo, lançou o fabuloso As mulheres de meu pai simultaneamente em Luanda, Rio e Lisboa. Um fluxo constante de publicações também é assegurado por editoras especializadas, como a pequena Selo Negro e a Palas Atenas, e universitárias - entre elas, a Unesp.
Ao mesmo tempo, editoras independentes lançam-se em projetos ambiciosos. Em dezembro, o filósofo István Mészáros lançará sua nova obra mundialmente pela Boitempo, em co-edição com a Casa Editora Chá de Caxinde, de Luanda, e a Campo das Letras, de Lisboa. Em outubro, na Feira Internacional de Livros de Frankfurt, Ivana Jinkings, editora da Boitempo, assinará contrato com a Oxford University Press, adquirindo os direitos para o Brasil da Africana: enciclopédia daÁfrica e da experiência afro-americana, a maior obra de referência sobre o continente e a diáspora negra, organizada por Henry Louis Gates e KwameAnthony Appiah. Foi um namoro de quatro anos e meio para fechar o acordo.
O trabalho, por enquanto, é conduzido pela própria Ivana e pelo sociólogo Emir Sader. "Estamos montando o esqueleto do projeto", diz a editora. "Ainda não formamos a equipe que irá tocar a adaptação da obra a uma visão brasileira. Vamos substituir alguns verbetes. A versão original tem três volumes, mas é bem possível que o nosso lançamento, previsto para o primeiro semestre de 2009, fique com apenas um volume grande de 1.500 páginas, como a Enciclopédia latinoamericana que lançamos no ano passado - aliás, inspirada no modelo da Africana - ou em dois volumes".
A Boitempo vai contratar um quadro de africanistas para traduzir e revisar os verbetes.
Ivana está otimista com a futura entrada em vigência do Acordo Ortográfico entre os países lusófonos. "O intercâmbio cultural irá aumentar consideravelmente. Algumas de nossas obras não podem ser adotadas hoje nas escolas de Angola, só para citar um exemplo, porque não foram impressas no português do país. Autores como João Ubaldo Ribeiro tiveram de ser 'traduzidos' para o português de Portugal para serem comercializados na Europa e na África. Essas limitações serão rompidas, ampliando o alcance das edições preparadas dos dois lados do Atlântico." |