Estudo do jovem Marx sobre o suicídio de mulheres mostra como leitura da sociedade pode incorporar outras dimensões da opressão, além da economia
Um Marx pouco conhecido. Mais do que isso: um Marx pouco marxista no sentido positivista do termo. O pequeno livro Sobre o suicídio, que sai dentro do projeto de edição das obras de Marx levado à frente pela Boitempo Editorial, trata de um tema caro ao filósofo, a injustiça social, mas o faz por um viés menos economicista e centrado na questão de gênero. Dos quatro casos de suicídio analisados no livro, três são de mulheres vítimas de opressão, precisamente pelo fato de serem mulheres em uma sociedade machista.
Não se trata de uma tese sociológica, no modelo do clássico de Durkheim, nem de uma teoria psicológica, como em breve desenvolveria Freud, mas de um texto de circunstância, quase um comentário anotado do trabalho que integra as memórias do antigo diretor dos Arquivos de Polícia sob a Restauração Jacques Peuchet. O fato de Peuchet não ser sequer socialista e a abordagem priorizar a esfera individual não faz do artigo um texto menos marxista, já que o fulcro é exatamente a crítica à sociedade burguesa e suas instituições, entre elas, com destaque, o patriarcalismo.
Entre os casos narrados por Peuchet e comentados por Marx, estão o de uma noiva que se mata às vésperas do casamento, depois de ser humilhada pelo pai; da moça grávida que decide se afogar, quando não consegue realizar um aborto; de uma jovem da Martinica trancada em casa pelo marido ciumento; e, único exemplo masculino, de um desempregado que se mata para não sobrecarregar a família. O melhor do artigo é exatamente a capacidade de articular as duas dimensões, do social e do individual, a partir de casos extremos. Mesmo sendo sinal de uma derrocada pessoal, o suicídio é sinal de elementos críticos da vida e dos valores da sociedade. Os fatos sociais, no entanto, têm também sua marca na constituição dos indivíduos. Sem ser um texto teórico, Sobre o suicídio põe em cena um dos mais difíceis problemas filosóficos das ciências humanas.
A maior contribuição de Marx está justamente no fato de compreender que o privado é político. Essa inspiração esteve sempre presente em sua obra e explica o fato de o autor, mesmo socialista militante, ter tanto gosto na leitura dos romancistas conservadores, como Balzac, por exemplo. Autores como o romancista francês traziam, segundo Marx, uma compreensão viva do capitalismo, muito mais significativa e emocional que os mais eruditos tratados de economia. Mesmo não sendo, nem de longe, um Balzac, Peuchet coletou histórias que se prestam à interpretação de Marx, evidenciando o cruzamento do social com o psicológico.
Ao caracterizar Peuchet ("Apenas por um curto período Peuchet foi partidário da Revolução Francesa; muito rapidamente passou para o partido monarquista"), Marx deixa claro que, se há uma aproximação em termos de apresentação do diagnóstico, em nada comungam os dois autores com relação à solução da injustiça proporcionada pela sociedade capitalista. Peuchet se alinha no grupo dos filantropos e cristãos caridosos, Marx no dos revolucionários. Os defeitos da sociedade (machismo, condenação do aborto e relações patrimoniais) ainda estão presentes, o que mostra que, independentemente da estratégia política, há muito o que ser feito 150 anos depois.
Sobre o suicídio é o quinto volume da coleção de novas traduções das obras de Marx e Engels que vêm sendo publicadas pela Boitempo. Como nos livros anteriores, além do texto há um estudo introdutório (no caso de Michael Löwy, Um Marx insólito) e anexos como cronobiografia de Karl Marx, índice onomástico e relação das obras do autor publicadas no Brasil. Já foram lançados pelo projeto os seguintes textos: Manifesto comunista; A sagrada família; Manuscritos econômico-filosóficos; e Crítica da filosofia do direito de Hegel. Os próximos volumes serão A ideologia alemã e A situação da classe trabalhadora da Inglaterra.
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