Além de jornalista e crítico musical, sou au¬tor de um livro sobre Roberto Carlos:Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wandeléa) - ed. Boitempo,2004. Meu livro não foi um sucesso de marketing e, não sei se por isso ou por outros motivos, não foi interditado, como aconteceu a seguir com Roberto Cartos em Detalhes - ed. Planeta, 2006 -, escrito por Paulo César de Araújo, autor também do importante Eu Não Sou Cachorro, Não - Record, 2002 -, em que trata dos precon¬ceitos da intelectualidade brasi¬leira contra nossos artistas mais populares (RC incluso).
Morrendo de medo, escrevi e lancei meu livro sem pedir permissão ao Rei, mas roguei à Boitempo que lhe enviasse um exemplar assim que saiu da gráfica. Naquele dezembro, não compareci à tradicional entrevista coletiva de RC, mas soube por uma assessora da gravadora Sony que, na ocasião, alguém lhe perguntou sobre Como Dois e Dois São Cinco e Roberto respondeu, segundo ela, que ainda não tinha lido, mas acreditava que devia ser bom, pois me considerava um bom jornalista. Nenhum órgão de imprensa (nem a Folha de S. Paulo, onde eu trabalhava na época) publicou qualquer informação sobre esse detalhe. E eu, passados quase cinco anos, continuo sem saber se ele leu ou não leu, muito menos se tem alguma opinião sobre o livro.
Até poucos dias atrás, a maior proximidade que eu havia tido de RC se dera nessas situações absolutamente impessoais (e improdutivas, em minha opinião) de coletivas. Nunca entrevistei Roberto cara a cara, e sou um dos muitos jornalistas que se amontoam na fila para fazê-I o, uma fila que nunca anda. E de repente, na madrugada do último dia 4 de agosto, me vi dentro do camarim do artista (do meu ídolo, por que um crítico musical não poderia dizê-Io?). Eu e um dos diretores da Billboard Brasil, Antonio Camarotti, que eu conhecera poucos minutos antes.
Poderia ter aproveitado para finalmente perguntar a Roberto sobre meu livro. Mas não o fiz, por¬que estava ali não como escritor, mas como o jornalista incumbido de construir uma reportagem so¬bre Roberto Carlos. Não cabia, atéporque eu precisava usar aqueles preciosos minutos (foram cerca de quatro, nas minhas contas) para tentar arrancar alguma declaração do homem que não dá entrevistas.
E acabei perguntando sobre Lady Laura, até agora não sei explicar por quê.
Mas, não, espere, acho que es¬tou inventando desculpas, meio àmaneira do taxista Aderaldo - que me foi apresentado pelo Camarotti, de quem, a propósito, eu também estava com medo. Porque, sim, esta é a crua realidade: não per¬guntei porque estava morrendo de medo de Roberto Carlos.
Jornalista musical há 17 anos, me acostumei a enfrentar sem maiores sobressaltos figuras his¬tóricas da MPB, como Chico Buar¬que e Caetano Veloso, ou outros de meus maiores ídolos, como Jorge Ben Jor, Rita Lee e Erasmo Carlos. Mas diante de Roberto Carlos, confesso, pela primeira vez tremi feito vara verde. Pensei mesmo que fosse dobrar as per¬nas e cair ali mesmo, na frente do cara. Vivendo e aprendendo...
Quanto a ele, não faço ideia nem ao menos se estava ligando o nome à pessoa, mas me pareceu reagir à tremedeira alheia com a naturalidade divertida de quem já viveu essa cena um milhão de vezes (e eu sobrevivi, viu, Aderal¬do?, e perdi o medo de você, viu, Camarotti?). E eu, torno a repetir, gastei meu tempo perguntando sobre Lady Laura...
Continuo sem entender muito bem o que me deu, mas talvez tenha a ver com o "fato de, para mim, o momento mais bonito e emocionante desse show (e, sim, eu tentei dizer isso a ele após o diálogo sobre Lady Laura) ser a sequência em que ele emenda "Aquela Casa Simples" (1986), "Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo" (1979) e, claro, "Lady Lau¬ra" (1978). Talvez, simplesmente, porque essas canções me lem¬bram e me fazem sentir saudades de minha mãe e meu pai, da casa deles e da minha cidade.
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