O jornalista Pedro Alexandre Sanches destrincha a vida de Roberto Carlos (e de Erasmo e Wanderléa) e define o artista como a tradução perfeita do nosso País
Em Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa) (Boitempo Editora, 413 páginas, R$68), o jornalista paranaense, de A Folha de S. Paulo, Pedro Alexandre Sanchez dá um mergulho crítico na obra de Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa, com análises paralelas, comparativas, entre RC e alguns dos seus concorrentes/rivais ao longo desses 40 anos em que o “Rei” paira onipresente no cenário da música popular brasileira. O livro é uma continuação na dissecação da MPB iniciada pelo autor com Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba (2000, da mesma editora).
Sanchez ocupa-se do trio que comandou a Jovem Guarda, e dos que chama de “anticarlistas”: Marcos Valle, Raul Seixas, Tim Maia, Belchior, Rita Lee e Wilson Simonal. Dedica também muito espaço a Caetano Veloso, que parece ser uma obsessão sua (no livro anterior não consegue evitar destilar uma relação amor/ódio entre ele e o compositor baiano).
Não é uma obra para fanzocas, ou nostálgicos, que esperam ver refletida sua juventude em Como Dois e Dois São Cinco, que passa de raspão pela história (incluindo fofocas e curiosidades), dos artistas focalizados, e concentra-se em examinar a ressonância magnética de suas músicas, atitudes, contextualizando-as dentro da situação política do País. Entre os capítulos há divagações, em itálico, que o autor alerta que podem ser lidas, ou não. As análises são subjetivas, pode-se discordar delas. Ao comentar, por exemplo, Louco Por você, o álbum inaugural de RC, Sanchez, como, aliás, todos que empreenderam empreitada semelhante, passa por cima do óbvio: o estilo “carlista” (para citar um termo de PAS) vem de dois ídolos do cantor: Anísio Silva e João Gilberto. Não por acaso, Louco Por Você começa com Não é por mim, sucesso menor de Anísio Silva. E mais: o romantismo kitsch, a ingenuidade, a moralidade pequeno-burguesa da música de RC estavam em concordância com o que acontecia mundo afora. O pop brasileiro esteve sempre, senão tecnologicamente, pelo menos esteticamente afinado com a contraparte internacional. Por exemplo, a inflação de roquinhos versando sobre monstros ou extraterrestres e peles-vermelhas são ecos de uma voga corrente nos EUA: The Purple People eater, de Sheb Wooley, Dinner with drac, Zacchariah e Apache, Geronimo, com os Shadows, respectivamente.
Como Dois e Dois São Cinco é escrito em estilo claro, com algumas digressões é certo, mas o encadeamento de disco com disco, o jogo de espelho na trajetória do trio, e na carreira de Roberto Carlos em relação aos seus rivais, torna a leitura fascinante, quase um romance, ou uma novela, que se sabe mais ou menos como vai terminar, mesmo assim se continua atento até o final: RC mantendo-se no trono durante intermitentes quatro décadas, Erasmo Carlos com altos e baixos, mas sempre o fiel escudeiro, ou vice-rei, e Wanderléa, errática desde o fim da Jovem Guarda, em 1968, à procura do tempo perdido e, aparentemente, desistindo na década passada. PAS é declaradamente um “carlista”, mesmo que o considere conservador durante a maior parte da carreira, reacionário nos anos 90. O livro, que começa com a era Juscelino, termina com a subida de Lula ao poder. Um brasileiro comum, como Roberto Carlos, que chegou lá. A conclusão do autor, paradoxalmente é enunciada no prefácio: “Traquinagens à parte, quero defender aqui: Roberto Carlos é um dos mais intensos e completos sinônimos de Brasil que já existiram, quase assim um mito do nosso folclore. Nutrido do misto de amor e resistência (repulsa?) que todos sentimos por ele, Roberto poderia se chamar Brasil”. |