Carlos Trigueiro recorre a estereótipos; Edyr Augusto adota caracterização cinematográfica
A recente publicação de dois romances de autores do Norte do país, como "O Livro dos Desmandamentos", do amazonense Carlos Trigueiro, e "Casa de Caba", do paraense Edyr Augusto, é oportunidade rara de se medir a temperatura da ficção realizada em outras plagas do país.
Embora a trama de "O Livro dos Desmandamentos" se passe em um vilarejo do litoral cearense, os tipos ali representados (o coronel, os milagreiros, o santinho etc.) habitam quaisquer outras cidadezinhas brasileiras, qual seja a região. Poderiam também viver na cidade cenográfica de uma novela da Globo, pois, para isto, não necessitam estereótipos.
Não bastasse Trigueiro cometer a impudicícia de pretender tratar de política (como se já não fosse suficiente ato político escrever um livro nos dias de hoje), sua trama é construída sobre alegorias que beiram o pueril.
Nascido em um lugar onde as pessoas esqueceram como sorrir, o vidente Santinho (filho caçula do casal José e Maria) logo realiza seu primeiro milagre, fazendo com que todos possam de novo exibir ao sol suas dentaduras desfalcadas. A fama aumenta, e a história de Santinho evolui em direção a Fortaleza, domínio do coronel Justo Sacrossanto, que "tem dois braços direitos (...)" e "não consegue bater palmas como todo mundo, porque a mão que seria a esquerda é réplica da direita. Além do mais, não é de aplaudir. Nem precisa".
Sim, é engraçado, e a fatura do autor é elegante, em uma mimetização precisa do falar da região, a ponto de ouvirmos o sotaque dos personagens.
Porém, a insistência em uma metaforização cansada, tão característica do realismo mágico, e certa tendência a reduzir a duas dimensões a complexa trama do tecido social brasileiro demolem de maneira implacável a fé do leitor. No mais, em se tratando de ficção política, elegância pode ser ingrediente indigesto.
Em "Casa de Caba", de Edyr Augusto, o mágico é descartado em função do realismo trágico que tem dado as cartas na narrativa contemporânea brasileira.
O ritmo sincopado da prosa de outros livros do autor nascido em Belém ressurge, porém de forma menos realizada e violenta do que no romance anterior, "Moscow" (2001).
O argumento tem algumas pitadas rocambolescas e é centralizado nos Pastri, família desfigurada pela crueldade das ambições do sócio de seu pai, o governador Wlamir Turvel. Novamente nos encontramos dentro de uma narrativa que usa a política como pano de fundo, adquirindo agora contornos de thriller.
A relação com o cinema não é fortuita, e a organização da história em pequenos capítulos ora narrados em primeira pessoa, ora em terceira, além dos diálogos entranhados nos parágrafos sem convenções como o tradicional uso de travessões ou aspas, atribui uma dinâmica de vertigem à progressão da história, que é contada em diversos tempos.
Depois de adulta, Isabela, a filha dos Pastri, resolve se vingar de Turvel, seduzindo-o sob o disfarce de Sílvia, uma garota de programa. Fred, o irmão, é inicialmente poupado de participar de seus planos de vingança, pois vive em Nova York, em um idílio amoroso com Pat Harrison, estrela internacional do rock.
Esse detalhe concede uma inverosimilhança pouco desejável (típica das mirabolâncias da ficção infanto-juvenil) ao texto realista de Edyr, criando essa tensão que acaba por pejorar intenções de abordagem da mitologia pop na criação literária atual.
De alguma forma, os dois livros parecem ter sido escritos um com o olho na telinha, outro com o olho no telão. E este talvez seja o seu maior defeito: mirar o peixe e acertar o gato.
_______________
Joca Reiners Terron é autor de "Hotel Hell" (2003), entre outros livros.
|