Segunda edição da coletânea A Arte da Entrevista, organizada por Fábio Altman e ilustrada por Loredano, será autografada hoje, no Sesc Pompéia
O que disse Hitler numa entrevista em 1931? E o pai da psicanálise um ano antes? "As flores felizmente não têm personalidade ou complexidades. Adoro as minhas flores", afirmou Freud - e sua frase fora de contexto pode até parecer meio banal. Eles são apenas dois dos vários nomes históricos presentes no livro A Arte da Entrevista, obra organizada pelo jornalista Fábio Altman que reúne uma série de 48 entrevistas feitas entre 1823 e 2000 e caricaturas das personalidades criadas por Cássio Loredano, cartunista e colaborador do Estado. Hoje à noite, no Sesc Pompéia, ocorrerão o lançamento do livro e abertura de exposição com os desenhos originais de Loredano além de debate em torno da edição.
Para os leitores, há um misto de curiosidade e interesse histórico pelas clássicas entrevistas garimpadas - Al Capone, Karl Marx, Bette Davis, Mussolini, Oscar Wilde, Leila Diniz, John Lennon são mais alguns exemplos de nomes que o material guarda. Uma primeira edição do livro foi publicada em 1995 pela Scritta e continha 55 entrevistas - as estrangeiras tiradas da coletânea The Penguin Book of Interviews - An Anthology from 1859 to the Present Day, do jornalista inglês Christopher Silvester, e as brasileiras pesquisadas em arquivos e bibliotecas. "Só que algumas envelheceram", diz Altman, que resolveu tirar algumas e colocar outras. O livro, como o jornalismo, sofreu com a agilidade do dia-a-dia, das informações. "Tirei a do escritor Salman Rushdie, feita em 1995, quando ele dificilmente falava com a imprensa e depois isso não mais aconteceu e uma com o Caetano Veloso, de 1982, que de lá para cá falou tanto que a entrevista perdeu o valor. Ao mesmo tempo, não consegui encontrar nenhuma entrevista relevante feita depois de 2000, acho que é um problema de hoje, do jornalismo impresso que concorre com a velocidade da internet, da televisão", conta o organizador.
A nova edição que agora chega ao público, editada pela Boitempo, foi reformulada, atualizada, e traz, especificamente, 32 entrevistas com estrangeiros e 16 de brasileiros ou feitas por jornalistas brasileiros - Fernando Morais falou com Fidel Castro; Samuel Wainer com Getúlio Vargas em 1949. E a grande novidade são as ilustrações de Loredano para cada uma das entrevistas - a edição anterior não tinha nenhum desenho. "Considero o Loredano um gênio e o convidei para esse novo livro", diz Altman.
Durante um ano os dois trabalharam na nova edição. "O Fábio me mandou um exemplar de 1995 e eu me atraquei com o livro, não conseguia parar de ler", conta Loredano. Depois ele foi recebendo as novas entrevistas e fazendo um desenho para cada. Dessa maneira, o cartunista teve como inspiração não somente as personalidades, mas o clima descrito pelos jornalistas que se encontraram com os grandes nomes e tudo isso enriqueceu o trabalho. A entrevista com o poeta Carlos Drummond de Andrade é um exemplo disso. O jornalista tinha marcado de entrevistá-lo na véspera do dia em que o Pedro Nava se matou. E aí ficou pensando se ia mesmo lá na casa do poeta, amigo de Nava. Resolveu ir e o clima era estranho. O telefone não parava de tocar, Julieta, a filha de Drummond, entrava toda hora na sala e, assim, no desenho de Loredano, lá está o poeta, sentado no sofá e um fantasma toma a cena, a figura de Nava também está no local. O cartunista também brinca dizendo que o livro poderia se chamar A Arte da Mentira porque é visível que muitos daqueles entrevistados se esquivavam às perguntas e mentiam descaradamente. "E assim, se desnudavam ainda mais." Por isso, fez um Stalin de costas - e os vários exemplos não cessariam. |