Cássio Loredano, atleta perdido para o mundo do desenho, afirma seu amor à cidade onde nasceu
Toda semana o caricaturista Cássio Loredano dá uma passada na Folha Seca, livraria da Rua do Ouvidor especializada em temas cariocas. É uma maneira de este carioca, nascido há 56 anos em Triagem e que morou em diversos lugares do Brasil e do mundo, sentir-se ligado à cidade cuja geografia conhece como a palma da mão. Vai mais longe: garante que a planta do Rio está gravada em seu córtex cerebral. De quebra, encontra os amigos, para beber chope e cantar sambas, ritual que cumpre sempre depois do trabalho - atualmente colabora com O Estado de S. Paulo. Ao mesmo tempo, dedica-se a recuperar em livros a história da caricatura brasileira (J. Carlos, Nássara, Guevara, Figueroa), a qual, se não fosse ele, estava condenada a ser esquecida. Sobre J. Carlos, já organizou cinco livros, entre eles J. Carlos contra a guerra (Casa da Palavra, 2000) e o monumental O Rio de J. Carlos (Lacerda Editores, 1998). Do próprio punho, publicou Alfabeto literário (Capivara, 2002), com caricaturas de escritores. Pela primeira vez, Loredano aceitou a encomenda para um livro, o recém-lançado A arte da entrevista (Boitempo, 480 páginas, R$ 57), que traz depoimentos organizados por Fábio Altman de Mahatma Gandhi, Fidel Castro e Lula, entre 46 outros.
O Carioca
Sou hóspede no Rio, um carioca que chegou adulto no Rio. Morei em tudo quanto foi lugar do mundo, mas a cidade que eu tinha na cabeça para me localizar era o Rio. Tinha a sensação exata de que a planta do Rio estava gravada dentro do meu córtex. Descobri um mirante andando a pé, como é normal para um camarada que não sabe dirigir. De vez em quando faço isso, deixo minhas filhas na escola e resolvo ir andando, para pensar na vida. Subi pela ladeira Mundo Novo e resolvi subir a Rua Jaguar, que é uma rua que tem lá no fim, quase chegando em Laranjeiras. Há uma cancela que inibe um pouco, mas fui entrando. Tem um lugar chamado de Pavilhão Guanabara, inaugurado no dia 7 de setembro de 1929, pelo Washington Luís Pereira de Souza. É tão bonito! Foi ali que o Diabo tentou Jesus: se você me obedecer, tudo isso será seu! Só pode ter sido, porque é demais! É bonita pra caramba aquela vista!
As saudades do Rio
Eu ficava na Alemanha e na Itália com a Mem de Sá na cabeça. Todo mundo sabe que Barcelona é o melhor lugar do mundo. Aliás, a Espanha é o melhor lugar da terra – se nós fôssemos marcianos. Mas o sujeito é brasileiro e ligava todo dia às duas horas da manhã, conforme eu ia ficando doente de saudade. Esperava as baratas irem dormir, acendia um charuto, apagava todas as luzes e punha um disco do Orlando Silva. Um depoimento do Orlando Silva para a rádio Tupi de São Paulo, em dois discos, quatro lados. Eu ouvia todo dia aqueles quatro lados, chorando de saudade do Brasil. Todo santo dia!
A criança cabeçuda
Eu nasci em Triagem, no Hospital Central do Exército. Meu pai era militar, da Cavalaria. Eu tenho três irmãos curitibanos, três irmãos paulistas, um irmão gaúcho – ele ia povoando o Brasil. Minha mãe é cearense, e veja que cearense adora ter filho. Esta minha cabeça, eu não sei de quem é, porque minha mãe nem meu pai são cabeçudos. Minha mãe dizia: “Eu só tive um filho cabeçudo, logo você que é o primeiro”. Morei em Curitiba, Rio Grande do Sul, interior e capital de São Paulo, sul de Minas. Depois eu peguei hábito, ânimo e passei 14 anos fora do Brasil. Me acostumei na infância a não parar quieto. Eu devo ter tido uns 100 endereços. Só no Rio eu já morei no Leblon, em Botafogo, em Vila Isabel, Laranjeiras, Lapa, Deodoro.
O atleta
Fui corredor de 110 metros com barreira. Medíocre, mas aplicado. Treinava com devoção, com afinco, e nunca ganhei nada. Não tinha biotipo. É bom para a saúde, é bom para a personalidade. Cara, eu conheci a negrada. Foi a maior sorte. Sair da classe média azeda e ir para a negrada. Atletismo é esporte de negro e pobre. Aí conheci uma turma, só vivia metido na zona norte de São Paulo. Minha família não me via no fim de semana, eu sumia com os pobres. Eles me ensinaram a viver. Porque aqueles caras sabiam viver, sabiam se divertir de fato, tinham mais riqueza humana. Para os caras, qualquer coisinha estava ótimo – desde que não fosse chicote.
O repórter
Eu tenho um orgulho: sou o único caricaturista jornalista. Os outros têm um pouco de vergonha, querem ser artistas de galeria. Eu quero ficar misturado com o texto.
O traço em livros
O livro é um acidente. Meu negócio é jornal. Não dá certo em revista, porque o desenho de linha não pode competir com aquela quantidade de cor. Mas jornal precisa encher página todo dia, aí tem mais espaço. Eu tive alguma sorte, grandes diagramadores – entre eles o Nélio Horta, que faz a primeira página do JB – que pegam o trabalho, abrem uma página e fica muito melhor do que o original. O trabalho está completo. Se você trabalha na imprensa há 40 anos, e tem três livros publicados, é um acidente. O grosso é página de jornal. De vez em quando, faço um balanço, um registro. A arte da entrevista é meu primeiro trabalho feito especialmente para sair em livro. Quase todos os desenhos são inéditos. Inclusive com alguns ilustrando a situação em que as entrevistas aconteceram. O Kipling percorre o mapa quase inteiro dos EUA para entrevistar o Mark Twain, que ele considerava e era considerado o grande autor da língua inglesa vivo naquela época. Duas entrevistas depois, o próprio Kipling é procurado por um jornalista e quase dá um tiro no cara: “O senhor não vê que é obscena a sua presença aqui? Como é que o senhor pede uma entrevista?” O mais bonito de todos é o do Scott Fitzgerald. Ele concede uma entrevista no hospital e pede licença para tomar só um golinho. Coloquei-o num lugar totalmente asséptico, com o sapato bicolor, dormindo numa poltrona e lá em cima uma bóia de salvação, que ele não queria mais. Fitzgerald se matou lentamente, na cachaça; e Hemingway abruptamente.
O embrulho de peixe
Jornal é o seguinte: você tem um Saldanha escrevendo, um Nelson Rodrigues, um Ivan Lessa, um Millôr e vai pro lixo. Aí você tem um Luís Trimano, um J. Carlos, um Nássara – vai pro lixo? Não, você tem que recuperar aquele sistema de inteligência. Reúne uma quantidade significativa e mostra para o público. O livro tem uma sobrevida de 100 anos. Entrei na profissão ignorando tudo, inclusive o grande J. Carlos. Não há nenhuma profissão pior do que a do caricaturista no Brasil. Ele entra no mercado ignorando tudo o que se fez antes dele. Que nem macaco. Todo macaco começa do zero, porque não tem transmissão de idéias, não tem transmissão de informação, só o que é geneticamente transmitido. E o caricaturista brasileiro é um macaco. Para evitar isso, botei na rua algumas coisas: Nássara, Guevara, Figueroa, e cinco livros até agora do J. Carlos. Não há mais desculpas. Mando para todas as bibliotecas públicas, a de São Paulo, a do Congresso de Washington, a do Instituto Íbero-Americano de Berlim, o Real Gabinete Português de Leitura.
Nássara
Eu ficava vendo os desenhos do Nássara e dizia: “Como pode um negócio desses? Não tem registro. Isso vai se perder, o velho vai morrer”. Na Alemanha, eu tinha umas páginas do Pasquim na parede e pensava: “Sem-vergonha, quando voltar para o Brasil a primeira coisa é o Nássara”. E realmente quando botei o pé no Brasil, comecei a fazer o Nássara. Para não morrer também, porque eu ia morrendo por um assunto amoroso meu. E pensando: “Tudo bem, pode se matar, mas depois de deixar o Nássara pronto”. O Nássara me via trabalhando e falava: “Seu problema vai ser cortar, ô Loredano!”. Porque ele dizia que tinha muito lixo. E dizia aos berros dentro da Biblioteca Nacional, com todo aquele silêncio. Ele cantava marchinhas para mim na Rua do Ouvidor, no meio das buzinas e lojas de disco, bem baixinho. Ele não tinha noção, pois era surdo. E dentro do Arquivo Nacional, por exemplo, que tinha um silêncio de cemitério, ele dava uns berros. Os que estavam lá davam pulos.
Guevara e Figueroa
Procurando o Nássara nos velhos exemplares, eu vi dois desenhistas geniais, esplêndidos, e perguntava para o velho quem eram aqueles: “Não sabe? Esse é o Guevara, um paraguaio, e esse o Figueroa, um mexicano”. Eram amigos dele, contemporâneos. Desenhistas excepcionais que trabalharam aqui na imprensa carioca nos anos 20. Tive de fazer o livro deles também.
O J. Carlos completo, antes do Caju
Está nas mãos do Heitor Paixão e do Paulo Roberto Pires, ambos da Ediouro, e do publicitário Lula Vieira, o J. Carlos, publicitário. É deslumbrante e também um documento da vida nacional: o que se comprava, o que se fazia, qual é o tipo de publicidade, a inauguração do gás de rua, do gás para cozinha. Depois vêm J. Carlos de luxo, com desenhos esfuziantes, J. Carlos n'O Malho e J. Carlos, designer. Antes de ir para o Caju, eu pretendo fazer essas coisas. Porque eu prefiro ir para o Caju, pois me parece um cemitério mais confiável que o São João Batista, e fica mais perto de onde eu nasci, quinze minutos a pé do Hospital do Exército.
Alberto da Costa e Silva
O livro mais importante que li na vida foi escrito por ele: A enxada e a lança. Eu fiquei atracado mais de três meses com o catatau que é o livro. Desci tudo que foi enciclopédia e um atlas enorme, e não fazia mais nada, só vendo aquilo e procurando os rios de que o livro falava. É uma coisa de afeição ou identificação com o assunto que interessa a ele, que me interessa desde a meninice: o negro, a África no Brasil. O meu bisavô, que é nome de uma avenida muito importante em Fortaleza, avenida João Cordeiro, era um grande abolicionista cearense, sendo o Ceará o primeiro estado que aboliu a escravidão no Brasil. Eu conheci o Alberto em Brasília, ele é um homem engraçadíssimo, um homem de uma erudição rara e ao mesmo tempo não enche o saco de ninguém. Ele é gozado e sabe contar uma história.
Vasco da Gama
Foi em Deodoro que me tornei vascaíno, porque o Vasco foi campeão em 1956. Coronel jogava, Sabará era o ponta-direta. Não sei mais, eu era muito menino. Eu sei o time de 1929 se você quiser: Jaguaré, Brilhante e Itália; Tinoco, Fausto e Mola; Paschoal, Oitenta-e-Quatro, Russinho, Mário Matos e Santana. Mas me lembro muito bem do Didi, que era do Fluminense. Lembro-me da vez em que o Didi foi expulso contra o Vasco. Vi o lance na única televisão que tinha na Vila Militar. Isso em 1956, quando eu tinha oito anos.
Seleção brasileira
Eu só vi jogar direito a de 1970. É claro que eu estava acordadíssimo em 1958. Eu tinha 10 anos e meu pai comprava Manchete e O Cruzeiro, então eu tenho a iconografia gravada a ferro na cabeça. Só que eu não vi os jogos. Em 1970, eu vi. Eu tenho mais carinho pela de 1958, não sei se pelo olhar do meu pai, mas é a redenção, o fracasso de oito anos antes redimido ali, em terras estrangeiras. O Brasil é o único país campeão em continente que não é o dele. E por duas vezes, em 1958 e agora ganhamos na Ásia. Mas a seleção de 70 tem magia. É um negócio estranho porque é outra redenção, outro tipo de redenção, com a situação política que havia começado seis anos antes. Os jogadores eram todos dourados. E o time jogou todos as partidas de amarelo, com o sol do México ao meio-dia batendo forte. Não havia sombra.
Freud e os brasileiros
O Freud botou o século XX no bolso. Tudo está embebido de Freud, sobretudo para quem leu um pouco de Freud como eu. Mas, mesmo se não tiver lido Freud, o mundo tem uma visão freudiana, primitiva, estúpida ou grosseira, mas é assim. É muito diferente da primeira metade do século XX, que era um negócio muito mais inocente. Acho um pouco de soberba dizer isso, que depois da Segunda Guerra o ser humano deixou de ser criança ou abandonou a adolescência de vez, amadureceu, ficou adulto. De qualquer maneira, imagino que se possa dizer isso. O começo do século XX tem aquele entusiasmo industrial, as máquinas, a rapidez, o avião. É um otimismo e uma inocência que você perde em 1945, quando descobre aqueles campos de concentração, aquelas ossadas horrorosas. Aí você pára de fazer que nem criança, querer culpar o outro, e vai buscar em si mesmo a responsabilidade. Isso é freudiano. O brasileiro ainda tem um pouco esse negócio de culpar o outro, de pôr a culpa no americano. Por exemplo: só se pode ser corrupto, tendo os dois lados do processo, quem paga e quem recebe.
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