O jornalista Fábio Altman vai relançar em dezembro a sua antologia “A Arte da Entrevista”, obra que esta coluna recomendou, em outubro do ano passado (leia a resenha “Troquei Tchekhov por Madame Satã”). Trata-se de uma seleção, de um dream team de entrevistados e entrevistadores ao longo da história. Alguns dos que responderam: Bonifácio, Marx, Edson, Tolstoi, Freud, Al Capone, Hitler, Picasso, Beckett, Marconi, Shaw, Kipling... Estes perguntaram: Kipling (sim, Kipling), H.G. Wells, Carlos Lacerda, Otto Lara Resende, Samuel Wainer, Paulo Patarra, Oriana Fallaci...
A primeira versão eu li graças ao Miltão Abrucio Jr, que me emprestou esse e outros exemplares da sua biblioteca. Bom pra mim (juro que devolvo).
O paulistano Altman é editor da revista IstoÉ Dinheiro e tem quase vinte anos de carreira. O jornalista ingressou na Veja no dia em que Tancredo Neves foi internado no Instituto do Coração, em São Paulo. Na revista, foi repórter, editor de geral, chefe da sucursal em Salvador e correspondente em Paris. Entre as suas coberturas, destacam-se a Guerra do Golfo e a Guerra Civil na ex-Iugoslávia, duas Olimpíadas e duas Copas do Mundo. Altman também foi editor-executivo da revista Info, editor e editor-executivo da revista Época. Na TV, foi editor regional da Globo no Rio.
“A Arte da Entrevista” (Boitempo Editorial) chegará às livrarias no dia 4 de dezembro. A primeira sessão de autógrafos será em 14 de dezembro, às 18 horas, na Livraria Folha Seca, que fica na rua do Ouvidor, centro do Rio. “Depois, em março, com o retorno do ano letivo, faremos algo em São Paulo. Uma das idéias é um misto de lançamento tradicional com exposição de desenhos do Loredano publicados no livro”. De acordo com o organizador, o preço da capa ainda está indefinido.
Na primeira tacada, o livro ganhou três edições da Scritta e vendeu cerca de nove mil exemplares. “O legal, acho, foi ter virado livro de estudo em algumas faculdades de jornalismo do País. Ainda hoje há quem o procure, daí o relançamento”.
A nova versão tem 480 páginas e apresenta mais de sessenta desenhos do carioca Cássio Loredano. “Na capa, de modo muito legal, ele fez uma fila indiana com os personagens. Todos caminham para a direita. Apenas Fidel anda para a esquerda”. A introdução do livro e de algumas entrevistas também foi atualizada.
A entrevista a seguir foi produzida por e-mail. As dúvidas foram sanadas pelo telefone.
Link SP- Além dos traços de Loredano, a nova edição incorpora outras entrevistas?
Fábio Altman- Há duas entrevistas novas no livro. Tim Berners-Lee, o pai da Internet, o criador do conceito de World Wide Web, é entrevistado num chat online no site da revista americana Time, em 1999. O charme desta entrevista: demonstra que, hoje, no mundo plugado, os depoimentos de personalidades podem ser obtidos desta forma, com computadores em pontos diferentes e distantes do planeta. Enfim: temos o José Bonifácio de Andrada e Silva em papéis amarelados e, numa outra ponta, o Tim Berners-Lee online. A segunda entrevista é com Lula, feita para a Caros Amigos, em novembro de 2000, logo depois das eleições municipais daquele ano. Lula saíra como grande vencedor e ali forjou a candidatura que, em 2002, o levaria ao Planalto. É interessante ler aquele depoimento e compará-lo com o que ocorre hoje no governo.
LSP- Como surgiu essa parceria que permitiu as ilustrações?
FA- Loredano é um dos grandes artistas do traço em todo o mundo. É um gênio capaz de traduzir a alma das pessoas a bico de pena e nanquim. É mestre de muita gente. É uma referência para os desenhistas de humor. Nos conhecemos em Barcelona, em 1992. Ele morava ali. Eu estava a trabalho, na cobertura dos Jogos Olímpicos. Jantamos juntos. Descobri, então, uma grande personalidade, tão diversa e interessante como seus traços. Quando a editora Boitempo me convidou para relançar “A Arte da Entrevista”, imaginei que seria bacana tê-los [os livros] com ilustrações. O primeiro nome que me veio à cabeça: Loredano. Conversamos, ele topou. E, deste modo, a nova edição é quase um livro de arte - não pelos textos, mas pelos desenhos.
LSP- Partindo da primeira edição: como nasceu a idéia de um livro com entrevistas históricas?
FA- A origem de tudo foi um livro, "The Penguin Book of Interviews", organizado pelo jornalista Christopher Sylvester. Encontrei esse livro numa viagem a Londres. Comprei. Propus à Scritta um volume que, aos famosos internacionais, somasse também brasileiros como Luís Carlos Prestes, Leila Diniz, Getúlio Vargas, Madame Satã, Carlos Drummond, Gilberto Freyre, etc.
LSP- Qual foi a sua linha de pesquisa?
FA- O critério central era termos entrevistas que, de algum modo, tenham produzido mudanças históricas ou quebrado algum padrão de comportamento. Os palavrões de Leila Diniz ao Pasquim, em 1969, entram nessa trilha. O retorno de Getúlio Vargas à cena política depois de falar com Samuel Wainer. Dom Helder Câmara para Oriana Fallaci, em pleno regime militar, foi um escândalo, censurada no Brasil. Pedro Collor, por força de um grande jornalista, Luís Costa Pinto, que deu início ao processo de impeachment do presidente ladrão. Deixei de fora, agora, por exemplo, uma excelente entrevista de Caetano Veloso, feita pelo Geneton Moraes Neto. Saiu porque Caetano fala muito e sempre, e muitas vezes de modo interessante, e isso poderia envelhecer a entrevista. Salman Rushdie também saiu. O motivo: a condenação imposta pelo Irã ainda existe, mas ele agora fala com muito mais freqüência do que antes. Deixou, portanto, de ser algo extraordinário.
LSP- Você tem as suas favoritas no livro?
FA- Freud e Scott Fitzgerald. A do Freud, por demonstrar a intimidade do homem que vasculhou a mente humana. É como se o próprio Freud tivesse deitado a si mesmo num divã. A do Scott Fitzgerald, pela tristeza, pela depressão de um homem mergulhado na depressão e na bebida.
LSP- E as que você considera imperfeitas, embora sejam importantes?
FA- Juro que não é querer escapar da pergunta, sei que isso é péssimo, mas não consigo dizer que uma ou outra seja imperfeita - até porque a imperfeição ajuda a construir uma entrevista.
LSP- O seu livro traz entrevistas históricas, mas não se pretende um compêndio de técnicas de entrevista. Como o estudante de jornalismo deve ler a sua obra, como é que ele vai saber separar o joio do trigo, na hora de perguntar?
FA- Acho que o estudante de jornalismo deve ler as entrevistas como quem vai ao cinema. Para apreciá-las, para se divertir, vez ou outra para pensar. Pode ser útil como exemplo das diferenças entre as diversas modalidades de entrevista. Serve, também, para conhecer as personalidades entrevistadas- e aí, talvez, resida o charme do livro. Mas cabe aos acadêmicos transformar esse lote de entrevistas em lição de casa. Eu não sei fazer isso.
LSP- Quais são a suas orientações para uma boa entrevista?
FA- O bom entrevistador tem que ser sincero e modesto. Se pergunta algo é porque quer realmente saber, e deseja transferir esse conhecimento para o leitor. Entrevistador arrogante resulta em nada.
LSP- A sua obra é uma referência histórica?
FA- Não, não creio que tenha se transformado em referência histórica. Mas acho bacana que seja procurada por estudantes de jornalismo. Lembro, sem falsa modéstia: o livro não é meu. É deles. Quem são eles? Os jornalistas que fizeram as entrevistas. Eu apenas fiz a coletânea. Deu trabalho, claro que sim. Mas nada existiria sem entrevistadores.
LSP- Você conseguiu ou não extrair desse trabalho elementos extras para o seu próprio jeito de entrevistar?
FA- Seria pedante dizer que, a partir da organização do livro, tenha mudado meu jeito de entrevistar. Talvez tenha desenvolvido apenas uma certa inveja, benigna. Assim: ‘Como essa Oriana Fallaci tem coragem de perguntar o que perguntou? Queria fazer assim também’. Ou: ‘E o Samuel Wainer, que fez pousar o helicóptero numa fazenda gaúcha e ali conseguiu fazer falar Getúlio. Puxa, gostaria de conseguir tentos como este’.
LSP- Quais foram as suas entrevistas marcantes, no exercício do jornalismo?
FA- Conto uma história, marcante ao avesso. Em Paris, como correspondente da Veja, cismei em entrevistar o Jean-Luc Godard, que morava na Suíça, na cidade de Rolle. Fui ao catálogo telefônico e lá vi: ‘Godard, JL’. Imaginei: bacana, tenho o número de telefone do escritório, certamente conseguirei falar com uma secretária e, quem sabe, um dia encontro o cineasta. Telefonei. Quem me atende? O próprio Godard e sua voz grave. Fiquei desnorteado, não estava preparado. Travamos o seguinte diálogo:
Godard - O que o senhor deseja?
Eu - Sou jornalista brasileiro, trabalho para uma revista semanal muito importante...
Godard- Não quero saber quem você é ou faz, quero saber o que quer...
Eu - Então... trabalho para uma revista semanal brasileira, muito importante e...
Godard - Sim, mas quero saber o que você quer...
Eu - ...
Godard - ...não me interessa para quem você trabalha...
Eu- Quero uma entrevista.
Godard - Não dou.
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