Slavoj Zizek pode ajudar a compreender melhor relações de violência dentro da cidade.
A invasão das forças de segurança do estado ao complexo de favelas do Alemão, no Rio de Janeiro, acontecida há duas semanas, foi amplamente comparada com a série de filmes “Tropa de Elite” e “Tropa de Elite 2”, do diretor Jo¬sé Padilha. Durante o episó¬dio ou mesmo depois (quan¬do já se observava os relatos de abuso da força policial) comentários davam conta das semelhanças entre as duas narrativas: pouca distinção foi feita entre o documentarismo da imprensa e a ficção do cinema. Por um lado, buscava-se encontrar o Capitão Nascimento entre os policiais anônimos que subiam as ladeiras da Vila Cruzeiro. Por outro lado, a cada flash jornalístico esperava-se que a série pudesse antecipar os desdobramentos ação policial. Mas o que era ficção e o que era realidade seja na ação do Bope ou nos filmes de Padilha (cuja segunda edição, já é o filme mais visto no Brasil com quase 11 milhões de espectadores - marca alcançada na terça-feira da semana passada, ultrapassando “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, de 1976)?
Talvez se engane quem dê respostas simples à pergunta acima. Isso é o que permite pensar o teórico Slavoj Zizek (Bem-vindo ao deserto do Real!: cinco ensaios sobre o 11 de setembro e datas relacionadas, Boitempo, 191 páginas), um dos mais argutos pensadores do supermidiático e antecipado pelas narrativas de Hollywood, 11 de setembro. Segundo indica a reflexão de Zizek, a invasão entre o Complexo do Alemão e o evento do 11 de setembro (guardadas suas proporções) pode ter mais semelhanças do que a convergência entre a ficção e um evento traumático vivido na “realidade”. Nos dois casos, os causadores da crise são elementos simbolicamente distantes daqueles que sofrem o trauma: de uma lado, os terroristas muçulmanos; do outro, os traficantes, de fuzis nas mãos e chinelos nos pés.
Guiado pelo intrincado pensamento do psicanalista Jacques Lacan, Zizek argumenta que o sentimento na cidade de Nova Iorque após os atentados terrorista era de que algo havia devastado a cidade americana (isto é, a imagem que tinham dela), mas também que as imagens das quedas das torres só poderiam ser uma reprodução das cenas mais emocionantes das grandes produções sobre catástrofe. “É essa a lógica que se oculta por trás da associação frequentemente mencionada entre os ataques e os filmes-catástrofe de Hollywood: o impensável que havia acontecido era o objeto da fantasia, e assim, de certa forma, os Estados Unidos haviam transformado em realidade as suas fantasias, e esta foi a grande surpresa”, escreve o pensador esloveno.
E Zizek vai além: “Teríamos de inverter a leitura padrão”, aponta ele, “segundo a qual as explosões do WTC seriam uma intrusão do Real que a estilhaçou a nossa esfera ilusória: pelo contrário - antes do colapso do WTC, vivíamos nossa realidade vendo os horrores do Terceiro Mundo como algo que na verdade não fazia parte de nossa realidade social, como algo que (para nós) só existia como um fantasma espectral na tela do televisor -, o que aconteceu foi que, no dia 11 de setembro, esse fantasma da TV entrou na nossa realidade”, argumenta.
Não é difícil, pois, também per¬guntar se em relação às vio¬lências do tráfico e da ação po¬licial no Brasil também não hou¬ve um situação semelhan¬te. Não foi a realidade do Bo¬pe que invadiu a nossa imagem: foi a imagem - da pobre¬za e da barbárie nas favelas - que invadiu e destruiu a nossa realidade (isso é, explica Zi¬zek, as coordenadas simbólicas que determinam o que sentimos como realidade)?
O que fica de lição da lição de Zizek e como a psicanálise pode nos ajudar a fazer leituras menos errôneas do que vivemos e acompanhamos como ficção? É que as vezes é mais natural tratar eventos excessivos como a morte nos morros cariocas enquanto narrativas do cinema ou da literatura (como um pesadelo, afinal) do que encontrá-las em sua crueza: “Não se deve tomar a realidade por ficção - é preciso ter a capacidade de discernir, naquilo que percebemos como ficção, o núcleo duro do Real que só temos condições de suportar se o transformamos em ficção”, preconiza o filósofo.