Como as editoras brasileiras estão vendo os investimentos do Google e da Amazon?
Recentemente, o Google Books anunciou que tem interesse declarado pelo Brasil e que deverá acelerar a busca por editores e varejistas para conseguir colocar seu modelo de negócios de pé no país. A Amazon, por outro lado, já contratou um executivo brasileiro para cuidar do Kindle no país. Como o mercado editorial vê a entrada desses gigantes no Brasil e um possível avanço no processo de produção de e-books?
Para as editoras brasileiras, os livros digitais certamente são um caminho sem volta — como o próprio Google afirmou em conferência com livreiros e editores. Porém, elas acreditam também que ainda há um longo percurso para chegar ao resultado que se obteve nos Estados Unidos.
As opiniões das editoras a respeito da chegada da Amazon e do Google ao Brasil são bem variadas. Além disso, todas levantam diferentes pontos sobre os e-books. Mas uma coisa é fato: o mercado não pode mais fechar os olhos para essa tecnologia.
As editoras e os e-books: os vários lados da moeda
Para Sérgio Machado, presidente do grupo Record, os e-books realmente são inevitáveis. “Mas eles dependem de três condições principais para alcançar o sucesso – e cada uma por si só é insuficiente. A primeira delas diz respeito ao dispositivo, o leitor digital, que precisa ser comercializado a um preço acessível. A segunda tem relação com a experiência de compra – a Amazon, por exemplo, criou um ambiente poderoso na internet, onde cada obra vem acompanhada de dezenas de informações, além de entrevistas, críticas e reportagens. Quando não se tem o livro físico, esses dados podem influenciar na hora da compra. Por último, temos a questão da quantidade de e-books disponíveis. A Amazon abriu o mercado de livros digitais com muitos exemplares. No Brasil, por enquanto, temos apenas 5.000 obras convertidas, um número pouco significativo”, explica.
Na opinião de Pascoal Soto, diretor editorial da editora Leya, a questão dos livros digitais está muito mais ligada a uma pressão da indústria, do que a uma demanda dos leitores. “Essa discussão remonta ao início do século 21, quando já se falava em lançamentos de leitores digitais, mas houve muitas tentativas frustradas. Hoje o mercado de e-books no Brasil é insignificante e isso tem muito a ver com a dificuldade de acesso a tablets. Acredito que, quando o Google e a Amazon iniciarem suas operações por aqui, isso possa ser resolvido”, opina.
Daniel Pinsky, diretor comercial da Editora Contexto, pensa que os livros digitais podem crescer muito em alguns segmentos específicos, como livros acadêmicos e escolares, além de enciclopédias. Entretanto, tal como as outras editoras, ele também vê a falta de leitores e de infraestrutura de banda larga como um fator prejudicial para o desenvolvimento dos e-books.
Ivana Jinkings, diretora editorial da Boitempo, acredita que se trata de um mercado ainda tímido no Brasil, mas em franca expansão e que traz alguns benefícios. “Deve demorar ainda para chegarmos a números tão impressionantes quanto das editoras americanas. O formato digital deve facilitar o acesso às obras, sobretudo devido às dificuldades de distribuição enfrentadas num país de dimensões continentais. O formato permite também a diminuição no preço de capa”, justifica.
A Ateliê Editorial, por sua vez, já aderiu ao Google Books. Para o diretor da editora, a plataforma mostrou-se uma ferramenta interessante para divulgar os títulos, além de permitir também uma “degustação” do conteúdo para que o leitor possa decidir por comprá-lo em alguma livraria ou na própria loja virtual do grupo. Ele também crê que o e-book deverá mudar o mercado editorial como um todo. “As editoras devem entender que seu negócio é selecionar e disponibilizar para o público conteúdo de qualidade, não importando se em formato físico ou digital”, pontua.