Tatiana Azevedo

É difícil imaginar a leitura como prioridade em um país marcado por injustiças sociais e onde grandes setores da população sofrem a tentativa de alienação. A democratização do hábito da leitura é o que pretendem editoras pequenas, que se diferenciam no mercado por seu público definido e fiel. O objetivo não é o capital: preocupam-se principalmente com a formação crítica de leitores e a distribuição da informação.
“Em um país como o Brasil, em que a educação é deficitária e o salário uma miséria, o livro deve ser uma necessidade e não um instrumento de acumulação de capital para grandes editoras”. A opinião é de Carlos Bellé, editor da Editora Expressão Popular, para quem um dos maiores limites da cultura no país refere-se à “cultura do mercado formal de livros”.
Segundo Ivana Jinkings, fundadora da Editora Boitempo, para democratizar a leitura “bons livros precisam estar à disposição do público”. No caso da Boitempo, o alvo são principalmente os universitários. “Temos muito cuidado, somos muito rígidos na escolha dos títulos a serem publicados, pois a nossa linha editorial é claramente definida. A única estratégia que tivemos, desde o início, foi a de nunca transigir em qualidade. Acredito que essa postura nos angariou a credibilidade que a editora possui. Nosso público é intelectualizado, mais exigente”, diz Ivana.
Porém, tanta ênfase no conteúdo do que é lançado não quer dizer que se ignore a questão da impressão e do acabamento. Ainda que entrar no mercado seja uma dificuldade, pois a concorrência com as grandes editoras e com os livros de rápida circulação chega a ser desleal, o custo final de alguns livros é muito inferior ao seu preço nas livrarias. “Nossas publicações são, em média, 70% mais baratas que no mercado formal”, diz Bellé. Mesmo que o preço popular possa comprometer o lançamento de novos títulos, a Expressão Popular, por ter um público específico, pode acompanhar suas necessidades e demandas, adaptar suas publicações e garantir o retorno financeiro necessário.

NOVA CULTURA
As chamadas grandes editoras já têm público e espaço definido no mercado. São paparicadas pela imprensa e beneficiadas pelos subsídios das compras governamentais de livros didáticos. Mas nada disso acontece com as editoras de esquerda. Contudo, ao publicar livros com conteúdo questionador, elas conseguem conquistar um espaço no mercado, ainda que restrito, ao garantir a qualidade das obras. A Editora Fundação Perseu Abramo, por exemplo, criada em 1997, já é destaque no mercado editorial devido a suas publicações de caráter político e de crítica social. Ao dialogar com a realidade brasileira contemporânea, os grandes nomes publicados estimulam o debate nacional. Talvez seja essa a estratégia de publicidade: em vez de publicidade ostensiva e falsa, as próprias obras divulgam o nome das editoras e lhes garantem credibilidade no mercado e fidelidade de público.

NOVOS AUTORES
Como o critério é a qualidade do texto e sua relevância na atual conjuntura, o risco de lançar autores desconhecidos não é tão alto assim. “Já lançamos muitos estreantes. Temos aí um paradoxo, pois o investimento em novos autores é sempre mais arriscado, mas são justamente as pequenas editoras, com menor margem de erro, que apostam neles. Muitas vezes, estes estreantes acabam sendo ‘fisgados' pelas grandes editoras”, afirma Ivana.
A escolha dos títulos depende justamente da demanda intelectual do público que acompanha os lançamentos de cada editora. Para a Expressão Popular, que dirige seus livros principalmente aos movimentos sociais e populares, além de professores e estudantes, a opção por determinado livro obedece às necessidades políticas que a militância tem no momento. Também são levados em conta a importância temática para sua formação integral, a doação dos direitos autorais para a Editora (contribuição solidária e política), além da disponibilidade financeira da editora. “Não visamos o lucro. Visamos a cultura social e política, a construção de uma sociedade diferente, pautada pelos valores humanistas, para fazer frente aos ‘valores do mercado'”, afirma Bellé.

COMERCIALIZAÇÃO
Ir de encontro aos valores de mercado é bastante complicado. Ter de enfrentar o interesse das grandes redes de livrarias, que se preocupam mais com a alta rotatividade dos livros e priorizam a auto-ajuda, os esotéricos e outros de qualidade duvidosa, dificulta a exposição da boa literatura e dos ensaios de qualidade. “A essa lógica puramente de mercado só escapam algumas livrarias mais seletivas, de livreiros que entendem e amam os livros”, lamenta Ivana.
Já as obras da Editora Expressão Popular não são nem aceitas no mercado formal, pois é a própria editora que estabelece o preço final: o preço de venda é definido a partir do custo de cada título. Esse é o maior obstáculo possível para os interesses meramente lucrativos das redes de livrarias. Então, para manter essa independência editorial, a reposição do investimento vem das vendas diretas, da presença em feiras, eventos em universidades e em atividades de movimentos populares e sociais.
Superadas as dificuldades iniciais, de quando surgiu em 1999, como o capital de giro necessário para as publicações e a construção de uma equipe com interesses parecidos, resta ainda um desafio constante, que é a divulgação da editora. Fazer com que o público tome conhecimento de sua existência e dos títulos publicados. “Quem conhece a Expressão Popular e seus preços mantém uma relação permanente conosco”, afirma Bellé. “Este deve ser um desafio permanente a ser seguido: superar a barreira do conhecimento. Tornar-se uma ferramenta para cada leitor. Tornar-se seu aliado no cotidiano.”

 

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