Foreing Rights


Title: MENEGHETTI [Meneghetti]
Subtitle: The Cat on the Roof
Author: Mouzar Benedito
Pages: 136
ISBN: 978-85-7559-157-4

Gino Meneghetti was an artist in the art of stealing. He came to São Paulo together with a lot of Italian immigrants that were looking in Brazil for a place to work or a place to hide, but it was known that his trajectory would be a lot different than that of his fellows. This work presents the portrait of this antihero who turned into a legend for its robberies, its jumps and its incredible escapades. The book includes the graphic novel drawn by Luis Gê in the 70`s.

WHAT`S BEEN SAID ABOUT THE BOOK

Heródoto Barbeiro: `He [Meneghetti] was like a character who had jumped out of a graphic novel and who was there in flash and bone. [...] When I first read the story of Meneghetti told by Mouzar Benedito, it was as if it uncovered an old memory from my childhood.`

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: PublishNews
Data: 2010-01-22
Autor: Da Redação
Comentário Boitempo:
Título: Vilão notório
Matéria:
Meneghetti – O gato dos telhados conta a trajetória da “carreira” do italiano

Na Pauliceia de meados do século XX, Gino Meneghetti era um artista. Um artista na arte de roubar. Chegou a São Paulo pela onda de imigração dos muitos italianos que vieram ao Brasil em busca de trabalho. Mas logo ficou claro que sua trajetória teria pouco em comum com a de seus conterrâneos. Meneghetti – O gato dos telhados (Boitempo Editorial, 136 pp., R$ 29), obra escrita por Mouzar Benedito, apresenta o perfil desse anti-herói italiano que ganhou notoriedade por seus roubos e fugas espetaculares. O jornalista resgata a lendária "carreira" de Meneghetti, que foi acompanhada pela sociedade da época e gerou muitas histórias transmitidas até hoje na capital. A obra integra a Coleção Paulicéia.

Conhecido por roubar somente dos ricos e por sua politização contestadora, Meneghetti fez sua fama por empreender assaltos, fugas da polícia, passagens pela prisão e ainda por protagonizar muitos "causos" na cidade no início do século XX. A pesquisa biográfica de Marcel Gomes e Antonio Biondi complementa o retrato de um dos maiores larápios que São Paulo já conheceu. A obra traz ainda a história em quadrinhos, criada em 1976 por Luiz Gê para o jornal Versus, que inspirou o curta metragem de Beto Brant sobre a história do italiano. Na próxima quinta-feira, dia 28, o livro ganhará noite de autógrafos a partir das 19h na Livraria da Vila da Fradique (Rua Fradique Coutinho, 915 - Vila Madalena - São Paulo/SP).

De acordo com informação publicada na revista “Vila Cultural” (Janeiro 2010), a casa onde está localizada a livraria da Fradique é o local onde Meneghetti foi preso pela última vez, em 14 de junho de 1970. Na época, o italiano estava com 92 anos. O bandido ficou famoso porque nunca feriu as pessoas que roubou, assaltava principalmente mansões e deixava sobre a mesa da sala um cartão com a sua assinatura. Devido a sua facilidade de se locomover pelo telhado das casas para fugir dos cercos da polícia, era conhecido também pelo apelido de gato de telhado.

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Site Via Política
Data: 2010-01-29
Autor: Redação
Comentário Boitempo:
Título: Meneghetti, o gato dos telhados
Matéria:
A história do lendário ladrão italiano que abalou São Paulo no passado agora é recontada em livro por Mouzar Benedito. Leia trechos da obra, ilustrada com HQ de Luiz Gê, publicada no jornal Versus, em 1976.

(Sobre o grande cerco para prender Meneghetti num quarteirão próximo à Estação da Luz, no centro de São Paulo, em 1926)

“Caminhando de gatinho no corredor escuro, Meneghetti chegou ao banheiro, quebrou o vidro da janela e pulou para os fundos, caindo num caixote de garrafas vazias. Machucou uma das pernas, o que prejudicaria sua tradicional habilidade para grandes saltos. Mesmo assim subiu ao telhado de uma outra casa, entrou pela claraboia, desceu ao forro e depois ao assoalho. Caminhou de joelhos até a porta, olhando pelo buraco da fechadura viu um monte de policiais, voltou para o quintal. Resolveu fazer nova experiência para testar a vontade que a polícia tinha de matá-lo. Colocou o chapéu num pau e levantou-o até um pouco acima de um muro. Nova saraivada de balas, jogando o chapéu longe, todo furado! Se a cabeça dele estivesse dentro do chapéu, teria morrido ali. Subiu novamente no telhado de uma casa e foi de telhado em telhado até a rua Santa Efigênia, que também estava repleta de policiais. E uma multidão ia tomando conta das ruas, um pouco afastada dos policiais, querendo ver o espetáculo destinado à captura do ladrão. Segundo os jornais, cerca de 50 mil pessoas estiveram naquela área esperando o grande momento.

E Meneghetti continuava procurando alternativas de fuga. Pulou de um telhado alto para outro mais baixo, ele cedeu fazendo um barulho alto e houve nova fuzilaria, passando sobre sua cabeça. Ele seguiu pelo forro, indo até uma construção e de lá pulou sobre uma pilha de areia no chão. Mas não havia saída! Subiu de novo aos telhados. E fez nova experiência: jogou um pau num terreno, fazendo algum barulho. E houve nova fuzilaria. O dia amanhecia com milhares de policiais nas ruas que cercavam o quarteirão, segundo a visão de Meneghetti, mas na verdade pouco mais de duzentos homens segundo os jornais, e um contingente enorme de pessoas curiosas nas proximidades, até onde a polícia permitia. Meneghetti estava encurralado.

O número de curiosos aumentava, quem seguia para o trabalho desistia, preferia ver o desfecho do cerco, houve engarrafamento de trânsito em todo o centro da cidade, chegando até a bairros próximos, como Perdizes. Curiosos, olhavam com binóculos, de prédios um pouco mais altos, já que não havia ainda os chamados arranha-céus, na região. Eles se divertiam vendo as tentativas de fuga de Meneghetti. Na escuridão, não deviam ver muita coisa.” (...)

Sobre um herói popular

(...) “Meneghetti era isso: uma lenda, até então viva. Seu nome virou sinônimo de ladrão em boa parte do Brasil. Na minha infância no sul de Minas, por exemplo, eu me lembro que, para xingar alguém de ladrão, chamava-se a pessoa de Meneghetti ou de Sete Dedos. Eram os ladrões mais famosos da história de São Paulo. Os dois chegaram a conviver na prisão, numa das passagens de Meneghetti. Sete Dedos era um mulato bem falante, que tinha mesmo apenas sete dedos. Era famoso também. Mas aqui na Pauliceia, embora Meneghetti e Sete Dedos fossem sinônimos de ladrão, os dois xingamentos tinham sentidos diferentes. Chamar alguém de Sete Dedos equivalia a xingá-lo de ladrão. Mas de Meneghetti era diferente. Era ladrão, mas não um ladrão ruim. Era esperto, humano, adepto da não violência, anarquista, contestador da sociedade capitalista, da burguesia e da aristocracia... Enfim, um herói popular. Um sujeito que fazia com a burguesia o que muita gente tinha vontade de fazer: roubá-la e gozá-la. O mesmo em relação à polícia, que ele provocava pelos jornais. Era uma polícia violenta e extremamente preconceituosa contra imigrantes pobres, como a maioria dos italianos. Meneghetti, enfim, “era isso”, “era aquilo”... Parecia uma figura da literatura, resultado da imaginação de um escritor policial e incorporado ao imaginário popular.”(...)

(Algumas frases do grande ladrão)

“Por que roubo? Roubo porque preciso. O roubo para mim é um processo natural, um processo de vida tão justo como qualquer outro. Já trabalhei honestamente. Que ganhava eu? Uma miséria. O salário que me davam não bastava para minhas necessidades mais urgentes.”

“A vida sem sensação é demasiado estúpida, demasiado animal.”

“O comerciante é um ladrão que tem paciência.”

“Sempre detestei homens que malbaratam o dinheiro público.”

“Jamais roubei um pobre. Só me interessa tirar dos ricos, e tirar jóias, que são bens supérfluos, que só servem para alimentar a vaidade.”

“Minha primeira visão do mundo foi a cidade de Pisa, com sua torre inclinada. Tal como a torre, também o meu destino estaria sempre inclinado, cai-não-cai.”

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Folha de S. Paulo
Data: 2010-01-28
Autor: Fabio Victor
Comentário Boitempo:
Título: Pegaram o Meneghetti!
Matéria:
Histórias do "bom ladrão" italiano que assombrou e fascinou SP no século 20 são relembradas em livro lançado hoje

Em 4 de junho de 1926, São Paulo parou para ver a polícia perseguir Gino Meneghetti, àquela altura já uma lenda como ladrão. O cerco começou de madrugada, na região da atual cracolândia, e durou dez horas. Mobilizou 200 policiais e uma plateia de milhares de pessoas pelas ruas do centro.

O quarteirão entre as ruas Santa Ifigênia, Vitória, dos Andradas e dos Gusmões foi todo cercado. Na troca de tiros, um delegado foi morto. Meneghetti pulou pelos telhados e se escondeu nos quintais, até se entregar, extenuado, após uma moradora descobrir que estava encolhido em seu forro.

O episódio cinematográfico é relatado em detalhes no livro Meneghetti, o Gato dos Telhados, do jornalista e escritor Mouzar Benedito, que será lançado hoje, a partir das 19h, na Livraria da Vila da rua Fradique Coutinho, Vila Madalena. Não haveria lugar mais apropriado. Ali, na casa onde funciona o escritório da livraria, Meneghetti foi preso pela última vez, aos 92 anos, com uma talhadeira, um martelo e uma lanterna, acusado de tentar arrombar o portão, o que negou.

Com 92 anos -vale repetir-, acabou liberado pelo delegado. No local há uma placa lembrando o derradeiro rolo do ladrão, que morreria em 1976, aos 98.

Meneghetti, italiano que chegara ao Brasil em 1913, aos 35 anos, já procurado por extensa ficha corrida em seu país e na França, viveu no célebre "cerco da rua dos Gusmões" um dos pontos altos de sua celebridade no Brasil. Começou afanando frutas e galinhas na Pisa natal. Aqui, se especializou em roubar joias e mansões de milionários, jamais os de poucas posses. Deixava bilhetes pirracentos para os ricaços, reclamando da qualidade dos produtos. Por cartas aos jornais, desafiava a polícia.

Foi preso incontáveis vezes, fugiu "pelo menos 17", segundo ele mesmo calculou. Gabava-se de jamais ter matado alguém, o que é controverso. Foi acusado pela morte do delegado no cerco de 1926, o que negava. A perícia suscitou a hipótese de que fogo da polícia tenha causado a morte.

Fascínio
"Qual o criminoso simpático em São Paulo hoje?", questiona o historiador Boris Fausto. "Não há. Meneghetti roubava os ricos, sofreu maus tratos na prisão, era anarquista. Tudo isso compunha um tipo simpático. Ele é único neste sentido."

Fez fama por todo o país. "Menino, no interior de Minas, eu ouvia falar de Meneghetti. Quem tem mais de 40 anos tem fascinação por ele", diz Mouzar Benedito, 63, autor do perfil a ser lançado hoje.

A aura de ladrão querido o tornou objeto de outros livros, como o esgotado Vida de Meneghetti: Memórias, depoimento a M.A. Camacho; O Incrível Meneghetti, de Paulo José da Costa Jr., que por anos foi advogado do bandido; O Lendário Meneghetti, de Célia de Bernardi, e O Grande Ladrão, de Renato Modernell.

O de Benedito compila muitas informações dos anteriores, acrescenta poucas novas, traz fotos e uma história em quadrinhos de Luiz Gê sobre o ladrão, publicada originalmente em 1976 no jornal Versus. Foi nela que o cineasta Beto Brant se baseou para fazer o curta D'ove, Meneghetti (1989), raro tributo do cinema a um personagem tão cinematográfico.

"Não é que ele fosse charmoso e romântico; ele era um imigrante italiano anarquista, e foi isso que me pegou", diz Brant, que admite a influência do "bom ladrão" na sua obra. Meneghetti viveu entre a realidade e o mito, e ainda hoje é difícil distinguir um de outro. Seja por incúria investigativa ou por querer deliberadamente jogar com a confusão, o perfil biográfico que sai hoje não consegue fazer o filtro.

Será o 22º livro de Benedito, que escreveu 1968, Por Aí... -Memórias Burlescas da Ditadura e João do Rio, 45, entre outros. Ele é fundador da Sosaci (Sociedade dos Observadores de Saci) e lidera campanha para que a figura fantástica de uma perna só seja a mascote da Copa de 2014 no Brasil. Como se vê, é um autor com fascínio por lendas.

MENEGHETTI, O GATO DOS TELHADOS
Autor: Mouzar Benedito
Editora: Boitempo
Quanto: R$ 29 (136 págs.)
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Rádio CBN - Show da Notícia
Data: 2010-02-06
Autor: Júlio Lubianco
Comentário Boitempo:
Título: A fuga cinematográfica do lendário bandido Gino Neneghetti na São Paulo dos anos 20 é retratada em livro
Matéria:
Confira entrevista com Mouzar Benedito, autor do livro Meneghetti, o gato dos telhados

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Blog Liberatinews
Data: 2010-01-29
Autor: Bruno Liberati
Comentário Boitempo:
Título: Meneghetti nos telhados de Sampa de novo
Matéria:
O lançamento foi ontem, mas por uma série de trapalhadas deste blogueiro, só consegui noticiar hoje. O que importa é que Mouzar Benedito nos brinda com mais uma obra, e desta vez escreve sobre as aventuras do fabuloso ladrão que aterrorizou Sampa na meiuca do século XX.

Vai para o ar então o e-mail que recebi sobre o livro Meneghetti - o gato dos telhados

Ele chegou em São Paulo pela onda de migração dos muitos italianos que vieram ao Brasil em busca de trabalho. Mas logo ficou claro que sua trajetória teria pouco de comum com a de maior parte de seus conterrâneos. Na Pauliceia de meados do século XX, Gino Meneghetti era um artista, mas um artista na arte de roubar. Esta obra apresenta o perfil desse anti-herói italiano que ganhou notoriedade por seus roubos e fugas espetaculares.

Com uma linguagem irreverente, o jornalista Mouzar Benedito resgata a lendária “carreira” de Meneghetti, que foi avidamente acompanhada pela sociedade da época e gerou muitas histórias transmitidas até hoje na capital. Conhecido por roubar somente dos ricos e por sua politização contestadora, Meneghetti fez sua fama por empreender assaltos, fugas da polícia, por suas passagens pela prisão e por protagonizar muitos ‘causos’ na cidade no início do século XX.

A pesquisa biográfica de Marcel Gomes e Antonio Biondi complementa o retrato de um dos maiores larápios que São Paulo já conheceu. O resgate desta história é completado ainda por frases extraídas de entrevistas publicadas e de cartas enviadas por Gino aos jornais. O livro traz também a história em quadrinhos, criada em 1976 por Luiz Gê para o jornal Versus, que inspirou o curta metragem de Beto Brant sobre a história do italiano.

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Jornal Contato
Data: 2010-02-05
Autor: Mary Bergamota
Comentário Boitempo:
Título: Lado B
Matéria:
Reunindo jornalistas, intelectuais, anarquistas e leitores de todos os gêneros, o bravo jornalista Mouzar Benedito, com sua irreverência habitual, levou muita gente do Vale à Livraria da Vila da Fradique no dia 28, para o lançamento de seu Meneghetti - o gato dos telhados (Boitempo), resgatando a lendária carreira desse anti-herói italiano que, ao contrário de tantos outros gatunos, só roubava dos ricos.

Presidente da Sosaci (www.sosaci.org), Robson Monteiro esteve na Livraria da Vila dos Jardins para abraçar o amigo Mouzar e confirmar a participação da entidade no concorrido bazar / expo / leilão organizado pelo jornalista José Luiz de Souza (Valeparaibano) para arrecadar fundos pró São Luiz, em especial, reconstruindo o recanto/sede de sacis e seus observadores.

Co-autor (ilustrador) do livro Saci, o Guardião da Floresta junto com Mouzar, o amigo Ohi garantiu sua presença na festejada noite de autógrafos da Livraria da Vila em São Paulo, promovendo o encontro de luizenses, taubateanos, paulistanos, sociólogos e sacis de todas as tribos.

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Revista Época
Data: 2010-02-15
Autor: Bruno Ferrari
Comentário Boitempo:
Título: O Robin Hood carcamano
Matéria:
A carreira de Gino Arnleto Meneghetti terminou tarde. Aos 92 anos, numa noite fria de 1970, o simpático velhinho foi pego tentando arrombar uma casa no bairro de Vila Madalena, em São Paulo. Na delegacia, Meneghetti deu sua versão: estava apenas passando pela Rua Fradique Coutinho portando algumas ferramentas. Um policial o reconheceu e começou a gritar para chamar a atenção dos que passavam. Queria a fama de ter prendido o maior de todos os ladrões da época. Foi a última das dezenas de prisões que ele enfrentou ao longo de sua carreira de criminoso. Ele ficou muitos anos preso, sendo 18 em uma solitária.

A história desse italiano natural de Pisa, que chegou ao Brasil somente aos 35 anos, foi resgatada em Meneghetti - o gato dos telhados (Boitempo, 136 páginas, R$ 29), do jornalista e geógrafo Mouzar Benedito. O livro conta a história de um dos grandes personagens do crime no século XX no Brasil. Da infância na Itália até sua morte nos fundos de uma casa na Vila Guarani, em São Paulo, no ano de 1976. Meneghetti começou roubando frutas em Pisa e chegou a assaltos espetaculares a joalherias no Brasil. A motivação para roubar era uma só: a revolta com a desigualdade entre ricos e pobres. Em suas memórias, escreveu: ‘Jamais roubei um pobre. Só me interessa tirar dos ricos, e tirar joias, que são supérfluos que só servem para alimentar a vaidade’: Rei dos Ladrões, Gato dos Telhados, Ladrão Nobre. Meneghetti não virou uma lenda apenas por suas habilidades gatunas. Era um ser humano de personalidade invejável. Culto, tinha um respeito muito grande pela mulher, Concetta, e pelos filhos - Spartaco e Lenine. Chegou ao Brasil em 1913 já com uma ficha de criminoso internacional. Foi para a casa da tia, onde tentou trabalhar de forma honesta, mas logo descobriu a facilidade de invadir casas de pessoas ricas para levar joias. ‘Já trabalhei honestamente. Que ganhava eu? Uma miséria’: dizia.

Em sua passagem mais espetacular, o livro lembra da perseguição a Meneghetti que ocorreu em 1926. Foram mais de dez horas atrás do criminoso, que pulava de telhado em telhado para fugir dos cerca de 200 policiais que o cercavam. "Havia mais soldados que paralelepípedos': dizia.

O ponto alto do livro de Mouzar Benedito é misturar a história de Meneghetti com pílulas do cotidiano da cidade de São Paulo, então num ritmo de crescimento alucinado. O livro também mostra a grande influência dos italianos, que chegaram a ser metade da população paulistana, com passagens curiosas. Uma delas explica a origem da expressão "carcamano': Era o apelido dado aos comerciantes italianos que colocavam os dedos na balança para cobrar por um peso maior ‘carcavam’ a mão. Para os que viveram nos tempos de Meneghetti, o livro é um convite ao saudosismo. Para os mais jovens, é uma grande viagem no tempo.

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Revista IstoÉ
Data: 2010-02-17
Autor: Natália Rangel
Comentário Boitempo:
Título: Meneghetti, um ladrão de casaca
Matéria:
Paletó e gravata, boa conversa, nenhuma arma. Sai em livro a vida de Gino Meneghetti, que mobilizava polícia e Corpo de Bombeiros em fugas espetaculares


‘Una porqueria’, costumava dizer o lendário ladrão Gino Amleto Meneghetti (1878-1976) quando discordava de alguma coisa. E assim respondeu aos entre vistadores do irreverente e provocativo jornal "O Pasquim" quando lhe indagaram o que pensava sobre as teorias do médico italiano Cesare Lombroso de que algumas pessoas possuem características físicas que as predispõem ao crime. ‘Isso é conversa de médico pedante. O que inicia alguém no roubo é a miséria’, disse Meneghetti. Nascido numa família pobre na cidade italiana de Pisa, ele começou a furtar ainda garoto. Chegou a São Paulo na década de 1920, já escapulindo da Justiça italiana. Tinha 35 anos. Veio ao encontro de alguns parentes que haviam imigrado e prosseguiu na ‘América’ a sua escalada marginal. O livro recém-lançado Meneghetti, o Gato dos Telhados (Boitempo Editorial), do escritor Mouzar Benedito, recupera a história do ladrão que ganhou fama nacional, tinha o retrato estampado nos jornais de vários Estados e muitos apelidos entre eles Homem-Borracha, Bom Ladrão, Ladrão de Casaca, Ladrão Nobre e, o mais famoso, ‘Homem-Gato’, referência a sua incrível habilidade para caminhar sobre telhados, pular muros e saltar entre edifícios.

Segundo a lenda em torno de Meneghetti, ele seria filho de uma família de acrobatas e viria daí a elasticidade e destreza física, o que nunca foi confirmado. O que se sabe é que Meneghetti era um especialista em arrombamento e furto de joias e sabia diferenciar as pedras preciosas legítimas das falsas. Roubou residências famosas, como a mansão de Francesco Matarazzo Filho, na avenida Paulista, em São Paulo. Ele invadiu a casa aproveitando-se de uma discussão entre a cozinheira e a copeira e levou joias, entre elas um colar com as cores da Itália cravejado de diamantes, rubis e esmeraldas. Em outra ocasião, deixou à proprietária um bilhete em que reclamava do fato de as joias serem ‘todas falsas’. Em 1926 ele protagonizou uma fuga espetacular pelos telhados das residências e mobilizou o Corpo de Bombeiros e mais de 200 policiais numa perseguição que durou seis horas. Terminou preso e amargaria no presídio uma longa temporada.

Marcado pela polícia, Meneghetti temia ser envenenado e lavava a sua comida, esfregando o bife de um lado e do outro antes de ingeri-lo. Em 1958, ele passou a ser defendido pelo criminalista Paulo José da Costa Jr., que o colocou na rua no ano seguinte e se tornou um amigo. ‘Ele seguia mandamentos. Não matava, nunca feriu ninguém e não tinha parceiro. Era um ladrão romântico’, diz o advogado, autor do livro O Incrível Meneghetti, em que revela o temperamento anárquico de seu cliente. Convidado pelo radialista Silveira Sampaio para uma entrevista ao vivo, Meneghetti foi presenteado antecipadamente com dois ternos de casimira inglesa. Recebeu de bom grado os presentes e desapareceu. Costa Jr. também se recorda de um encontro em sua casa em São Paulo em que Meneghetti desdenhou da segurança da residência da família.

‘Una porqueria’, disse ele ao pai de Costa Jr., que achava o seu imóvel muito seguro. Ladrão experiente que era, Meneghetti, então com mais de 70 anos, sabia o que estava falando. Meses depois o mais temido assaltante da época, conhecido como ‘Bandido da Luz Vermelha’ (João Acácio Pereira da Costa), roubou a casa do advogado, enquanto a família dormia.

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Diário do Nordeste
Data: 2010-02-19
Autor: Dellano Rios
Comentário Boitempo:
Título: A fina arte de roubar (e ser amado)
Matéria:
Livros-reportagem sobre Meneghetti, Alves Reis e Bonnie & Clyde tentam explicar a razão destes ladrões famosos fazerem tanto sucesso

Tivessem contratado este bando, o Metrofor já teria saído. Perdeu-se, irremediavelmente, o autor desta merecida piada sobre o atraso gigantesco da construção do Metrô de Fortaleza. Seja lá quem for o autor da pérola, o certo é que ela começou a circular quase que no mesmo momento em que se noticiou o roubo à sede cearense do Banco Central, quando uma quadrilha interestadual fez um túnel até o cofre da instituição e de lá retirou R$ 140 milhões.

Longe de manifestar apenas a famosa molecagem cearense, a piada evidencia uma outra tendência, que transcende os limites do Estado. Me refiro a curiosa admiração provocada por certo tipo de ladrão. São gatunos dessa ordem os personagens de três livros reportagens que estão nas livrarias: Meneghetti: o gato dos telhados, perfil do italiano Gino Meneghetti (1878 - 1976), que aterrorizou as autoridades paulistanas ao atacar as joias da elite da cidade; Bonnie e Clyde: a vida por trás da lenda, reportagem biográfica a respeito do casal norte-americano que fez fama assaltando bancos; e O homem que roubou Portugal sobre os feitos do português Alves Reis.

Nos livros, os autores procuram elucidar como se estabeleceu uma relação de admiração entre parte da opinião pública e os criminosos. Traço comum aos personagens em questão e à ação contra o Banco Central (antes de seus desdobramentos macabros, cheio de queimas de arquivo) é a ousadia. Cada destes personagens tinham como que um olho clínico, que enxergava bem as fragilidades de seus alvos. Em comum, também, há a simbologia dos alvos: ricas instituições e personalidades demasiado distantes da vida dura da maioria da população - e não poucas vezes, responsável direto por tal dureza de condições.

Robin Hood
Exemplar modelo deste tipo de ladrão, o "bom ladrão", é o italiano Gino Amleto Meneghetti. Sua história é contada em Meneghetti: o gato dos telhados, mais recente livro da coleção Pauliceia, por meio da qual a editora Boitempo recupera episódios, cenas e personagens históricas da vida política e cultural de São Paulo. O perfil é de autoria do jornalista mineiro Mouzar Benedito.

Nascido em Pisa, Meneghetti chegou ao Brasil em 1913, após uma breve e atribulada carreira de roubos em várias partes da Itália, prisões e fugas espetaculares. Em São Paulo, não largou o hábito.

Honrando a aura romântica de que gozava, Meneghetti não roubava pobres. Com uma queda por joias, preferia as joalherias e, mais ainda, as casas de ricaços. Nestas, Meneghetti deixava uma marca, tão logo terminasse sua "limpeza": bilhetinhos em que comentava a qualidade do produto roubado. Diziam que roubava dos ricos e dava aos pobres, tal qual o herói-ladrão britânico Robin Hood. "Jamais roubei um pobre. Só me interessa tirar dos ricos, e tirar joias, que são bens supérfluos que só servem para alimentar a vaidade ", disse a um jornalista no final da vida. De seus quase 100 anos de vida, Meneghetti passou quatro décadas preso. Comeu o pão que o diabo amassou, apanhou e fugiu, mesmo quando parecia impossível. Era famoso por saltos espetaculares pelos telhados, em suas rotas de fuga. Foi preso pela última vez com mais de 90 anos e, se sua vida não deu um filme, rendeu uma boa história em quadrinhos, feita por Luiz Gê, em 1976, e republicada no livro.

O lado negro
Assim com a população pobre de São Paulo se sentia vingada no ataque de Meneghetti à elite e às autoridades, os norte-americanos também se deleitaram com as ações do casal Bonnie e Clyde, que se notabilizou por fugas que beiravam o milagre. No entanto, foram bem mais violentos que Meneghetti, cometendo assassinatos e espancando pessoas em suas ações.

Um livro sobre a dupla foi escrito pelo jornalista Paul Schneider, num estilo que remete ao "new journalism", ao adicionar elementos literários à narração. Seu conterrâneo, o norte-americano M. T. Bloom, reconstituiu os passos de outro ladrão: Artur Virgilio Alves Reis, português que inventou uma fraude de falsificação de dinheiro que, de tão vultosa, levou o país a uma crise econômica, semelhante a enfrentada por conta do terremoto de 1755.

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Guia da Vila
Data: 2010-02-22
Autor: Da Redação
Comentário Boitempo:
Título: Meneghetti volta à Vila
Matéria:
Em meados do século passado, a ci¬dade tinha como inimigo público núme¬ro um o imigrante italiano Gino Arnleto Meneghetti, que se tomou fumoso assaltando residências na cidade e se gabava de nunca ter roubado de pobres e sempre ter atuado solitariamente. A história deste personagem singular, que assom¬brou a cidade, é contada no livro Meneghetti - o gato dos telhados (Editora I Boitempo, 136 páginas), do jornalista e j escritor Mouzar Benedito.

O livro teve a pesquisa biográfica da¬quele que, para muitos, foi o maior ladrão que a cidade abrigou, a cargo de Marcel Gomes e Antonio Biondi. No final da edi¬ção, há uma história em quadrinhos criada por Luiz Gê em 1976 para o jornal Versus, que inspirou o curta-metragem de Beto Brant sobre a história de Meneghetti.

Verdadeira lenda viva, Meneghetti fugiu diversas vezes da cadeia. O livro relata sua vida desde Pisa, cidade italia¬na onde nasceu e iniciou sua carreira criminosa. Passou pela França e voltou à sua cidade, mas a fama de larápio o fez querer imigrar. Uma tia que mora¬va aqui em São Paulo foi o motivo que encontrou para atravessar o Atlântico e tentar uma nova vida. Aqui chegando acabou novamente roubando e as tentativas que fez de levar uma vida co¬mum nunca duraram muito.

Era um ladrão que tinha preferên¬cia por jóias e costumava deixar bilhetes irônicos em algumas residências que furtava, reclamando da qualidade ou da autenticidade das jóias que encontrava. Passou muitos anos preso na Penitenciá¬ria do Estado e mesmo assim continuou sua saga criminosa, segundo escreve de uma forma direta e cativante o mineiro de Nova Resende, Mouzar Benedito, que é morador da Vila Madalena.

O lançamento do livro aconteceu no dia 28 de janeiro, na Livraria da Vila da Rua Fradique Coutinho. Por uma dessas coincidências da vida, Gino Me¬neghetti, então com 92 anos de idade, tentou assaltar a residência onde hoje funciona a parte administrativa da Livra¬ria da Vila. A polícia o surpreendeu e o assalto acabou frustrado e ele, preso no¬vamente. Essa foi sua última a).ão crimi¬nosa, segundo relata Mouzar no livro. Meneghetti morreu aos 96 anos, pobre e morando na casa do filho na zona Sul da cidade.

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Programa Em Cartaz
Data: 2010-03-16
Autor: TV Aberta São Paulo
Comentário Boitempo:
Título: Entrevista com Mouzar Benedito
Matéria:
Confira entrevista com o Mouzar Benedito, autor de Meneghetti: o gato dos telhados, no programa Em Cartaz:





Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Revista Brasileiros
Data: 2010-03-18
Autor: Walterson Sardenberg
Comentário Boitempo:
Título: Um sujeito atirado
Matéria:
O acrobático Gino Meneghetti, o maior ladrão da história de São Paulo

Aproximadamente, 50 pessoas com o sobrenome Meneghetti, moradoras de São Paulo, foram contatadas, uma a uma. Elas responderam à mesma pergunta: "Que grau de parentesco tinham com Gino Meneghetti?". Todas as respostas foram evasivas. Ninguém admitiu uma proximidade sanguínea direta. Compreende-se. Gino Meneghetti era um gatuno; e não um gatuno qualquer. Foi o mais famoso ladrão da história de São Paulo - ladrão declarado, bem entendido.

Desde a década de 1910, pelo menos três gerações de paulistanos comentaram no dia a dia as façanhas do larápio. Seus furtos eram engenhosos; suas fugas, espetaculares. E ainda havia os inventivos macetes para ludibriar a polícia e fazê-la de otária. No imaginário da população, o italiano Meneghetti, nascido em Pisa, tornou-se o Gato dos Telhados, o Homem de Borracha, o sujeito atirado, capaz de saltar grandes distâncias de prédio em prédio e escapar ileso, mesmo em situações improváveis.

A essa figura acrobática somava-se a do fã da literatura e da ideologia anarquista. O surrupiador agia na surdina, não recorria à violência, jamais matou alguém, recusava-se a traficar drogas e nunca roubava trabalhadores. Só os ricos. Um personagem romântico.

O escritor e jornalista Mouzar Benedito, 63 anos, começou a ouvir essa mitologia sobre o "bom ladrão" quando ainda era meninote na diminuta Nova Resende, em Minas Gerais. Já morando em São Paulo, nos anos 1960, surpreendeu-se ao saber que Meneghetti, o audaz bailarino dos telhados, continuava vivo e na ativa. Seria possível? Afinal, tratava-se de um personagem dos tempos d'antanho. O italiano mão leve nascera em 1878 e desembarcara no Brasil em 1913, na maturidade dos 35 anos (ou 25, não se sabe ao certo).

Mouzar passou a recortar e colecionar reportagens e histórias a respeito do lendário larápio. Sem se dar conta, começava a reunir material para a biografia Meneghetti, o Gato dos Telhados, recém-publicada pela Boitempo Editorial.

"Evidentemente, é uma grande história", diz. "Sempre me chamou a atenção o fato de ele ter passado 18 anos numa solitária e mantido a sanidade. Também me impressionou que, ao roubar, sempre desse preferência às joias. Dizia que são bens supérfluos e só alimentam a vaidade. Meneghetti também era cortês com as mulheres, um ótimo dançarino, boa-praça com os vizinhos e adorava contar casos para as crianças."

Esses últimos atributos do ladrão, o autor do livro ouviu de Iracema Criscuolo, viúva do polêmico jornalista Orlando Criscuolo. No final dos anos 1940, depois de entrevistas exclusivas, o repórter policial hospedou Meneghetti na própria casa. Iracema foi uma das fontes inéditas para o livro. Mouzar valeu-se, também, da esmiuçadora pesquisa nos jornais, além das quatro obras publicadas anteriormente sobre Meneghetti. Infelizmente, pouco renderam aqueles mais de 50 telefonemas para os eventuais parentes, feitos em cooperação para o livro pelos insistentes repórteres Antonio Biondi e Marcel Gomes.

Um dos riscos de escrever sobre Meneghetti é transformá-lo em vítima. Outro, em um exemplo. Um terceiro, o de aderir à lenda. Mouzar, autor de 22 livros, incluindo romances de adorável bom humor - como o hilariante João do Rio, 45 -, safou-se de todos. O Meneghetti revelado pelo autor é um sujeito contraditório, ora decidido a evitar a reincidência, ora conformado ou orgulhoso do mito.

Em qualquer das situações, jamais se esqueceu de brandir seu ideário anarquista. "O comerciante é um ladrão que tem paciência", dizia. Também em momento algum deixou de admirar o vinho, fazer chacota com as autoridades, preocupar-se com a família, admirar o jogo de bacará ou bradar contra as injustiças sociais e os métodos da polícia. Foi um precursor da denúncia da tortura. Vítima dos choques elétricos e do pau de arara, rebelou-se: "Não pode haver no mundo tortura mais alucinante e dolorosa. Nem o 'Trem Internacional' criado por Hitler, nem as fogueiras da Inquisição, nem as pancadas dos sicários de Maomé na planta dos pés dos infiéis, nada no mundo pode ser comparado ao pau de arara brasileiro".

O material recolhido por Mouzar renderia um livro maior. Mas, mesmo limitado às 136 páginas da edição, o autor foi capaz de proezas. Ele conta não apenas a história de Meneghetti, mas também a de São Paulo. O ritmo ágil dos sucessivos roubos, ciladas, prisões, fugas do cárcere e procura de esconderijos seriam suficientes, nas mãos de um escritor de talento, para uma bem amarrada história policial. Mouzar não perde a oportunidade. Mas aproveita-se para contextualizar a ação no desenvolvimento de uma cidade que vai deixando de ser província com a chegada dos imigrantes, a derrocada do café, a industrialização, o início do movimento sindical, a queda das oligarquias e o surgimento de novas fortunas. Mais uma proeza de Mouzar: convencer Luiz Gê, um dos maiores quadrinhistas do País - mas atribulado professor universitário e então envolvido com a retomada da carreira de desenhista -, a readaptar uma HQ sobre o célebre ladrão, publicada originalmente, em 1976, no jornal alternativo Versus, e fonte de inspiração para o curta-metragem Dov'e Meneghetti, de Beto Brant. Os quadrinhos, renovados, aparecem no livro como delicioso posfácio.

Meneghetti morreu em 1974. Tinha 98 anos. Ou 88. Seis anos antes, havia sofrido a última acusação de furto. Foi flagrado com pé de cabra, talhadeira e lanterna, em "atitude suspeita" diante de um portão. Não havia provas. Por isso, se viu libertado. O endereço da derradeira abordagem policial é Rua Fradique Coutinho, 915, Pinheiros, onde hoje funciona a Livraria da Vila. E onde o livro foi lançado.

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Site Caros Amigos
Data: 2010-08-13
Autor: Mouzar Benedito
Comentário Boitempo:
Título: Promessas eleitorais
Matéria: Dizem que uma história puxa outra, e é verdade. Às vezes, começamos a conversar sobre um assunto, ele faz lembrar um outro, este lembra mais outro, e de repente estamos falando de coisas que não têm nada a ver com o início da conversa.

Foi o que aconteceu comigo e uma amiga falando do vale tudo das promessas eleitorais. Como ninguém pretende cumprir nada do que prometeu, prometem coisas pra lá de absurdas. No início, ela falou de um candidato a vereador de Natal, no Rio Grande do Norte, que prometeu que se fosse eleito construiria uma ponte até a ilha de Fernando de Noronha. Ou seja, uma ponte de 360 quilômetros, com pilares de milhares de metros de altura.

Então, eu me lembrei de um candidato a vereador de Belo Horizonte que prometeu fazer um canal para levar águas do oceano Atlântico até a lagoa da Pampulha, que além de ficar a uns quinhentos quilômetros do mar tem uma altitude de mais de oitocentos metros.

Aí a conversa virou pro Barão de Itararé, grande humorista gaúcho, que foi vereador do Rio de Janeiro pelo Partido Comunista, em 1946. O “Barão” mostrava que podia ser comunista sem ser carrancudo, tratava das coisas sérias com muito humor. Na época em que se candidatou a vereador faltavam muitos gêneros alimentícios no Rio, inclusive leite. E o abastecimento de água era horrível.

Ele não fez nenhuma promessa, mas seu lema de campanha era “mais água e mais leite, mas menos água no leite”. Isso porque além do leite ser escasso, às vezes vinha misturado com água, pra dar mais lucro às leiterias.

Daí eu me lembrei de outro assunto que não tem nada a ver com eleição. É o caso de uma pequena cidade mineira que tinha dois vendedores de leite, que iam de casa em casa com uma carroça com latões. Diziam que eles misturavam água no leite, mas os dois negavam veementemente.

Interessante é que a concorrência nunca atrapalhou a amizade deles, que eram até compadres. Tanto que quando resolveram conhecer o mar, deixaram os filhos cuidando da entrega de leite e foram para Santos juntos.

Os dois ficaram parados na praia olhando aquela vastidão de água e um falou pro outro:

– Cumpádi, já pensou se isso tudo fosse leite pra nóis vendê?

O outro pensou, pensou, e respondeu:

– Num ia sê bão não.

– Uai, pruquê?

– Onde é nóis ia arrumá água pra misturá nisso tudo?

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Revista de História da Biblioteca Nacional
Data: 2011-05-15
Autor: Mouzar Benedito
Comentário Boitempo:
Título: Honestamente ladrão
Matéria:


Mesmo com inúmeras passagens pela prisão, Meneghetti ficou na história de São Paulo como um vilão que era visto por muitos como herói

Os jornais paulistanos do dia 14 de junho de 1970 traziam uma notícia pequena, mas que surpreendeu muita gente: no dia anterior, Gino Amleto Meneghetti fora preso tentando entrar numa casa da Rua Fradique Coutinho, 909, na Vila Madalena. Levava nas mãos uma lanterna, uma talhadeira e um pé de cabra, ferramentas típicas de arrombadores de portas e janelas. Tudo isso seria muito comum se o homem que fora detido não tivesse 92 anos de idade! Liberado por falta de provas, Meneghetti sustentou, com casos como este, seu status de figura mitológica da história de São Paulo.

Gato dos Telhados, Ladrão Nobre, Bom Ladrão, Grande Ladrão, Homem Gato e Homem de Borracha foram algumas das alcunhas que ele ganhou da imprensa, por sua habilidade de andar sobre as casas, de entrar nelas pelos telhados e roubar ricos - sempre sem usar a violência -, e de fugir espetacularmente dos presídios. Foram dezessete escapadas desde a infância, passada em Pisa, na Itália, onde a pobreza o levou a cometer os primeiros furtos.

Nascido em 1878 - segundo ele mesmo; para alguns biógrafos, seu nascimento se deu em 1888 -, Gino chegou homem feito à capital paulista, depois de desembarcar em Santos no ano de 1913. Já tinha um histórico de roubos, prisões e fugas na Itália e na França, e veio para o Brasil porque era, segundo contava, um homem marcado na sua terra. Histórias de sucesso de uma tia e de outros italianos que viviam em São Paulo o atraíram e o incentivaram a buscar o sustento na cidade de maneira honesta. Mas sua vida boêmia atrapalhava tudo. O dinheiro que Meneghetti ganhava na fábrica de chocolates Falchi era pouco para seus hábitos de frequentador da noite e apreciador do vinho chianti.

Por isso, Gino largou o emprego e foi morar numa pensão, onde encontrou o amor de sua vida, Concetta Tovani, e conterrâneos que o reconduziram aos roubos. Começou a vender revólveres repassados por eles, que diziam ser contrabandistas de armas. Armas que, na verdade, eram roubadas. Meneghetti caiu numa armadilha policial, e em março de 1914 foi preso pela primeira vez em território brasileiro e condenado a oito anos de prisão.

Na cadeia, junto com outros presos, tentou cavar um túnel, mas um detento delatou o plano e o acusou de ser o mentor da ideia. Por isso, o italiano foi colocado nu em um poço, fechado por cima com uma grade. Foi aí que começou sua fama: numa noite fria do mês de julho de 1915, ele escalou o poço com um pé em cada parede e conseguiu arrancar uma das barras de ferro, mas o espaço aberto era pequeno. Mesmo assim, ele atravessou o vão apertado, deixando pedaços de pele nas barras, fugiu pelo telhado e desceu perto do Jardim da Luz. Era uma hora da manhã. Nu, no meio da garoa paulistana, conseguiu despistar um guarda e seguiu rumo à casa da tia para obter roupas.

Os jornais fizeram grande estardalhaço, e ele passou a ser um homem procurado. Abusado, voltou a praticar furtos e deixava recados nas casas roubadas. Como no palacete da baronesa de Arary, onde ele a alertou para que escolhesse melhor seu fornecedor, pois suas joias eram quase todas falsas. Também escrevia com frequencia cartas para os jornais gozando a polícia. Atitudes como essas fizeram de Meneghetti um mito, uma espécie de Robin Hood de São Paulo. No entanto, embora ajudasse os pobres - segundo algumas lendas, ele comprava alimentos para pessoas humildes que chegavam aos armazéns sem dinheiro suficiente -, não praticava seus furtos com essa finalidade.

Mas havia outro motivo para a sua fama: ele nunca praticava qualquer ato de violência. "Jamais roubei um pobre. Só me interessa tirar dos ricos, e tirar joias, que são bens supérfluos que só servem para alimentar a vaidade", dizia, coerente com seus ideais anarquistas. Quando criança, na Itália, Meneghetti já se sentia injustiçado por ser muito pobre, enquanto havia ali perto pessoas muito ricas, que desperdiçavam comida. Ele foi criando uma "consciência de classe" desde essa época. Leu muito, estudou. Já chegou ao Brasil adepto do anarquismo.

Seus furtos ocorreram em Minas Gerais, no Rio de Janeiro, em toda a Região Sul e até no Uruguai. Foi preso em vários estados, mas sempre conseguia fugir e voltar para São Paulo. Relatos fantasiosos diziam que ele usava molas nos pés para poder escapar da polícia saltando da rua para os telhados quando ficava acuado. Seu heroísmo era reforçado porque ele fazia com a polícia o que os pobres, constantemente perseguidos e discriminados, gostariam de fazer.

Cansada, em 1926 a polícia armou um cerco em torno da casa na Rua dos Gusmões, no Centro da cidade, onde moravam sua mulher e seus filhos. Meneghetti sabia da armadilha, mas uma noite, um tanto alcoolizado, resolveu procurar a família. Acabou encurralado e, como sempre, subiu no telhado atrás de uma rota de fuga. Mas todo o quarteirão estava cercado. "Havia mais policiais do que paralelepípedos", disse ele posteriormente. Informada, a população correu em massa para lá. Cerca de 50 mil pessoas, segundo os jornais, esperavam para ver como Meneghetti conseguiria fugir. Numa das várias tentativas de alvejá-lo, o delegado Waldemar Dória acabou sendo atingido por uma bala e morreu. O ladrão foi acusado do crime, coisa que negou até o fim da vida. Mais tarde ficou provado que ele tinha razão, pois foram tiros de calibre 38 que acertaram Dória nas costas - Gino portava um revólver 32. Algum desafeto do delegado o matou, aproveitando a ocasião.

Às 11h15 da manhã, Meneghetti finalmente se entregou. O fascínio daqueles que o viam como um herói bandido popular subitamente se transformou em ódio, enquanto a população o vaiava e fazia ameaças. Muito torturado, Gino foi posto numa cela da "Bastilha do Cambuci", um presídio de péssima fama, para onde eram enviados os inimigos do regime. Mesmo assim, sozinho numa cela, era vigiado 24 horas por dia. Ficou trancafiado até que fosse construída, especialmente para ele, uma cela blindada. Sua agonia era tanta que havia momentos em que ele gritava repetidamente "Io sono um uomo" (eu sou um homem), para reclamar do tratamento desumano ao qual vinha sendo submetido. Mas sempre que o ladrão começava a protestar, um policial se aproximava do cárcere, cuspia e jogava fezes em sua direção, antes de submetê-lo a mais uma sessão de tortura.

Com medo de ser envenenado, Meneghetti "lavava a comida" que recebia. Certa vez, contou ao jornalista Orlando Criscuolo (1917-1992) que, quando um rato entrava em sua cela pelo buraco do esgoto, ele o deixava comer um pouco de sua comida, tampava o buraco e esperava para ver se o roedor não morria. Só depois é que Gino se alimentava. Quem morreu de infarto nessa época foi Concetta, que deixou os filhos Lenine e Espártaco - nomes que homenageavam o revolucionário russo de 1917 e o líder de uma revolta de escravos na Roma antiga - com parentes. Libertado 18 anos depois, em 1944, ele encontrou uma cidade diferente, cheia de arranha-céus e inviável para um gato dos telhados. Mesmo assim, o mito persistia; prova disso foi a multidão que o esperava na saída da cadeia. Para que pudesse viver "honestamente", Meneghetti foi trabalhar em uma banca de jornal, mas não abandonou o hábito de roubar. Acabou sendo preso várias outras vezes, até 1970.

Numa das suas saídas da cadeia, na década de 1950, ele foi morar uns dias na casa de Criscuolo, que se tornara seu amigo. A mulher do jornalista, Iracema, ciente da fama do ladrão, ficou com medo. Mas o homem que recebeu em sua casa era um sujeito simpático, cortês, culto, que gostava de contar histórias para crianças. Por conta desse perfil, sua fama chegou a outros países. Quando o escritor e filósofo Albert Camus (1913-1960) esteve em São Paulo em 1949, fez questão de incluir em seu roteiro uma visita ao ladrão, que passava uma temporada encarcerado. Na despedida, o autor francês perguntou se podia fazer alguma coisa por ele. Meneghetti respondeu: "Sim, me dê um cigarro".

O ladrão, que adotou vários nomes falsos e declamava versos do poeta italiano Dante Alighieri (1265-1321), passou seus últimos anos pobre, dependendo dos filhos, até morrer de trombose em 1976, aos 98 anos. Entre uma prisão e outra, Gino chegou a acumular fortunas, mas cada centavo que obteve foi confiscado pela polícia. Até hoje Meneghetti é visto pelos paulistas como um exmplo do "bom ladrão": amado pelos pobres e temido pelos ricos. Anarquista, admirador da Revolução Russa, respeitador das mulheres e das crianças, venerado e odiado - e nem por isso vingativo -, ele dizia: "Só não fiz em São Paulo o que eu não quis". E, ao contrário de muitos homens supostamente honestos, tinha a sua ética: "Sempre detestei homens que malbaratam o dinheiro público".

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Mouzar Benedito é jornalista e autor do livro Meneghetti, o gato dos telhados (Boitempo Editorial, 2010).


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