Foreing Rights


Title: INFOPROLETÁRIOS [The Infoproletariat]
Subtitle: The Real Degradation Of Virtual Work
Author: Ricardo Antunes and Ruy Braga (orgs.)
Pages: 256
ISBN: 978-85-7559-136-9

This work examines the deep, difficult transformation of the working class and its international movement within the parameters used by Karl Marx in his era. The premise is that the working class is, in essence, a divided class; one which, on its own, will never successfully rise up and fight its exploitation. The book presents two somewhat opposed representations of the global working class. On the one hand, telemarketing operators: globalized in their social relations, totalized in their subordination, monitored in their every-move, punished for each infraction of the rules, they sum up and symbolize the new workers of the resplendent, but unattainable, consumer world. Their imaginations are completely limited and corralled by capitalism. On the other extreme we have the aristocrats of cyber labour — software programmers: boasting of and enjoying their autonomy while spiralling through space and time. They are no less prisoners of their own individuality, intoxicated by their illusory entrepreneurialism. Only the articulation of multiple identities — of gender, nationality, race and even class — grown in political arenas outside of the ambit of production and rising up against the market can defy globalized capital — but, even so, only in a limited, fragmented way. With flap by Michel Burawoy and texts by Ruy Braga, Simone Wolff and Ricardo Antunes, among others.

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: O Estado de S. Paulo
Data: 2009-10-11
Autor: Christian Carvalho Cruz
Comentário Boitempo:
Título: Admirável mundo novo?
Matéria:
Ao contrário do prometido, a tecnologia não aliviou a deterioração do trabalho, diz sociólogo: 'Apenas a transformou'

- A não ser em seus livros, em que analisa com acidez marxista as transformações do trabalho e suas implicações na vida cotidiana, o sociólogo Ricardo Antunes, da Unicamp, tem dificuldade de contar a dura verdade a um trabalhador. Certo dia lhe telefonou uma funcionária do banco querendo saber por que ele não pagava contas pela internet. "Porque eu não lido bem com tecnologia", Antunes disfarçou. A moça insistiu dias depois. "Porque eu não confio na internet", foi a segunda resposta que ela ouviu. Só no terceiro contato o sociólogo abriu o jogo: "Porque eu não quero que você perca seu emprego".

É justamente do trabalho no admirável mundo imaginado pelos entusiastas da era digital que trata seu novo livro, a coletânea de ensaios Infoproletários - Degradação real do trabalho virtual (lançado pela Boitempo). Organizada em parceria com o também sociólogo Ruy Braga e com lançamento previsto para o dia 26 deste mês, a obra faz um recorte preferencial pelos operadores de telemarketing e trabalhadores de call center, expressões máximas da atual precarização do trabalho, segundo Antunes. Contudo, na entrevista a seguir, o sociólogo envereda também por outros desdobramentos da nova realidade, na qual ele vê poucos motivos de celebração. "Não é possível que o século 21 transcorra com essa destruição do trabalho em escala monumental sem que algumas "placas tectônicas" se movimentem - e eu não estou falando de geofísica, obviamente", ironiza. "A história está aberta para qualquer tipo de saída."

EIS O INFOPROLETÁRIO
"O proletariado não acabou, ao contrário do que muitos previram e desejaram. Ele se transformou. O livro é uma tentativa de compreender essa transformação. Infoproletariado, ou ciberproletariado, são termos que compreendem uma ampla gama de trabalhadores que floresceu nas últimas três décadas e meia a partir do aumento do uso da tecnologia da informação, da globalização e da degradação das condições de trabalho. Esse triplo processo originou um tipo de proletário contraditório. Ele é de ponta, moderno, porque usa tecnologia avançada, mas é atrasado, porque herdou condições de trabalho vigentes no início do século 20. Analisar esse fenômeno é ir além do invólucro místico de certa sociologia segundo a qual a tecnologia traria para o trabalho o admirável mundo novo. Talvez fosse mais correto falar em abominável mundo novo.

MAIS COMPLETA TRADUÇÃO
"O operador de telemarketing é a expressão mais completa de infoproletário. Um trabalhador sob controle absoluto. Ele fica isolado em baias de modo que não converse com o colega do lado, tem tempo contado para ir ao banheiro, é punido se não cumpre metas e, como na indústria fordista, faz um trabalho prescrito e repetitivo levado ao limite. Um quadro de sofrimento e sujeição totalitária. Em franca expansão mundial, os call centers são, obviamente, importantes empregadores de jovens. Mas até eles percebem a tragédia em que se encontram. Em poucos meses não suportam o emprego, mas não podem sair, pois lá fora a opção é o desemprego. Sintomático que antes do início da jornada diária os teleoperadores se reúnam em um momento de concentração, com música agitada, palavras de ordem, etc. É o seu momento catártico para enfrentar a barbárie que virá.

E AÍ, PARCEIRO...
"O infoproletário não se rebela. Afinal, ele não é um trabalhador, ele é um "colaborador". Eis uma engenharia ideopolítica das empresas, nascida nesse novo mundo do trabalho. Elas precisam da aquiescência e do envolvimento dos trabalhadores para tê-los só pensando nelas. No seu jogo de palavras, um colaborador não é parte da classe operária, não se sindicaliza, não pensa em política. Colaborador é parceiro, quase sócio. Por isso até almoça no mesmo restaurante dos gestores. Como, por definição parceria implica ajuda mútua, na bonança ou na tragédia, eu pergunto a essas empresas: por que o seu colaborador é o primeiro a ser penalizado em tempos de crise? Estamos diante de uma falácia, logicamente.

VOLUNTÁRIO NÃO, OBRIGADO
"É o caso também da chamada web 2.0, em que os indivíduos são "convidados" a colaborar com empresas de internet. Há uma utilidade social clara nisso, não nego: o cidadão pode dividir com outros cidadãos quaisquer informações que julgue importantes. Porém, há um segundo elemento, que é o capital se aproveitando de mais uma brecha para gerar valor. Como no trabalho voluntário, mais uma forma de mascarar a autoexploração. Ao procurar emprego hoje você estará em desvantagem se não mostrar no currículo que fez ou faz trabalho voluntário. As empresas valorizam isso. Mas se você tem que fazer trabalho voluntário para conseguir um emprego, então ele se tornou trabalho compulsório. No Brasil existem perto de 20 milhões de trabalhadores voluntários. É evidente que eles substituem 20 milhões de assalariados que estariam recebendo para realizar um trabalho agora feito por voluntários que são obrigados a sê-lo. Que coisa...

HOME OFFICE
"Outro desdobramento do cibertrabalho é o trabalho a distância, o melhor dos mundos para o capital. Você trabalha em sua casa, onde o público e o privado se embaralham: como não há definição do que é trabalho e do que é descanso, a jornada se estende. Você fica sempre disponível e pode ser incomodado a qualquer hora por questões de trabalho, afinal você não está só em casa, está também no escritório. A noção de tempo desmorona com a vida privada. É uma nova modalidade de precarização permitida pela tecnologia. O pior é que virou tendência, essa é a nossa tragédia. Sou capaz de compreender o lado positivo do trabalho a distância para certo tipo e trabalhador que dispõe de "capital cultural" e acha bom ter controle sobre o próprio tempo. Mas o inverso disso é a individualização, o isolamento, o fim do trabalho coletivo e a quebra dos laços sociais.

TERREMOTO SOCIAL
"O avanço tecnológico atual é tamanho que poderíamos trabalhar tranquilamente três horas por dia durante três ou quatro dias por semana. Todos produziríamos e viveríamos bem. Mas como realizar isso nesses tempos de sociedade que vive em plena superfluidade? As pessoas precisam ir ao shopping, consumir sem parar, mesmo sem saber o quê nem pra quê, não é mesmo? Alguma coisa está fora de ordem. E não é possível que o século 21 transcorra com essa destruição do trabalho em escala monumental sem que algumas "placas tectônicas" se movimentem - e eu não estou falando de geofísica, obviamente. Cinco anos atrás quem diria que os Estados Unidos tomaria medidas estatizantes para impedir a falência de seu sistema financeiro? Quem diria que no modelo imaginado pelo american way of life o essencial automóvel se tornaria também moradia da classe média? A história está aberta, inclusive para saídas ainda mais à direita."

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Agência Carta Maior
Data: 2009-10-26
Autor: Da Redação
Comentário Boitempo:
Título: Infoproletários: a degradação real do trabalho virtual
Matéria:
Há uma associação oculta entre o uso de novas tecnologias e a imposição de condições de trabalho do século XIX em um dos setores considerados como mais dinâmicos da economia moderna. Essa é uma das teses centrais do livro "Infoproletários - Degradação real do trabalho virtual, um lançamento da Boitempo Editorial.

O livro Infoproletários - Degradação real do trabalho virtual evidencia a associação oculta entre o uso de novas tecnologias e a imposição de condições de trabalho do século XIX em um dos setores considerados como mais dinâmicos da economia moderna, o informacional. Ao contrário do que é prometido pelos entusiastas deste novo segmento, os trabalhadores vivenciam uma tendência crescente de alienação do trabalho em escala global. A obra reúne uma série de ensaios que esquadrinham diferentes aspectos da rotina e do modo de vida daqueles que, apesar de frequentemente arruinarem suas vozes ao transformá-las em poderosos instrumentos de acumulação de capital, raramente são ouvidos.

A classe trabalhadora é retratada neste livro em duas representações polarizadas. De um lado, aparecem os operadores de telemarketing. Globalizados em sua relação social, totalizados em sua subordinação, monitorados em cada um de seus movimentos, punidos por cada infração às regras, resumem e simbolizam os novos trabalhadores atrelados ao resplandecente, porém inatingível, mundo do consumo. Sua imaginação é totalmente circunscrita e dirigida pelo capitalismo.

Já em outro extremo estão os aristocratas do cibertrabalho, os programadores de software, gabando-se e desfrutando de sua autonomia enquanto se movem em espiral pelo espaço e pelo tempo. Eles não são menos prisioneiros da própria individualidade, intoxicados por seu ilusório empreendedorismo.

Segundo Michel Burawoy, sociólogo que assina a orelha do livro, ”a obra aponta para a profunda transformação sofrida pela classe trabalhadora e o projeto de movimento internacional operário, ante os parâmetros verificados por Karl Marx em seu tempo. Apenas a articulação entre múltiplas identidades – de gênero, de nacionalidade, de raça, assim como de classe – forjadas em terrenos políticos que transcendam a produção imediata lhes permitirá se rebelar contra o mercado e desafi ar o capital global – mas, mesmo assim, apenas em um grau limitado e de uma forma fragmentária. Essa é certamente a mensagem deste livro – que revela a experiência cotidiana vivida por essa nova classe trabalhadora globalizada ligada aos serviços”.

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: O Estado de S. Paulo
Data: 2009-11-20
Autor: Julia Contier
Comentário Boitempo:
Título: Home office dá personalidade à casa e traz agilidade ao dia a dia
Matéria:
Trabalhar em casa pode parecer o melhor dos mundos. Não se perde tempo no trânsito, é possível fazer o próprio horário e ficar mais com a família. Ainda dá para decorar o ambiente, trabalhar ouvindo música e vestir uma roupa confortável. Em contrapartida, é preciso ter muita disciplina, organização e tomar alguns cuidados para não se isolar – um dos pontos negativos da tendência dos home offices apontados por Ricardo Antunes, professor da Unicamp e especialista em sociologia do trabalho. Autor do livro Infoproletário – Degradação real do trabalho virtual (Ed. Boitempo), ele diz que o expediente caseiro pode marcar a quebra de laços sociais. “Transferir o trabalho produtivo para o ambiente doméstico é muito vantajoso para as empresas – que se isentam de um conjunto de benefícios ao trabalhador – cabe ao profissional tirar vantagem da situação”, afirma Antunes.

Mas hoje em dia o espaço para escritório é presença quase obrigatória nos projetos arquitetônicos de casas e apartamentos. “Em breve, ele será tão essencial quanto o banheiro e os quartos. Muitos prédios já estão saindo da planta com home office”, salienta a arquiteta Ana Carolina M. Tabach, diretora de projetos da C + A Arquitetura e Interiores.

Adaptar a casa para o trabalho requer planejamento. É preciso se ater a uma série de questões, como organização, iluminação e materiais (leia mais ao lado). “Seja qual for o propósito de transformar a morada em um substituto do escritório, ou na extensão dele, é muito importante criar um espaço funcional, aconchegante e livre de improvisos”, ensina a arquiteta.

Se unir casa e trabalho já é difícil, misturar casa, trabalho, casamento, filho e cachorro é mais ainda. A solução encontrada pela figurinista Teka Paes de Carvalho, de 31 anos, e pelo designer Marko Brajovic, de 35, foi reformar o terceiro andar da casa e transformá-lo em um escritório acoplado. As paredes dos três antigos quartos foram derrubadas e o ambiente hoje abriga o ateliê de Teka.

“A vantagem do projeto é que temos uma escada que leva ao escritório sem passar pela casa”, explica a figurinista, ressaltando a separação entre os dois ambientes. “Quando desço é como se saísse do escritório e chegasse em casa rapidamente”, comenta. “Tenho mais tempo para ficar com minha filha, de 3 meses, almoço em casa e participamos mais do trabalho um do outro.” Para abrigar o escritório de Marko, a varanda desse terceiro andar foi fechada com vidro e foi instalada uma extensa bancada que comporta até sete pessoas ao mesmo tempo.

Enquanto alguns dão maior ênfase à instalação do home office e executam grandes reformas, outros adaptam a casa dentro de um orçamento menor, como fez a arquiteta Regina Strumpf. “A única alteração que fiz quando decidi trabalhar em casa foi colocar a mesa ao lado da janela para olhar a jabuticabeira e a água da piscina, que inspiram e acalmam”, diz. A desvantagem de não ter um ambiente exclusivo para o trabalho é o uso coletivo da sala, que acaba tirando parte da concentração de Regina. “O espaço também funciona como sala de TV da família e muitas vezes me desconcentro.”

Mas, mesmo assim, a arquiteta, que durante anos foi diretora da loja de tecidos Formatex, adora trabalhar em casa e não se imagina mais em uma grande empresa. Usufruindo o máximo possível da tecnologia, ela mantem até uma estagiária à distância. “Trabalhamos muito bem separadas, nos falamos pelo telefone e pela internet, fazemos reuniões uma vez por semana e saímos juntas para acompanhar as obras”, conta.

Assim como Regina, Flávia Pegorin, de 34 anos, não pretende parar de trabalhar em casa. A jornalista, que decidiu trocar a redação pela própria casa quando estava no quinto mês de gestação, diz que se adaptou muito bem à nova rotina. Primeiro, queria um bom quarto de trabalho, com uma prateleira grande, mas depois percebeu que o quarto ficava muito isolado da casa e não recebia luz natural. “Comprei uma escrivaninha, pintei a parede e mudei o escritório para a sala. Agora fico em um lugar onde bate sol e que tem a minha cara.” De qualquer forma, o escritório de Flávia é portátil. “Às vezes pego meu computador, com internet móvel, e vou trabalhar em um café.

O executivo Lysandro Trotta, de 32 anos, cumpre seu expediente em casa e dirige uma empresa com 20 funcionários – em que todos fazem home office. Para ele, o importante é criar de fato um ambiente profissional. “Coloquei até uma plaquinha de ferro na porta com o nome da empresa.”

A juíza Caren Cristina Fernandes, de 37 anos, não abre mão de ir ao fórum. “Gosto do ambiente de trabalho e, todas as tardes, presido audiências”, conta. Mesmo assim, ter um espaço de trabalho em casa é fundamental, ela admite. E como o trabalho de Caren se estende até a noite e nos fins de semana, a solução foi construir um espaço funcional em sua morada. “Precisava de um lugar para abrigar os livros, fazer despachos e elaborar sentenças.” Seu home office foi projetado ainda na planta. “Fiz essa exigência no projeto do apartamento”, explica.

Seja como for, é possível tornar o ambiente profissional doméstico mais efetivo – se bem planejado – sem perder as vantagens de trabalhar onde se mora.

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Folha de S. Paulo
Data: 2009-11-24
Autor: Ricardo Antunes
Comentário Boitempo:
Título: Crônica de 2010
Matéria:
O que se pode visualizar, hoje, em relação às eleições para a Presidência da República no ano que vem?

O que se pode visualizar, hoje, em relação às eleições presidenciais de 2010? Comecemos pela candidatura Dilma Rousseff, do PT. Parida pelo lulismo, a mãe do PAC é uma candidata cinzenta. Capaz de aglutinar um leque de interesses econômicos poderosos, das finanças ao agronegócio, passando pela indústria pesada, Dilma é uma concorrente submersa no desconhecido.

Burocrata competente que tromba mais que articula, jamais participou de uma campanha. A capacidade que terá de herdar os votos de seu criador, ninguém sabe. Como também não se sabe se este tem capacidade de transferir seu cacife eleitoral à sua criatura. E foi encontrar no PMDB seu aliado preferencial, partido que há décadas vem chafurdando numa programática que é a mais pura pragmática.

A candidatura Dilma ainda espera, à direita, o vagalhão que vem do PP de Maluf ao PTB de Collor, com a chancela de Sarney e outras siglas de aluguel. À esquerda, tem apoio certo do PC do B e espera os desdobramentos do PSB de Ciro Gomes.

Mas o espectro Lula viu florescer duas ramificações não programadas. De um lado, Ciro Gomes, baseado no Ceará e recém-bandeado para São Paulo, tempera um voluntarismo com as práticas das (novas?) oligarquias do Nordeste. É capaz de pinçar termos "gramscianos" para preservar a nossa "questão meridional".

Poderá ser a alternativa de Lula no caso de um fracasso de Dilma, mas também poderá sair de cena para não confrontar o nosso semibonaparte cordato, que comanda pela simpatia, mas não gosta de muita ousadia. Restará a opção São Paulo. Porém, a transferência de seu título eleitoral para uma cidade eleitoralmente provinciana e bastante conservadora pode ter sido seu mais grave erro político, maior ainda do que a andança que já fez entre tantos partidos.

A outra novidade é a provável candidatura de Marina Silva. Mulher batalhadora, exemplo emblemático dos que vêm "de baixo" e conseguem quebrar alguns grilhões, mas que não soube romper com o governo do PT quando devia. Foi conivente com a aprovação dos transgênicos e viu arranhada a sua trajetória ao ficar seis anos no governo Lula. No PV, tem à sua esquerda o Peninha e à direita o Zequinha Sarney. Defende a sustentabilidade numa sociedade cada vez mais insustentável. Não quer ferir a ordem, mas amoldar-se a ela. Se vier a surpreender, não será fácil saber se encontrará ancoragem no seu berço original, o PT, ou se flertará com o PSDB. Mas, se até aqui o quadro parece pelo menos pontilhado, no tucanato tudo é sempre indefinido. O PSDB tem um leque de apoios materiais poderosos, tão amplo quanto os da candidatura do PT, mas com certa ênfase nos setores industriais e produtivos.

Tem também a possibilidade de lançar a sua chapa eleitoralmente mais forte dos últimos anos: Serra e Aécio, dois colégios eleitorais poderosos. Mas, como no PSDB só há príncipes, essa chapa não deverá vingar. Melhor para o país, que poderá assim se livrar do privatismo ilimitado do tucanato. Só como ilustração: enquanto Serra é o rei do pedágio privatizado em São Paulo, Aécio gesta a privatização até no cárcere mineiro.

Juntos, não será nada fácil, e os Correios, bancos e universidades públicas devem pôr suas barbas de molho. Só por isso, essa chapa é do encanto de parcela poderosa dos "de cima", respaldada pelo caiado e fraquejado DEM, cuja sigla é um claro antípoda de sua longa história como PFL, Arena ou UDN. Nas esquerdas, PSOL, PSTU e PCB não podem ter outra ambição senão fazer forte contraponto, sem nenhuma ilusão eleitoralista. Mas não será fácil. No PSOL, fala-se abertamente em apoio a Marina Silva, como forma de pingar votos e, com isso, "aumentar" a bancada parlamentar do partido. Há também os que defendem a candidatura de Heloísa Helena com raciocínio similar. É o velho PT incrustado no PSOL. Depois de seu melhor momento eleitoral em 2006, quando conseguiu mais de 6 milhões de votos -numa conjuntura marcada pela corrosão do PT e seu governo-, o que era novo corre o risco de envelhecer precocemente.

A pré-candidatura de Plínio de Arruda Sampaio é, então, emblemática: poderá ser "vitoriosa" se quebrar o tom monocórdio das demais candidaturas, fizer a polêmica de fundo com Marina e esboçar uma alternativa socialista, gerando algum interesse real nos "de baixo". Será, de fato, uma anticandidatura.

RICARDO LUIZ COLTRO ANTUNES, 56, é professor titular de sociologia do trabalho do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e autor, entre outros livros, de Infoproletários: Degradação Real no Trabalho Virtual (Boitempo), em co-autoria com Ruy Braga.

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Valor Econômico
Data: 2010-01-06
Autor: João Villaverde
Comentário Boitempo:
Título: Pesquisador compara categoria aos bancários dos anos 70
Matéria:
Pesquisador do mundo do trabalho e de práticas sindicais, o professor titular de sociologia do trabalho na Unicamp, Ricardo Antunes, compara o telemarketing aos bancários dos anos 60 e 70, ou seja, cargos ocupados em sua maior parte por estudantes universitários, que têm a perspectiva de sair do setor. A ação sindical, neste ambiente, "é difícil", mas, segundo Antunes, deve aproveitar as "condições adversas da função, isto é, a penúria, a exploração, a intensidade e pressão", que "empurram o trabalhador para outro emprego ou para se organizar".

Para Antunes, os sindicatos devem compreender melhor a "nova morfologia do trabalho", que, diferentemente de categorias tradicionais, como metalúrgicos e bancários, trata de terceirizados, jovens e mulheres.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Valor: Qual é a relevância do setor de telemarketing?
Ricardo Antunes: O telemarketing hoje tem mais ou menos a mesma característica que os bancários tinham na década de 1960 e início dos anos 70. Era o primeiro emprego, ocupado em sua maior parte por estudantes que, tão logo formados, saíam dos bancos para trabalhar em economia, advocacia, jornalismo. Claro que as diferenças no mercado de trabalho dos anos 60 para hoje, começo de 2010, é brutal. O país é muito diferente. O telemarketing é o reflexo da classe trabalhadora "invisível" em tempos de retração e desemprego, como tivemos nos anos 90, que vai ocupar postos de trabalho onde existe demanda. Há uma profunda mudança de perfil no mundo do trabalho, que poucos perceberam ou estão percebendo. São Bernardo do Campo chegou a ter 240 mil operários na cadeia automotiva, entre os anos 70 e 80. Hoje, não chega a 90 mil. Os bancários chegaram a bater na casa dos 850 mil, mas hoje não alcançam 400 mil. Ao contrário disso tudo, os call centers cresceram e já empregam mais que estes dois setores tradicionais. Nos anos 90, com a privatização da Telebrás, temos a explosão desse processo. Valor: Mas já não havia grande contingente de trabalhadores em empresas de telefonia antes do telemarketing e call center?
Antunes: Sim, mas os operadores de telemarketing não têm nada a ver com o antigo trabalhador de telefonia, que era um sujeito especializado, sindicalizado e, por ser funcionário de empresas públicas, tinha certa estabilidade de emprego, o que permitia um nível de desenvolvimento e aprimoramento individual e coletivo que o telemarketing não permite. O telemarketing é o oposto de tudo isso. O trabalhador não é especializado e normalmente divide seu tempo com universidade ou mesmo com outro emprego. Trabalham seis horas ao dia num ritmo extenuante, onde a voz é o instrumento de trabalho. Com esse ritmo e um supervisor intervindo a todo momento, é a categoria que mais remete ao passado, sendo herdeira do taylorismo e do fordismo.

Valor: Qual é o perfil deste trabalhador?
Antunes: É uma categoria intensamente explorada, fortemente individualizada, muito jovem, e que está num emprego temporário, onde entrou com um sonho que logo é transformado. Existe uma espécie de mito, entre os jovens que trabalham como operadores, de que o trabalho, normalmente o primeiro emprego, é um sonho que permitirá dar o ponto de partida. Seis meses depois, o sonho é sair da empresa. E o jovem só não sai porque não tem condições de encontrar outro trabalho, muitas vezes porque não é especializado. É um trabalho extremamente individualizado, em que os funcionários ficam separados por baias, o diálogo é restrito, há pouco tempo livre e, quando há, o espaço de socialização é pequeno. Trata-se de um setor novo, sem tradição sindical. E há, por parte das empresas, uma campanha muito intensa, explícita ou não, de manter-se distante dos sindicatos.

Valor: Ainda é possível construir sindicatos fortes hoje?
Antunes: De modo geral, a atuação sindical está muito fragilizada. Da década de 1990 para cá, houve um processo muito forte de descaracterização dos sindicatos como órgãos de representação coletiva. Vários sindicatos tradicionais foram desmontados no mundo inteiro, devido a este movimento coordenado de individualização das relações. Além disso, há a tragédia do sindicalismo pelego, aquele atrelado ao Estado, que tem efeito devastador sobre os sindicatos mais sérios. Podemos ilustrar esse fenômeno do telemarketing por meio de outra categoria "nova": os motoboys. Trata-se de uma área dos serviços que também se expandiu muito nas últimas duas décadas, que igualmente sofre preconceito social e com uma jornada de trabalho acachapante. Os problemas dos motoboys acabam sendo, principalmente nas grandes cidades, mais visíveis que os de telemarketing, porque as motos estão nas ruas. Mas as dificuldades são as mesmas, quer dizer, descobrir como agir em áreas novas e individualistas.

Valor: Como fica a atuação sindical neste ambiente?
Antunes: É difícil sindicalizar trabalhadores nessas circunstâncias, mas não impossível. É possível, por exemplo, constituir núcleos mais conscientes no local de trabalho. Muitos operadores de telemarketing são estudantes universitários, têm certa propensão ao pensamento crítico. A individualização e a necessidade de ter emprego empurram o trabalhador para um universo ideológico mais próximo da empresa, que aproveita, é claro. As condições adversas de trabalho - a penúria, a exploração, a intensidade e pressão- empurram, num prazo mais longo, o trabalhador para outro emprego ou para se organizar. É aí que deve entrar o sindicato. Nenhuma categoria nasceu com organização sindical forte, isto é algo que é moldado a partir de ações cotidianas dos trabalhadores.

Valor: O sr. vê isto ocorrendo?
Antunes: Não, mas este é um processo lento, molecular. Isto ocorrerá com um sindicalismo mais ousado, mais claramente representativo da base dos trabalhadores, algo que também é muito difícil, porque hoje o ambiente é brutalmente desfavorável aos trabalhadores sindicalizados, se compararmos com o que existia nos anos 80. Há muita informalidade, muito trabalho terceirizado. É um terreno onde os sindicatos, todos eles, não têm conseguido fazer avanços. Os sindicatos não têm conseguido representar esta nova morfologia do trabalho, que tem classe trabalhadora mais heterogênea, com maior participação da mulher - e o sindicato brasileiro é herdeiro de tradição machista. Há muita dificuldade em representar corretamente os terceirizados, os jovens, mulheres. Uma mudança neste equilíbrio de forças deve ocorrer agora, nesta década de 2010.

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Rádio CBN
Data: 2009-12-14
Autor: Heródoto Barbeiro
Comentário Boitempo:
Título: 'Dados sobre emprego não são duradouros porque país ainda não saiu totalmente da crise'
Matéria:
Confira entrevista com Ricardo Antunes, professor titular de Sociologia do Trabalho da Unicamp, na rádio CBN

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Revista Espaço Acadêmico
Data: 2009-12-06
Autor:
Comentário Boitempo:
Título: Livros recebidos - Infoproletários
Matéria:
Infoproletários evidencia a associação oculta entre o uso de novas tecnologias e a imposição de condições de trabalho do século XIX em um dos setores considerados como mais dinâmicos da economia moderna, o informacional. Ao contrário do que é prometido pelos entusiastas deste novo segmento, os trabalhadores vivenciam uma tendência crescente de alienação do trabalho em escala global. A obra reúne uma série de ensaios que esquadrinham diferentes aspectos da rotina e do modo de vida daquelesque, apesar de frequentemente arruinarem suas vozes ao transformá- las em poderosos instrumentos de acumulação de capital, raramente são ouvidos.

A classe trabalhadora é retratada neste livro em duas representações polarizadas. De um lado, aparecem os operadores de telemarketing. Globalizados em sua relação social, totalizados em sua subordinação, monitorados em cada um de seus movimentos, punidos por cada infração às regras, resumem e simbolizam os novos trabalhadores atrelados ao resplandecente, porém inatingível, mundo do consumo. Sua imaginação é totalmente circunscrita e dirigida pelo capitalismo.

Já em outro extremo estão os aristocratas do cibertrabalho, os programadores de software, gabando- se e desfrutando de sua autonomia enquanto se movem em espiral pelo espaço e pelo tempo. Eles não são menos prisioneiros da própria individualidade, intoxicados por seu ilusório empreendedorismo.

Segundo Michel Burawoy, sociólogo que assina a orelha do livro, ”a obra aponta para a profunda transformação sofrida pela classe trabalhadora e o projeto de movimento internacional operário, ante os parâmetros verificados por Karl Marx em seu tempo. Apenas a articulação entre múltiplas identidades – de gênero, de nacionalidade, de raça, assim como de classe – forjadas em terrenos políticos que transcendam a produção imediata lhes permitirá se rebelar contra o mercado e desafiar o capital global – mas, mesmo assim, apenas em um grau limitado e de uma forma fragmentária. Essa é certamente a mensagem deste livro – que revela a experiência cotidiana vivida por essa nova classe trabalhadora globalizada ligada aos serviços”.

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Revista Cult
Data: 2010-02-01
Autor: Da Redação
Comentário Boitempo:
Título: Infoproletários – Degradação real do trabalho virtual
Matéria:
Infoproletários – Degradação real do trabalho virtual.
Org: Ricardo Antunes e Ruy Braga (Boitempo).

Dois dos principais nomes brasileiros no campo da sociologia do trabalho, Ricardo Antunes e Ruy Braga apresentam neste livro as metamorfoses do trabalho e as assimetrias de classe com o advento da 'sociedade da informação'. Para os autores, o 'operador de telemarketing' tornou-se o símbolo sombrio da nova condição proletária. Ao descrever a rotina dos infoproletários, o livro detecta a resiliência e a baixa capacidade de organização coletiva que impedem reivindicações por condições mais justas de trabalho. Por meio de pesquisas de campo detalhadas, os estudos mostram como o setor de telemarketing é capaz de conjugar tecnologias do século 21 e condições de trabalho do século 19.

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Agência Fapesp
Data: 2010-02-12
Autor: Fábio de Castro
Comentário Boitempo:
Título: Contradição trabalhista
Matéria:
O setor informacional – que inclui amplos segmentos caracterizados pelo uso intensivo de novas tecnologias, como as telecomunicações e a informática – é considerado um dos mais dinâmicos e arrojados da economia contemporânea. No entanto, as condições de trabalho encontradas nessas áreas podem ser tão precárias como as dos operários do século 19.

Esse é o mote do livro Infoproletários – Degradação real do trabalho virtual, que traz ensaios de 11 autores brasileiros e estrangeiros, com base em pesquisas científicas sobre aspectos diversos do trabalho no setor informacional que compõe a nova morfologia do trabalho no Brasil.

A obra foi organizada por Ricardo Antunes, professor do Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e por Ruy Braga, professor do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP) e diretor do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania da USP (Cenendic). Vários dos autores tiveram apoio de Bolsas da FAPESP para a realização dos estudos apresentados no livro.

“O livro é uma coletânea que procura recolher o que encontramos de mais qualificado na pesquisa científica feita hoje no Brasil sobre o que chamamos de proletariado do setor informacional. Além disso, traz duas contribuições de autores internacionais”, disse Antunes à Agência FAPESP.

Além de pesquisadores de várias instituições brasileiras, o livro traz as contribuições de Ursula Huws, da Universidade de Londres (Inglaterra), e Juan José Castillo, da Universidade Complutense de Madri (Espanha). O sociólogo britânico Michael Burawoy é o autor da nota de apresentação da obra.

Segundo Antunes, o objetivo do livro é contribuir para a compreensão da realidade dos trabalhadores que atuam em relação estreita com as tecnologias da informação, designados como “infoproletariado”, ou “cyberproletariado”.

“Há um mito de que os melhores empregos do mundo estão nessas áreas, que, por terem alta demanda, ofereceriam grandes oportunidades e autonomia. Mas, quando fazemos uma análise científica, vemos que as condições concretas mostram um quadro muito diferente, marcado por uma profunda alienação do trabalho”, disse.

Antunes afirma que o infoproletariado convive com uma dualidade: os trabalhadores lidam com uma tecnologia avançada, mas vivenciam muitas vezes condições de trabalho precárias, típicas das primeiras fases do capitalismo, com jornadas extenuantes e ausência de direitos elementares.

Nos critérios utilizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o setor informacional se divide em atividades como telecomunicações, informática, edição de programas, processamento de dados, atividades de bancos de dados, produção, distribuição e projeção de filmes, rádio e televisão e atividades de agências de notícias.

Antunes explica que o setor se caracteriza por uma polarização. Em um dos extremos estão os trabalhadores que atuam no desenvolvimento de softwares. No polo oposto, estão os operadores de telemarketing.

“Os programadores de software são vistos como uma elite do cybertrabalho, desfrutando de alguns privilégios, como uma suposta autonomia. Ainda assim, nesse segmento as condições de trabalho são muito intensificadas e o profissional é sobrecarregado por uma pesada cobrança. A individualização sufocante e a responsabilização desse trabalhador têm sido responsáveis por suicídios em vários países do mundo”, apontou.

No caso do telemarketing, que se encontra na base da hierarquia do cybertrabalho, as condições de trabalho são ainda mais exasperantes, segundo Antunes. “Há um controle muito rígido do fluxo de trabalho, imposto pela regulação rigorosa do tempo médio de atendimento. A individualização é reforçada pela segregação espacial em baias, que restringem o contato com os colegas. E o tempo destinado para alimentação e uso do banheiro é limitadíssimo”, disse.

Segundo Antunes, os estudos mostram que o segmento do telemarketing tem forte contingente de mulheres – cerca de 70% do total – e jovens. O setor, que não para de crescer, já tem quase 1 milhão de trabalhadores.

“Nossas pesquisas constataram, de forma abundante, que muitos jovens encontram nos call centers seu primeiro emprego, com a ilusão de que encontrarão ali condições de trabalho adequadas. Mas, depois de alguns meses, o maior sonho desses trabalhadores é abandonar o telemarketing”, afirmou.

Home office
No setor informacional, de forma geral os trabalhadores sofrem intensivamente com o enxugamento dos postos de trabalho, com demissões frequentemente decorrentes de processos de privatização, segundo Antunes. Outro fator que gera sofrimento intenso é a responsabilização de competências.

“Frequentemente, o trabalhador é elogiado quando realiza o trabalho padrão e ridicularizado quando sua faixa de produtividade fica abaixo da média. Nos postos de gestão, mais altos nas hierarquias, os trabalhadores são culpabilizados quando os projetos fracassam. Muitos não suportam esse fracasso coletivamente publicizado”, disse.

A individualização e o isolamento do infoproletário também se combinariam à precarização das condições de trabalho. “Houve uma quebra da noção de trabalho coletivo, rompendo uma série de laços sociais. Muitos trabalhadores já não têm postos de trabalho fixos dentro da empresa e outros – especialmente na área de tecnologia da informação – trabalham em seu espaço doméstico”, afirmou.

Trabalhar em casa, segundo Antunes, pode ter aspectos positivos, como uma relativa liberdade. Mas a autonomia para gerenciar a jornada de trabalho pode se transformar em uma intensidade de trabalho maior.

“Esse trabalhador é isolado do resto do mundo. Além disso, um adoecimento nesse tipo de trabalho é frequentemente desprovido da segurança previdenciária e de saúde que a empresa é obrigada a assumir se o empregado estiver trabalhando in loco”, destacou.

Os setores informacionais, no entanto, são heterogêneos, segundo Antunes. Há empresas que disponibilizam os direitos sociais garantidos para o conjunto dos trabalhadores.

“Mas há também o trabalhador conhecido como ‘pessoa jurídica’, que é o empresário explorador de si mesmo. Desprovido de direitos, pode ser demitido por meio de um simples encerramento de contrato. Essa modalidade de trabalho é muito frequente nos setores de mídia e comunicação”, disse.

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: InfoMoney
Data: 2010-02-23
Autor: Da Redação
Comentário Boitempo:
Título: Mito: melhores empregos não estão na área de comunicação e informática
Matéria:
Segundo professor da Unicamp, mito existe em razão da alta demanda e das ofertas de grandes oportunidades no setor

Há um mito de que os melhores empregos estão na área informacional, que inclui os segmentos de telecomunicações e informática. Segundo o professor do Departamento de Sociologia do IFCH (Instituto de Filosofia e Ciências Humanas) da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Ricardo Antunes, isso acontece em razão da alta demanda por profissionais, o que geraria grandes oportunidades.

"Quando fazemos uma análise científica, vemos que as condições concretas mostram um quadro muito diferente, marcado por uma profunda alienação do trabalho", afirmou o professor.

Segundo Antunes, o "infoproletariado" lida com uma tecnologia avançada, entretanto as condições de trabalho são precárias, com jornadas extenuantes e sem direitos elementares.

Atividades
Conforme o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o setor informacional se divide em atividades como telecomunicações, informática, edição de programas, processamento de dados, atividades de bancos de dados, produção, distribuição e projeção de filmes, rádio e televisão e atividades de agências de notícias.

De acordo com Antunes, há uma polarização no segmento. Em um extremo, podem ser encontrados trabalhadores que atuam no desenvolvimento de softwares e, em outro, operadores de telemarketing.

"Os programadores de software são vistos como uma elite do cybertrabalho, desfrutando de alguns privilégios, como uma suposta autonomia. Ainda assim, nesse segmento as condições de trabalho são muito intensificadas e o profissional é sobrecarregado por uma pesada cobrança", disse Antunes.

Telemarketing
Na outra ponta, o setor de telemarketing não para de crescer e tem aproximadamente 1 milhão de trabalhadores, sendo que cerca de 70% são mulheres.

"Muitos jovens encontram nos call centers seu primeiro emprego, com a ilusão de que encontrarão ali condições de trabalho adequadas. Mas depois de alguns meses, o maior sonho desses trabalhadores é abandonar o telemarketing", explicou Antunes. "Há um controle muito rígido do fluxo de trabalho, imposto pela regulação rigorosa do tempo médio de atendimento", completou.

Pesquisa
Os dados estão no livro Infoproletários - Degradação real do trabalho virtual, que traz ensaios de 11 autores brasileiros e estrangeiros, com base em pesquisas científicas sobre aspectos diversos do trabalho no setor informacional, que compõe a nova morfologia do trabalho no Brasil.

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Programa Palavra de Especialista - Rádio Câmara
Data: 2010-03-17
Autor: Alexandre Pôrto
Comentário Boitempo:
Título: Conheça os infoproletários
Matéria:
Por que cerca de um milhão de trabalhadores no Brasil atuam cercados de novas tecnologias mas ainda enfrentam condições de trabalho do início do século passado? O programa Palavra de Especialista desta quarta-feira entrevista o sociólogo Ricardo Antunes, um dos organizadores do livro Infoproletários - Degradação Real do Trabalho Virtual. Ele explica por que trabalhadores de call centers e operadores de telemarketing são o símbolo mais perfeito do chamado "infoproletariado", que inclui também quem trabalha em casa usando computador. As restrições, isolamentos e pressões que enfrentam esses profissionais já causaram até onda de suicídios em empresas. O programa debate ainda a necessidade de organização dessas categorias em busca de melhores condições de trabalho. Palavra de Especialista, toda quarta-feira, às 8h30.

Parte 1 disponível neste link

Parte 2 disponível neste link

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Brasil de Fato
Data: 2010-07-16
Autor: Leandro Uchoas
Comentário Boitempo:
Título: Do outro lado da linha, o proletário
Matéria: Em ampla expansão, a categoria dos operadores de telemarketing reproduz, em novos moldes, as relações de trabalho precarizadas do passado

Nos Estados Unidos, o 4 de julho é uma data amplamente comemorada. O Dia da Independência do país é marcado por potentes marchas militares e outras celebrações. No Brasil, a data está destinada a ter pouca visibilidade e até gerar certa repulsa. É que o 4 de julho marca, no país, o Dia do Operador de Telemarketing. Em ampla expansão – cresce de 14% a 17% ao ano – a categoria é odiada por boa parte das pessoas em todo o mundo.

Tomado por chato, o operador é frequentemente maltratado pelas pessoas. O que poucos conseguem perceber é que, muitas vezes, essa é a alternativa de emprego que têm.

Surgida na carona dos avanços tecnológicos – que supostamente serviriam para melhorar a vida das pessoas –, a profissão revela indícios diversos de exploração do trabalho. Há alguns meses, foi lançado o livro Infoproletários – Degradação real do trabalho virtual. A obra foi organizada pelos sociólogos Ricardo Antunes, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e Ruy Braga, da Universidade de São Paulo (USP), e aborda o surgimento da profissão no contexto da reconfiguração do mundo do trabalho e das analogias entre a precarização do setor e a do universo industrial dos séculos XIX e XX.

A principal constatação dos estudos é a de que o operador de telemarketing, mesmo atuando no setor de serviços, é uma espécie de novo proletário. A partir do aumento do uso da tecnologia de informação e da permanência de relações de exploração do trabalho, surge um trabalhador contraditório. É moderno, mas convive com as condições de trabalho precárias do passado. “O trabalho é muito isolado – as pessoas trabalham em baias. O tempo para refeição e para ir ao banheiro é muito pequeno. E há a inexistência de tradição sindical”, afirma Ricardo.

A profissão surgiu nos anos de 1990. A partir da privatização das telecomunicações, empresas passaram a oferecer serviços por telefone. Com o tempo, as centrais de atendimento tornaram-se verdadeiros núcleos de comunicação e de verificação de satisfação de clientes. O fenômeno ocorre no mundo todo. Embora o Brasil tenha um número menor de centrais em relação a outros países – 4% do que têm os Estados Unidos –, apresenta maior índice de trabalhadores por local de trabalho – média de 1.103 por corporação, contra 172 na Alemanha. O crescimento do setor é significativo, também, em todo o mundo – no Reino Unido, avançou 250% em dez anos; na Alemanha, 100% em sete. Enquanto nos Estados Unidos 3% da população já trabalham no setor, no Brasil o índice é de 2% da população economicamente ativa com ensino superior incompleto.

Hipertaylorismo

A socióloga Selma Venco, da Unicamp e autora de um dos capítulos de Infoproletários, encontra na precarização da profissão elementos do chamado taylorismo. “São diversas características próprias do mundo industrial. Há a separação entre quem trabalha e quem planeja, a obediência a um tempo médio, o controle massivo da produtividade através da própria tecnologia. Mas há elementos novos, como a capacidade de pressão do cliente. Já não é mais só a máquina e o chefe”, diz. Escudado pela distância promovida pelo telefone, e com o poder de desejar e reclamar, o cliente seria elevado a uma “condição de rei”.

Alguns estudiosos criaram o conceito de hipertaylorismo à medida que as novas tecnologias permitem controle da produtividade dos operadores em tempo real. Segundo os dados, os trabalhadores do telemarketing não têm o tempo de preparação adequado. O treinamento, que deveria durar cerca de quatro meses, costuma ser oferecido por um período que varia de uma semana a um mês. O resultado é a incapacidade de cumprir as rigorosas metas que são estabelecidas. Em média, nos primeiros quatro meses, há um enorme desgaste do trabalhador, pela cobrança excessiva, pela ausência de resultados e pela individualização do fracasso. Depois, por aproximadamente dez meses ocorre uma relativa satisfação do trabalhador, porque ele passa a conseguir desempenhar seu papel. Após esse tempo, vem o período chamado de “rotinização”. O trabalhador passa a sofrer com o monitoramento constante, a incapacidade de progredir e as doenças que invariavelmente aparecem (LER, tendinite, surdez precoce, afetação nas cordas vocais, entre outras).

Mas o operador fica, de certa forma, preso ao emprego. “Num mercado como o brasileiro, em que dois em cada três postos pagam menos de dois salários mínimos, ele não tem para onde ir. Torna-se um operador ‘lateralizado’. Muda de emprego sem mudar sua forma de atuação”, diz Ruy Braga, que na última década se especializa no estudo do setor. Em poucos meses, o trabalhador considera sua atividade insuportável – e por vezes antiética –, mas não tem como sair. “O telemarketing resume as relações de trabalho nos anos 2000. Exemplos disso são o fechamento de postos, o aumento do setor de serviços e a precarização”, completa Ruy.

Home office

Outro questionamento trazido pelos pesquisadores diz respeito à suposta vantagem do “home office”. A capacidade que as novas tecnologias têm de permitir que se trabalhe em casa é, em geral, considerada positiva. As pessoas tendem a louvar a possibilidade de planejar seu horário e trabalhar perto da família. Entretanto, Ricardo Antunes denuncia a precarização embutida nesse processo. “Esse é o melhor dos mundos para o capital. Ele se desobriga de fornecer espaço ao trabalhador, de pagar custos, de arcar com as demandas de saúde. E, ao trabalhar em casa, a pessoa perde o controle da carga horária: o público e o privado se misturam. A jornada termina por se estender”, avalia.

Os dados do livro são peremptórios. O aclamado avanço tecnológico não tem gerado benefícios sociais e a exploração do trabalho segue, revestida por novos formatos. “O avanço tecnológico está a serviço das relações de exploração e da busca por lucro”, avalia Ruy. Ricardo concorda. “A tecnologia tal como conhecemos é plasmada por relações sociais de produção capitalista. Tem a cara, a forma e o conteúdo do capital. É moldada para a valorização do lucro.” Segundo ele, uma sociedade que não se deixe escravizar pelo produtivismo poderia usar a tecnologia para trabalhar apenas três horas por dia, quatro dias por semana.

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Brasil de Fato
Data: 2010-07-16
Autor: Leandro Uchoas
Comentário Boitempo:
Título: Profissão das minorias
Matéria: Entre os operadores de telemarketing, predominam jovens, mulheres, negros e homossexuais

As pesquisas relacionadas ao setor de telemarketing revelam dados inquietantes. Entre os operadores, há uma predominância massiva de jovens e de mulheres. Além disso, o índice de negros, obesos, homossexuais, transexuais e deficientes físicos é acima da média em outras categorias. Enquanto empresários do setor louvam tal perfil, afirmando que o setor seria mais “democrático”, os estudiosos não são tão otimistas. As causas da constatação revelariam distúrbios sociais, além de novos indícios de precarização do trabalho. O motivo principal do predomínio de setores sociais marginalizados seria a invisibilidade permitida aos operadores.

Do outro lado da linha, os potenciais clientes não percebem se o trabalhador é negro, homossexual ou obeso. E, por não encontrarem oportunidade em carreiras mais valorizadas, esses setores terminam por se contentar com o telemarketing. Como não existe uma perspectiva de carreira, eles estão condenados a permanecer na função. Transexuais afirmaram, em entrevista para a pesquisa, que se não puderem trabalhar nos setores que tradicionalmente os emprega – moda, por exemplo – eles não têm tantas opções.

O predomínio de jovens entre os operadores é fácil de se explicar – a profissão não exige grandes qualificações. Porém, o dado que mais impressiona é a presença de mulheres. Segundo estudos, de 76% a 85% dos trabalhadores são do gênero feminino. Segundo a socióloga Selma Venco, isso se dá por conta “de uma construção social histórica sobre a presença da mulher no trabalho”. Consideradas mais dóceis e delicadas, seriam mais capazes de dar tratamento adequado aos clientes. Os homens ficariam com o cargo de chefia (os dados revelam, inclusive, que homens abandonam com maior frequência a função de operador).

Para Claudia Mazzei Nogueira, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), não há uma predominância das mulheres apenas nesse setor. Todas as profissões com jornada parcial demandariam trabalho feminino. Por permitir maior tempo às tarefas domésticas, as carreiras seriam ideais às mulheres. “E a própria mulher legitima essa situação. Ela acha satisfatório, porque pode cuidar dos filhos”, lamenta. A predominância de homossexuais também teria relação com o jeito dócil de tratar o cliente.

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Núcleo Piratininga de Comunicação
Data: 2010-07-15
Autor: Redação
Comentário Boitempo:
Título: Livro aborda degradação do trabalho na era tecnológica
Matéria: O livro Infoproletários, degradação real do trabalho virtual (Boitempo) trata da relação entre o uso de novas tecnologias e a imposição de condições de trabalho do século XIX no setor informacional. Na contramão do otimismo em relação a esse novo segmento, a obra mostra que os trabalhadores, ainda hoje, vivenciam uma tendência crescente de alienação do trabalho em escala global.

A obra mostra que a tecnologia não aliviou a precarização do trabalho, mas a transformou. A classe trabalhadora é retratada em duas representações: de um lado os operadores de telemarketing e, do outro, os programadores de software.

Segundo Michel Burawoy, o livro revela a experiência cotidiana vivida por essa nova classe trabalhadora globalizada. Para ele, "a obra aponta para a profunda transformação sofrida pela classe trabalhadora e o projeto de movimento internacional operário, ante os parâmetros verificados por Karl Marx em seu tempo. Apenas a articulação entre múltiplas identidades - de gênero, de nacionalidade, de raça, assim como de classe - lhes permitirá se rebelar contra o mercado e desafiar o capital global. Mas, mesmo assim, apenas em um grau limitado e de uma forma fragmentária".

Os organizadores do conjunto de ensaios e artigos são os sociólogos Ricardo Antunes e Ruy Braga.

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Porto Gente
Data: 2010-07-27
Autor: Claudia Santiago
Comentário Boitempo:
Título: Telemarketing: uma profissão que pode matar
Matéria: Todo mundo já recebeu um telefonema às 21 horas de um final de domingo oferecendo qualquer mercadoria ou serviço pelo qual não tem o mínimo interesse. A primeira atitude é se irritar e xingar o outro lado da linha. Mas, poucos sabem que o telemarketing é extremamente estressante para o infeliz ou a infeliz que nele trabalha. É uma máquina do grande sistema do comércio que, além do transtorno que gera às vítimas dos amaldiçoados telefonemas, faz outras vítimas muito mais fatais: os trabalhadores no serviço de telemarketing.

A remuneração da imensa maioria é de um miserável salário mínimo. O piso profissional, quando existe, é alguns tostões acima do mínimo. Mas o pior está por vir. As condições de trabalho são parecidas com aquelas do início da Revolução Industrial, no começo do século XIX. Só para ter uma idéia: em muitas empresas não há como ir ao banheiro. É preciso esperar que um coringa, que quase nunca aparece, se digne a passar por perto para que, então, se tenha este direito.

Por trabalharem em ritmo alucinante, estão sujeitos à LER. O nível de tensão por ter que responder o mais rápido possível a um cliente irritado e impaciente é enorme. E a cadeira contrária a qualquer norma ergonômica, na qual são condenados a ficar presos por longas seis horas, dentro de uma baia? E como ficam a voz, a garganta, as cordas vocais e os ouvidos? De acordo com médicos ouvidos pelos sindicatos de trabalhadores, em dois anos, o trabalhador vira um trapo. Sua saúde está condenada e nunca mais terá uma vida saudável.

Agora, há uma pergunta inevitável a ser feita e respondida. Há alguma necessidade desta atividade produtiva ser assim? Não dá para contornar e superar estas situações que destroem vidas e sonhos de milhares de jovens? Estes trabalhadores e trabalhadoras no Brasil, hoje, já beiram os dois milhões. Para ser mais exatos: são um milhão e oitocentos mil.

As informações contidas nesta coluna foram fornecidas pelos Sindicatos de Telefônicos do Distrito Federal e do Rio Grande do Sul. Para ler mais sobre o assunto, leia o livro Infoproletários – Degradação real do trabalho virtual, organizado por Ricardo Antunes (Unicamp) e Ruy Braga (USP); e o artigo de Leandro Uchoas para o Brasil de Fato.

* Claudia Santiago é jornalista sindical há mais de 20 anos. Autora do livro “Comunicação Sindical: a arte de falar para milhões” e do caderno “Como fazer análise de conjuntura”. É editora do BoletimNPC e do jornal carioca Vozes das Comunidades. E-mail: santiagoclaudia@terra.com.br
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Sinsesp
Data: 2010-07-25
Autor: Paulo Eduardo Alves Camargo-Cruz
Comentário Boitempo:
Título: Novos proletários no mundo virtual
Matéria: Lançado pela Boitempo Editorial no final do ano de 2009, o livro “INFOPROLETÀRIOS - degradação real do trabalho virtual”, se insere na categoria dos livros que - no campo da sociologia do trabalho – vem para desnudar as condições e as relações de trabalho do setor de telemarketing e demonstrar o modo como a exploração dos trabalhadores sobrevive. Os artigos reunidos no livro expõem a subjetividade que é intrínseca ao setor, um dos quais a sociedade - levada por um senso comum - dirige severas críticas.

O setor de telemarketing é um dos que mais crescem nos indicadores do mercado de trabalho e é atualmente o principal responsável pelas contratações dos jovens registradas em nossos dias (e por que não mencionar também das comunicações por acidente de trabalho – CAT). O livro, organizado pelos professores Ricardo Antunes e Ruy Braga, respectivamente da Unicamp e da USP, aborda em seus 11 capítulos especificidades deste ramo laboral e indica os efeitos que a reestruturação produtiva do capital – ainda em curso – produziu, de forma quantitativa e qualitativamente, na exploração do trabalho ao trazer novos elementos para o debate e expor os trabalhadores do setor a um novo formato de exploração, mais “sofisticada”, por assim dizer.

Na leitura de seus capítulos podemos apreender dados e informações que levam a um melhor painel do setor e de seus trabalhadores; com freqüência toma-se conhecimento da situação aviltante sofrida pelos trabalhadores e trabalhadoras das centrais de teleatividades. A pressão na atividade (maior agilidade nos atendimentos, principalmente) é analisada no artigo de Ruy Braga e se apresenta como o aspecto que mais impressiona, pois além de estar atada a um melhor rendimento salarial é um dos fatores que causam a tendência, nas palavras do autor, a transformar o trabalhador em um “autômato inquieto”, um robô que executa ações pré-determinadas à custa de lesões, precarização das relações laborais e perda da auto-estima. Não deixamos de notar que é comum o uso no setor de teleatividades de uma terminologia eivada de estrangeirismos, e que culmina com o agressivo termo “baia” denominando o local onde os operadores efetuam os atendimentos e/ou ligações

Segundo Michel Burawoy, inclusive novo presidente da International Sociological Association – ISA, sociólogo que assina a orelha do livro, ”a obra aponta para a profunda transformação sofrida pela classe trabalhadora e o projeto de movimento internacional operário, ante os parâmetros verificados por Karl Marx em seu tempo. Apenas a articulação entre múltiplas identidades – de gênero, de nacionalidade, de raça, assim como de classe – forjadas em terrenos políticos que transcendam a produção imediata lhes permitirá se rebelar contra o mercado e desafiar o capital global – mas, mesmo assim, apenas em um grau limitado e de uma forma fragmentária. Essa é certamente a mensagem deste livro – que revela a experiência cotidiana vivida por essa nova classe trabalhadora globalizada ligada aos serviços”.

O setor de teleatividades guarda semelhança com a situação que os bancários tinham na década de 1980. Qual seja: Ser o primeiro emprego, ocupado em sua maior parte por estudantes que, tão logo formados, saíam dos bancos para trabalhar em – principalmente - administração e advocacia ou optavam por uma carreira nestes bancos, que poderia ser sólida e estável. As diferenças no trabalho desde aquela época para hoje é avassaladora. O Brasil mudou e o setor de teleatividades é formado pelos trabalhadores que, em tempos de crise econômica, depressão e desemprego, vão ocupar postos de trabalho onde existe demanda, acarretando uma profunda mudança de perfil no mundo do trabalho no Brasil, que poucos perceberam ou estão percebendo.

Paradoxalmente, os setores informacionais e de teleatividades, que incluem amplos segmentos caracterizados pelo uso intensivo de novas tecnologias, como as telecomunicações e a informática, são considerados os mais dinâmicos e arrojados da economia contemporânea. No entanto, as condições de trabalho encontradas nessas áreas podem ser tão precárias como as dos operários do século 19, retratadas por Friedrich Engels, no relançado “A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra”, pela mesma editora.

Além de pesquisadores de várias instituições brasileiras, o livro traz as contribuições de Ursula Huws – autora de um termo, ciberproletariado, que define as novas classes que trabalham com a informatização e a tecnologia -, da Universidade de Londres (Inglaterra), e Juan José Castillo, da Universidade Complutense de Madri (Espanha). O livro traz em seus ensaios ótimos caminhos para uma maior reflexão e aprofundamento nos estudos sobre esta classe trabalhadora que emerge em nosso país atingindo patamares crescentes nos níveis dos mercados de trabalho. Paralelamente, serve como um painel para que se possa abrir os olhos para a condição laboral (e de saúde, de local de trabalho, salarial) aviltante a que são submetidos os trabalhadores do setor de teleatividades no Brasil.

* Sociólogo, diretor do Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo, mestre em Sociologia pela Unesp e servidor público.
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Sinttel Vídeos
Data: 2010-07-22
Autor: Redação
Comentário Boitempo:
Título: Lançamento do Livro Infoproletários
Matéria: Lançamento do livro "Infoproletários" de Ricardo Antunes e Ruy Braga no auditório do Sinttel-Rio. Confira reportagem em vídeo:

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Sindppd RS
Data: 2010-09-15
Autor: Raquel Casiraghi
Comentário Boitempo:
Título: Precarização no trabalho virtual do call center e da TI
Matéria: O que os trabalhadores do call center e de programação e produção de software têm em comum? Esta é uma das questões que o sociólogo Ricardo Antunes responde na entrevista a seguir, feita pelo Comunicadados On Line. Confira.



O sociólogo Ricardo Antunes (na foto) é um dos organizadores do livro “Infoproletários – degradação real do trabalho virtual”, lançado no ano passado no país. A obra é um raio-x, bastante moderno e crítico, de um dos setores da TI (Tecnologia da Informação) que mais cresce hoje no Brasil: o call center/telemarketing.

Na outra ponta do setor, estão os programadores de software, com melhores salários e mais autonomia. No entanto, o livro mostra que estes trabalhadores também são explorados e, muitos, vivem em um “ilusório empreendedorismo”.

Esta entrevista foi publicada em uma versão editada no Comunicadados impresso de Julho/Agosto. Veja a entrevista na íntegra a seguir.



Quem são os infoproletários? São um contingente crescente de trabalhadores que, em escala global, trabalham com as chamadas tecnologias de informação. São aqueles trabalhadores que estão no circuito do mercado de trabalho, vendem sua força de trabalho e têm como principal instrumental um terminal de computador, um celular ou quaisquer outros equipamentos informacionais que se encontram em grande expansão dentro do mundo do trabalho. Dois exemplos que talvez possam exprimir bem estes infoproletários: de um lado, no topo deste segmento, estão os trabalhadores da indústria de software, que participam do processo de criação de novos programas e acabam entrando no mundo produtivo de serviços. Na base, temos um contingente que cresce intensamente, no Brasil já compreende mais de um milhão de trabalhadores, que são os que atuam nos setores de telemarketing e de call center. Em geral, vivenciam condições de trabalho bastante intensas e freqüentemente precarizadas.

O que caracteriza este segmento do call center? Conseguimos constatar, primeiro, que é um trabalho que tem alta taxa de rotatividade; mais de 70% dele é composto por mulheres; tem uma intensificação do trabalho enorme, porque há um controle inclusive do tempo médio de operações - não só do número de telefonemas que são feitos e atendidos pelos trabalhadores como o tempo médio para equacionar um problema. É um trabalho que tem, por um lado, uma herança taylorista/fordista já que o trabalho é prescrito, a trabalhadora praticamente tem tudo decorado; tem um papel que diz o que ela deve responder, como deve falar, a entonação da sua voz. Ao mesmo tempo é um trabalho que sofre também os envolvimentos oriundos da chamada produção toyotista tais como todos os mecanismos são possíveis para que se tente envolver o trabalhador dentro do ideário da empresa.

Quais são os principais prejuízos aos trabalhadores? São vários também. Em primeiro lugar, o telemarketing/ call center é um emprego que tem grande procura porque não exige uma alta qualificação anterior. Para muitas trabalhadoras, o telemarketing é o primeiro emprego. Em verdade, é aquele trabalho que se procura sem ter formação específica. Mas a segunda coisa que nós constatamos também é que, após alguns meses de trabalho, o sofrimento, os adoecimentos, o desgaste são de tal intensidade que o que o trabalhador mais gostaria de fazer é sair deste trabalho. Mas aí se coloca um problema complicado que é "sair deste trabalho pra fazer o quê?". Uma outra conseqüência é que este segmento tem marcado muitos tipos de doenças que decorrem desta intensificação do trabalho. Por exemplo a perda da voz, problemas na audição, estresse em função do freqüente mal trato que as trabalhadoras recebem dos clientes - que por vezes xingam por algum desconforto em relação ao serviço que a empresa oferece. E os trabalhadores sofrem muito com isso porque às vezes os xingamentos são muito pesados. Há um tempo de trabalho intenso de seis horas que permite, em média, 15 minutos para a alimentação, o que é muito pouco. Muitas das empresas não concedem este tempo; dão os 15 minutos, mas depois prolongam a jornada de trabalho para compensar. O tempo utilizado para as trabalhadoras irem ao banheiro também é cronometrado. Outra coisa muito impressionante deste setor é que freqüentemente as trabalhadoras são separadas por “baias”, divisórias para evitar que tenham contato, conversem, que tenham algum momento de sociabilidade cujo trabalho não permite, uma vez que é um trabalho que tem que fazer e atender telefonemas e equacionar problemas num tempo médio intensificado. Não é difícil constatar que este tipo de atividade tem trazido sofrimento, adoecimento - quer corpóreo e psíquico - de muita intensidade.

Todas estas questões que expusestes, que caracterizam o setor, não infringem, de alguma forma, as leis trabalhistas? Muitas destas medidas trabalhistas acabam sendo mais ou menos infringidas, dependendo do ramo do setor. Mas é preciso entender também que as leis trabalhistas, em muitos casos são muito generosas para as empresas e muito pouco cuidadosas e zelosas das condições de trabalho. Como é uma jornada com tempo parcial de 6 horas e não de 8 horas, permite muitas vezes este tipo de cobrança aos trabalhadores. E pelo fato de que o telemarketing/ call center é um setor onde predomina uma inexistência de atuação sindical, ou muitas vezes são sindicatos com completa parceria com o patronato, isso faz com que o trabalhador isoladamente não consiga lutar. Porque se ele reivindica algo, no sentido de uma melhoria das condições e de seus direitos, ele pode ser demitido. Há sindicatos que procuram defender os direitos dos trabalhadores, mas predomina com muita freqüência nestas categorias uma inexistência ou uma relativamente débil organização sindical. Tudo isso dificulta muito a luta por um controle dos excessos do trabalho na medida em que isso geralmente é feito pela ação coletiva dos trabalhadores, que as empresas impedem que ocorra dentro do espaço do call center e por isso que estas lutas devem contar com o apoio dos sindicatos. Há vários setores de telemarketing e call center no Brasil cuja atuação sindical é completamente controlada pelas empresas, o que dificulta muito a situação dos trabalhadores.

A expansão do call center, com toda esta precarização já relatada por ti, é uma tendência no atual sistema de produção capitalista? É uma tendência sim, na medida em que o trabalho da tecnologia da informação acaba sendo um elemento muito forte da potencialização do valor. Em outras palavras, da realização ou venda de negócios, do aumento dos lucros; é o modo com que isso se expandiu. Vou dar só um exemplo. Os bancos no passado tinham muitos trabalhadores que trabalhavam nas agências. Nós entrávamos nas agências e encontrávamos os bancários, que faziam as operações. Hoje sabemos que não é mais assim. As agências têm cada vez menos bancários e cada vez mais o trabalho é de digitalização; os trabalhos de compensação são feitos por terceirizados e o call center, ou o setor que, digamos assim atende, que presta os serviços bancários, trabalha dentro dos bancos atendendo clientes se expandem intensamente. Há uma retração de trabalhadores bancários que ficam nas agências e há uma enorme expansão de trabalhadores bancários que atuam dentro dos bancos no setor de telefonia colhendo e municiando os bancos de informações. É uma espécie de trabalho invisibilizado e que as novas pesquisas, como o nosso livro, vem procurando mostrar e dar visibilidade. Este setor de call center tem se expandido intensamente. Até 5 anos atrás, ele era quase a metade disso (atualmente são mais de 1 mi de trabalhadores no Brasil), o que dá a idéia de crescimento e a intensidade, a ampliação deste setor.

Sobre os produtores de software, que estão no topo, como disseste. Existe algum tipo de preconceito deste setor em relação ao call center? Não. Como este setor, em geral, é a ponta mais bem sucedida do trabalhador da tecnologia da informação ele, ao contrário do trabalhador de call center, se julga o especialista qualificado. Mas você veja, por exemplo, que na Telecom França, nos últimos dois anos houve 25 ou mais suicídios nesta área de telecomunicações, dado a vários motivos. Por exemplo: o não-cumprimento de metas, projetos que falham, programas de privatização das empresas que disponibilizam planos de demissão voluntária, vários trabalhadores que conseguem pela Justiça voltar ao trabalho e são, digamos, ridicularizados pelas empresas. Embora, na tecnologia da informação haja o que chamei uma vez de “o mito do topo” – embora exista a ilusão de que são os trabalhadores mais bem sucedidos, com melhores salários, melhores possibilidades de crescimento na empresa as pesquisas têm mostrado que também neste segmento a exploração do trabalho é grande. Muitas vezes, a exploração do trabalhador é marcada por traços mais de trabalho intelectual, cognitivo de quem cria os softwares. E com muita freqüência estes setores apresentam também estresse, sofrimento, estranhamento que decorre da exploração do trabalho. Em geral, ele se considera diferenciado e superior ao setor de telemarketing.

Muitos funcionários do setor de TI já trabalham em casa. O que dá para vislumbrar para o futuro? Anteriormente, existiu um projeto da Telefônica da Espanha chamado de projeto-piloto Distrito C, em Madri, onde uma parte significativa destes trabalhadores não trabalhava mais em mesa; eles trabalhavam onde queriam dentro da empresa, circulavam dentro da empresa. Estavam com um netbook e um celular, estes eram os seus instrumentais básicos de trabalho. Podiam trabalhar onde quisessem. E há várias empresas, que sabemos, que utilizam o “home office”, o trabalho assalariado dentro das casas. Evidente que isso, para as empresas, é o melhor dos mundos. Porque pelo sistema de metas, a produção deste trabalhador é medida e controlada rigidamente, ele tem que cumprir a meta. Segundo que, em sua casa, ele trabalha manhã, tarde, noite, madrugada; se trabalha todo o tempo. Terceiro que, ao trabalhar em casa, muitos deles constituem PJ (Pessoa Jurídica), ou seja, não têm um contrato de trabalho que segue regras coletivas. Se o trabalhador adoece, é um problema dele e não é da empresa. Quarto, que é praticamente impossível uma organização coletiva de trabalhadores que trabalham isoladamente cada um por si. Este é o melhor dos mundos para o capital porque não há aquele espaço de sociabilidade, de coletividade, que propicia, que ajuda, que solda o trabalho coletivo. Cada um está em sua casa isolado dos outros. Este é um problema grande para os trabalhadores. Claro que eu compreendo que para muitos trabalhadores estar em casa é melhor do que trabalhar numa empresa por exemplo. Você pode imaginar que não perde uma, duas horas para ir ao trabalho e outra uma, duas horas para voltar do trabalho. E isto significa até quatro horas do dia que não perde no trânsito das grandes metrópoles. Claro que o trabalhador, dentro da sua casa, pode controlar um pouco o tempo e trabalhar nas horas que quiser. Reconheço que há alguns elementos evidentes que são positivos para os trabalhadores. Mas o conjunto de elementos que são positivos para as empresas, que enfraquecem a coletividade do trabalho, são muito maiores e prejudicam, em última instância, os trabalhadores.

Como é que os sindicatos que representam setores da TI podem se preparar para esta nova realidade? Evidente que não há uma receita porque toda categoria nova herda experiência de organização do passado, mas tem elementos novos. Por exemplo, a trabalhadora de telemarketing/call center não exerce a mesma atividade que a antiga telefonista. É evidente que os sindicatos que tiveram experiência nos setor de telefonia no passado, de telefonia pública, e que estão comprometidos com os trabalhadores, devem fazer um esforço para conseguir compreender esta nova morfologia do trabalho, esta nova forma de ser deste trabalhador. Esta é uma parte importante do proletariado de serviços; é uma parte importante da classe trabalhadora no Brasil e nas grandes capitais e no mundo. Hoje você pede uma informação na Inglaterra, por exemplo, sobre o sistema de trens de uma estação que está a duas, três quadras de onde está falando e este telefone é atendido na Índia por um indiano que responde como se fosse um funcionário da empresa de trem que estivesse a duas quadras da casa do cidadão. Isso obriga os sindicatos a compreenderem quem são esses trabalhadores. A compreenderem que este ramo de trabalho, o telemarketing/ call center, é crescentemente global então é preciso muitas experiências entre sindicatos de vários países. Eles têm que ter uma conexão, uma articulação conjunta porque as empresas geralmente têm. Terceirizadas das grandes companhias atuam em várias partes do mundo e elas sabem como fazer isso. O sindicato também tem que se articular com os sindicatos de outros países para que as respostas possam ser conjuntas. E é preciso também que haja o sentimento da base dos trabalhadores deste ramo, que eles também percebam como nasce um sindicato: da organização de base dos trabalhadores. Mas assim como várias categorias foram criadas ao longo do século 20, aos poucos foram organizando formas de luta e de resistência, também penso que o telemarketing/ call center, embora seja uma categoria recente, já possui algumas experiências e tentativas de avançar na organização de base dentro da representação e entre os trabalhadores.

veja mais em: http://www.sindppd-rs.org.br/destaques/1533-destaque-4
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Ligação Direta em Revista
Data: 2010-12-20
Autor: Redação
Comentário Boitempo:
Título: A precarização no trabalho virtual do call Center e da TI.
Matéria: A Editora Boitempo se consagra como uma das melhores editoras da atualidade. “Infoproletários – degradação real no trabalho virtual” é mais uma dessas obras duras e importantes pela franqueza com que aborda de forma tão competente um tema tão presente e dinâmico na nossa vida moderna, que é o trabalho virtual. Os autores são os professores de sociologia Ricardo Antunes (Unicamp) e Ruy Braga (USP).

Infoproletários evidencia a associação oculta entre o uso de novas tecnologias e a imposição de condições de trabalho do século XIX, em um dos setores considerados como dos mais dinâmicos da economia moderna, o informacional. Ao contrário do que é prometido pelos entusiastas deste novo segmento, os trabalhadores vivenciam uma tendência crescente de alienação do trabalho em escala global.

Aborda diferentes aspectos da rotina e do modo de vida daqueles que, apesar de frequentemente arruinarem suas vozes ao transformá-las em poderosos instrumentos de acumulação de capital, raramente são ouvidos.

A classe trabalhadora é retratada neste livro em duas representações polarizadas. De um lado, aparecem os operadores de telemarketing. Globalizados em sua relação social, totalizados em sua subordinação, monitorados em cada um de seus movimentos, punidos por cada infração às regras, resumem e simbolizam os novos trabalhadores atrelados ao resplandecente, porém inatingível, mundo do consumo. Sua imaginação é totalmente circunscrita e dirigida pelo capitalismo.

Já em outro extremo estão os aristocratas do cibertrabalho, os programadores de software, gabando-se e desfrutando de sua autonomia enquanto se movem em espiral pelo espaço e pelo tempo. Eles não são menos prisioneiros da própria individualidade, intoxicados por seu ilusório empreendedorismo.

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Revista Sociologia
Data: 2011-01-10
Autor: Paulo Eduardo Alves Camargo-Cruz
Comentário Boitempo:
Título: Trabalho no mundo virtual
Matéria: A "degradação real do trabalho virtual" descrito no livro Infoproletários

Lançado pela Boitempo Editorial no final do ano de 2009, o livro Infoproletários – degradação real do trabalho virtual, insere se na categoria dos livros que – no campo da sociologia do trabalho – vem para desnudar as condições e as relações de trabalho do setor de telemarketing e demonstrar o modo como a exploração dos trabalhadores sobrevive. Os artigos reunidos no livro expõem a subjetividade que é intrínseca ao setor, um dos quais a sociedade – levada por um senso comum – dirige severas críticas.

O setor de telemarketing é um dos que mais crescem nos indicadores do mercado de trabalho e é atualmente o principal responsável pelas contratações dos jovens registrados em nossos dias (e por que não mencionar também das comunicações por acidente de trabalho – CAT). O livro, organizado pelos professores Ricardo Antunes e Ruy Braga, respectivamente da Unicamp e da USP, aborda em seus 11 capítulos especificidades desse ramo laboral e indica os efeitos que a reestruturação produtiva do capital – ainda em curso – produziu, de forma quantitativa e qualitativa, na exploração do trabalho ao trazer novos elementos para o debate e expor os trabalhadores do setor a um novo formato de exploração, mais “sofisticada”, por assim dizer.

Na leitura de seus capítulos podemos apreender dados e informações que levam a um melhor painel do setor e de seus trabalhadores; com frequência toma-se conhecimento da situação aviltante sofrida pelos trabalhadores das centrais de teleatividades. A pressão na atividade (maior agilidade nos atendimentos, principalmente) é analisada no artigo de Ruy Braga e se apresenta como o aspecto que mais impressiona, pois além de estar atada a um melhor rendimento salarial, é um dos fatores que causam a tendência, nas palavras do autor, a transformar o trabalhador em um “autômato inquieto”, um robô que executa ações pré-determinadas à custa de lesões, precarização das relações laborais e perda da autoestima. Não deixamos de notar que é comum o uso no setor de teleatividades de uma terminologia eivada de estrangeirismos, e que culmina com o agressivo termo “baia” denominando o local onde os operadores efetuam os atendimentos e/ou ligações.

TRABALHO E NOVAS TECNOLOGIAS

Segundo Michel Burawoy, inclusive novo presidente da International Sociological Association – ISA, sociólogo que assina a orelha do livro, “a obra aponta para a profunda transformação sofrida pela classe trabalhadora e o projeto de movimento internacional operário, ante os parâmetros verificados por Karl Marx em seu tempo. Apenas a articulação entre múltiplas identidades – de gênero, de nacionalidade, de raça, assim como de classe – forjadas em terrenos políticos que transcendam a produção imediata lhes permitirá se rebelar contra o mercado e desafiar o capital global – mas, mesmo assim, apenas em um grau limitado e de uma forma fragmentária. Essa é certamente a mensagem deste livro – que revela a experiência cotidiana vivida por essa nova classe trabalhadora globalizada ligada aos serviços”.

O setor de teleatividades guarda semelhança com a situação que os bancários tinham na década de 1980. Qual seja: ser o primeiro emprego, ocupado em sua maior parte por estudantes que, tão logo formados, saíam dos bancos para trabalhar em – principalmente – administração e advocacia ou optavam por uma carreira nestes bancos, que poderia ser sólida e estável. As diferenças no trabalho desde aquela época para hoje é avassaladora. O Brasil mudou e o setor de teleatividades é formado pelos trabalhadores que, em tempos de crise econômica, depressão e desemprego, vão ocupar postos de trabalho onde existe demanda, acarretando uma profunda mudança de perfil no mundo do trabalho no Brasil, que poucos perceberam ou estão percebendo.

Paradoxalmente, os setores informacionais e de teleatividades, que incluem amplos segmentos caracterizados pelo uso intensivo de novas tecnologias, como as telecomunicações e a informática, são considerados os mais dinâmicos e arrojados da economia contemporânea. No entanto, as condições de trabalho encontradas nessas áreas podem ser tão precárias como as dos operários do século 19, retratadas por Friedrich Engels, no relançado A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra, pela mesma editora.

Além de pesquisadores de várias instituições brasileiras, o livro traz as contribuições de Ursula Huws – autora de um termo, ciberproletariado, que define as novas classes que trabalham com a informatização e a tecnologia –, da Universidade de Londres, e Juan José Castillo, que analisa o surgimento de uma “casta” entre os que trabalham com tecnologia da informação – a dos programadores e analistas – da Universidade Complutense de Madri. O livro traz em seus ensaios ótimos caminhos para uma maior reflexão e aprofundamento nos estudos sobre essa classe trabalhadora que emerge em nosso país, atingindo patamares crescentes nos níveis dos mercados de trabalho. Paralelamente, serve como um painel para que se possa abrir os olhos para a condição laboral (e de saúde, de local de trabalho, salarial) aviltante a que são submetidos os trabalhadores do setor de teleatividades no Brasil.
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: O Povo
Data: 2011-12-01
Autor: Érico Firmo
Comentário Boitempo:
Título: O que une os indignados de todo o mundo
Matéria:


Da Primavera Árabe a Wall Street, com passagem pelos indignados europeus, os levantes londrinos e os estudantes chilenos, diferentes motivos e circunstâncias levaram à onda de manifestações pelo globo. Há mais diferenças que semelhanças, mas pelo menos um traço crucial os movimentos possuem em comum: o sujeito coletivo. Em todos esses lugares, os protagonistas das mobilizações são jovens. Uma juventude precarizada, por um lado, pelas relações de trabalho. Por outro, pela opressão política dos Estados nacionais, pela deterioração dos serviços públicos e pela retirada de direitos, na esteira da contenção de gastos.

Do ponto de vista desse sujeito coletivo comum - o jovem - o momento atual guarda semelhanças com o maio de 68, apontou Ruy Braga, professor de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP) e um dos organizadores do livro Infoproletários: degradação real do trabalho virtual(Boitempo, 2009), em conversa com a coluna. Mas ele salienta que há uma diferença crucial. Aquela era época de expansão econômica. Agora, o período é de crise prolongada, o que acrescenta elemento explosivo ao atual caldeirão. Ruy participa hoje do debate “Ocupar o mundo”, em São Paulo, promovido pela Boitempo Editorial. Ao lado do sociólogo Francisco de Oliveira, do economista Paul Singer, entre outros, ele discutirá os rumos da atual crise do capitalismo.

A NOVA FORMA DE COMBATE

Ruy Braga destaca que a atual onda de levantes representa o amadurecimento das formas de protesto. Desde a década de 90, os grandes atos, em particular os anticapitalistas, tinham como alvo os grandes eventos, como reuniões do Banco Mundial, do G7 ou da Organização Mundial do Comércio. Era relativamente fácil mantê-los sobre controle. Mas os movimentos aprenderam que é muito mais difícil para os poderes estabelecidos lidar com contramovimentos que se apóiam na ocupação política e simbólica de espaços públicos.

INDIGNADOS BRASILEIROS EM FORMATOS TRADICIONAIS No Brasil, os protestos organizados a partir das redes sociais são ainda embrionários. A maior sintonia com movimentos no mundo inteiro vem de formas e setores tradicionais. Tais manifestações de descontentamento puderam ser vistas nas greves em obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), no começo do ano, nas greves de professores praticamente no Brasil inteiro, nas paralisações dos bancários, dos Correios e muitas outras. “Aqui o ritmo é outro, a crise é outra”, aponta Ruy Braga.

Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Revista Sociologia
Data: 2011-12-30
Autor: Lejeune Mato Grosso de Carvalho
Comentário Boitempo:
Título: Sociologia do trabalho
Matéria:


O sociólogo Ricardo Antunes se destaca por suas pesquisas sobre as condições dos trabalhadores e as dimensões da reestruturação produtiva no capitalismo global

A entrevista, elaborada com a cooperação do colega sociólogo Sérgio Sanandaj Mattos, também colaborador desta publicação, é com um dos mais renomados sociólogos brasileiros, Ricardo Antunes, especialista em Sociologia do Trabalho, professor titular de Sociologia no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Foi visiting research fellow na Universidade de Sussex, Inglaterra. Fez concurso para livre-docência em 1994 no IFCH da Unicamp, em Sociologia do Trabalho e para titular no ano 2000. Fez mestrado em Ciência Política na Unicamp em 1980 e doutorado em Sociologia, pela Universidade de São Paulo (USP) em 1986. Recebeu o prêmio Zeferino Vaz da Unicamp (2003) e a Cátedra Florestan Fernandes da CLACSO em 2002. É pesquisador do CNPq. Autor de uma vasta obra, na qual se destacam Adeus ao trabalho? (Editora Cortez); Os sentidos do trabalho (Editora Boitempo); O novo sindicalismo no Brasil (Editora Pontes). Atualmente coordena as coleções Mundo do Trabalho, pela Boitempo Editorial, e "Trabalho e Emancipação", pela Editora Expressão Popular. Colabora regularmente em revistas no exterior e no Brasil. Em outubro de 2011 lançou também pela Boitempo o livro O continente do labor.

Você tem discutido as mudanças no mundo do trabalho. Frequentemente se refere, entre outros aspectos, à precarização e à diversificação da força de trabalho. Comente as rápidas transformações e seus consequentes efeitos na dinâmica social.

Ricardo Antunes - As formas atuais de valorização do capital trazem embutidos novos modos de geração da mais valia (quer sob a forma absoluta e/ou relativa), ao mesmo tempo em que expulsam da produção uma infinitude de trabalhos que se tornam sobrantes, descartáveis e cuja função passa a ser a de expandir o bolsão de desempregados, deprimindo ainda mais a remuneração da força de trabalho, pela via da retração do valor necessário à sobrevivência dos trabalhadores e das trabalhadoras. Em plena eclosão da mais recente crise global, este quadro se amplia ainda mais e nos faz presenciar uma corrosão ainda maior do trabalho contratado e regulamentado, de que são exemplos os trabalhos terceirizados (com sua enorme gama e variedade), tais como o "falso cooperativismo", o "empreendedorismo", o "trabalho voluntário", que é de fato compulsório, pois quem não o faz não mais encontra emprego etc.

Estas modalidades de trabalho aumentam as formas geradoras do valor (ainda que sob a aparência do não valor), aumentando novos e velhos mecanismos de intensificação e de exploração do trabalho. Como, entretanto, o capital não pode valorizar-se, isto é, gerar mais-valor, sem realizar alguma forma de interação entre trabalho vivo e trabalho morto (máquinas e equipamentos), ele busca incessantemente o aumento da produtividade do trabalho, ampliando os mecanismos de extração do sobretrabalho em tempo cada vez menor, através da ampliação do trabalho morto corporificado no maquinário tecnocientífico-informacional. Isso sem mencionar, também, a crescente importância dos trabalhos de tecnologias de informação e comunicação no processo de valorização do capital.

Similar é o caso do "empreendedorismo", que cada vez mais se configura como forma oculta de trabalho assalariado e que permite o proliferar das distintas formas de flexibilização salarial, de horário, funcional ou organizativa.

Modalidades de trabalho »

Estamos vivenciando a erosão do trabalho contratado e regulamentado, dominante no século XX, e vendo sua substituição pelas diversas formas de trabalho precarizado. O exemplo das cooperativas talvez seja mais esclarecedor. Em sua origem, elas nasceram como instrumentos de luta operária contra o desemprego, o fechamento das fábricas, o despotismo do trabalho etc. Hoje, entretanto, contrariamente a essa autêntica motivação original, os capitais criam "falsas cooperativas" como instrumental importante para depauperar ainda mais as condições de remuneração da força de trabalho e aumentar os níveis de sua exploração, fazendo erodir ainda mais os seus direitos.

É neste quadro, caracterizado por um processo tendencial de precarização estrutural do trabalho, em amplitude ainda maior, que os capitais globais estão exigindo também o desmonte da legislação social protetora do trabalho. E flexibilizar a legislação social do trabalho significa aumentar ainda mais os mecanismos de extração do sobretrabalho, ampliar as formas de precarização e destruição dos direitos sociais que foram arduamente conquistados pela classe trabalhadora, desde o início da Revolução Industrial, na Inglaterra. Desse modo, individualização, informalidade, terceirização, precarização, mercadorização do trabalho informacional são tendências centrais no mundo do trabalho hoje, e todas elas trazem embutidas uma tendência precarizante.

No seu livro Adeus ao Trabalho? Ensaio Sobre as Metamorfoses e a Centralidade do Mundo do Trabalho, você trata em um dos capítulos da crise contemporânea dos sindicatos, da crescente redução das taxas de sindicalização e das dificuldades de representação dos sindicatos. Que repercussões as mudanças do mundo do trabalho estão provocando nos sindicatos?

Ricardo Antunes - As repercussões são profundas. Estamos presenciando os limites profundos do sindicalismo vertical, oriundo da fábrica taylorista e fordista, em decorrência do nascimento e expansão da fábrica flexibilizada e informatizada da era da acumulação flexível, que desconcentra o espaço físico produtivo e procura sistematicamente destruir os laços de pertencimento de classe dos trabalhadores. É imperioso hoje avançar na direção de um sindicalismo mais horizontalizado, menos prisioneiro de uma visão categorial e em direção a um sentido mais classista.

Um sindicalismo que deve aglutinar e organizar o conjunto dos trabalhadores/as. A fragmentação, heterogeneização e complexificação da classe trabalhadora questionam também o próprio fundamento do sindicalismo tradicional do século XX e tolhem a capacidade de organização sindical de vários contingentes que compreendem o mundo do trabalho.

A nova morfologia do trabalho não poderia deixar de afetar os organismos de representação dos trabalhadores. Se a indústria taylorista e fordista é, enquanto tendência, não mais dominante como no passado recente, um sindicalismo verticalizado não pode mais representar esse novo e compósito mundo do trabalho, que deve caminhar em direção a um sindicalismo mais horizontalizado e de base.

Tenho defendido uma tese polêmica para a esquerda: devemos reconhecer que há um processo de des-hierarquização dos organismos de classe. O mais importante hoje (seja um movimento social, um sindicato ou mesmo um partido) é apreender as questões vitais, as raízes das mazelas e engrenagens sociais do capital.

Classe trabalhadora »

é uma condição de particularidade, um modo de ser com claros, intrínsecos e inelimináveis elementos relacionais de objetividade e subjetividade. Isto é, para falar de classe trabalhadora é preciso referir-se aos seus valores políticos, ideários, ideologia, pertencimento e consciência de classe etc. É por isso que considero que a classe trabalhadora tem papel fundamental na luta política entre as classes. É na materialidade mesma do sistema e na sua potencialidade subjetiva que seu papel se torna central. Assim, em sentido amplo, incorpora a totalidade daqueles/as que vendem sua força de trabalho em troca de salário, tanto no mundo industrial, nos serviços e no campo, como o proletariado rural que vende a sua força de trabalho para o capital, os chamados boias-frias das regiões agroindustriais do Brasil do etanol; incorpora também o proletariado precarizado, fabril e de serviços, part time, que se caracteriza pelo vínculo de trabalho temporário, pelo trabalho precarizado, em expansão na totalidade do mundo do capital. Inclui também - e isso é decisivo hoje - a totalidade dos trabalhadores desempregados.

Limites profundos do sindicalismo »

A intensificação do neocorporativismo sindical procura preservar os interesses da parcela mais "estável" da categoria à qual se vincula o sindicato, desconsiderando os segmentos que compreendem o trabalho precário, terceirizado, parcial, o proletariado fabril e de serviços. Os sindicatos devem urgentemente procurar novas formas de estruturação e organização que incorporem amplos e diferenciados setores que hoje compreendem o conjunto da classe trabalhadora.

No livro O Caracol e sua Concha: Ensaios sobre a nova morfologia do trabalho, você dá continuidade às suas reflexões sobre o mundo do trabalho, registradas em outros livros. Em um cenário de competição global, do conhecimento e informação, trabalho material e imaterial são fenômenos distintos?

Ricardo Antunes - São todos eles, em suas especificidades, parte do trabalho social, complexo e combinado que gera valor, mais-valia e valoriza o capital. Ao contrário das formulações desconstrutoras do trabalho, essas novas modalidades (incluindo o chamado trabalho imaterial, que não produz um bem diretamente material) são expressões do trabalho vivo, participantes da cadeia geradora de valor e do processo de valorização do capital. Como pude desenvolver no meu livro Os sentidos do trabalho (Boitempo), ciência e trabalho mesclam-se ainda mais diretamente no mundo da produção e dele fazem parte, tanto a forma dominante do trabalho material como a modalidade tendencial do trabalho imaterial.

O maquinário informacional-digital avançado existente hoje é resultado da interação ativa entre o saber intelectual do trabalho que atua junto à máquina informatizada, uma vez que são "órgãos do cérebro humano logrado pelas mãos humanas", conforme a caracterização de Marx nos Grundrisse, dando novas dimensões e configurações à teoria do valor, que articula, portanto, tanto trabalho material como imaterial, ambos imprescindíveis para a criação de mais-valia e que são parte constitutiva do trabalho social, complexo e combinado existente em escala global.

Assim, ao contrário dos que negam a teoria do valor, a forma imaterial do trabalho e da produção não leva à negação da lei do valor, mas, ao contrário, agrega coágulos de trabalho vivo na lógica da acumulação de capital em sua materialidade, inserindo-os no tempo social médio necessário para a produção de mercadorias. E os capitais sabem bem disso: não é outro o motivo de a Toyota, na sua unidade de Takaoka, usar esses dizeres: Yoi kangae, yoi shina ("bons pensamentos significam bons produtos").

Valorização do capital »

O capitalismo contemporâneo vem, desde o início dos anos 1970, acentuando sua lógica destrutiva, quer em relação à natureza, quer em relação ao mundo do trabalho. O padrão de acumulação capitalista, estruturado sob o binômio taylorismo e fordismo, foi bastante alterado, mesclado ou mesmo substituído pelas formas produtivas  exibilizadas e desregulamentadas, das quais a chamada acumulação  exível e o toyotismo são exemplos, e que ocorreram em plena vigência da pragmática neoliberal, privatista, desregulamentadora e  nanceirizada. A articulação entre reestruturação produtiva e neoliberalismo, as duas pontas das formas de dominação do capital hoje, teve agudas consequências no mundo do trabalho.

A despeito das inter-relações funcionais do indivíduo, da sociedade e da cultura e dos desafios e projeções da nova morfologia da classe trabalhadora, neste século XXI mais ampliada, fragmentada, heterogênea, que repercussões as mudanças do mundo do trabalho estão provocando na educação, no aprendizado prático, na empresa, em casa, em prosseguimento ao progresso tecnológico?

Ricardo Antunes - A educação taylorista-fordista foi essencialmente uma educação parcelar, hierarquizada, em que a gerência científica elaborava e os trabalhadores executavam. Ela se desenvolveu tomando a sociedade do automóvel como protótipo. A disjuntiva homo sapiens e homo faber é sua expressão típica. Consolidou-se então uma divisão clara entre as ciências exatas, as biomédicas, as humanas e, com isso, desenvolveu-se uma educação para o trabalho unilateralizado, seja nas escolas técnicas profissionalizantes, seja nas escolas superiores: as médicas, as humanas, as engenharias.

É o que recentemente denominei como sendo a pragmática da especialização fragmentada e parcelar, ou seja, uma educação moldada por uma pragmática tecnocientífica, qualificadora do mercado de trabalho gerencial, profissional etc., que conformou a chamada "sociedade do trabalho" ao longo do século XX. Com a reestruturação produtiva do capital e sua era da acumulação flexível, volátil, financeirizada e liofilizada, a educação que os ideólogos do capital hoje defendem deve ser a educação volátil, rápida, ágil e enxuta, como as empresas a concebem e a praticam, como nos exemplos das universidades corporativas, uma evidente contradição em termos, pois universidade rima com universalidade e não com corporação.

Assim, menor tempo de escolarização, ensino não presencial, "multifuncional", "polivalente" (no sentido restrito que o mercado as concebe) - estas são as concepções que dominam a chamada "educação enxuta e flexível". Trata-se, então, de outra pragmática, agora compatível com uma sociedade liofilizada e voltada estritamente para os valores do mercado restritivo e destrutivo.

Na sociologia pública há uma espécie de diálogo e conversação permanente com o marxismo. Na literatura atual, alguns sociólogos argumentam que vivemos uma época de mudanças, de legitimidades em debate e de antimarxismo. A extensão dessas concepções é uma tendência de mudança de paradigmas e da regressão das políticas sociais transformadoras?

Ricardo Antunes - A tese mais central da Sociologia Pública pode ser assim sintetizada: se o ponto de vista da economia é o mercado e sua expansão, e o ponto de vista da ciência política é o Estado e a garantia da estabilidade política, então o ponto de vista da Sociologia Pública é a sociedade civil e a defesa do social. Em tempos de tirania do mercado e de despotismo do Estado, a Sociologia - em particular sua face pública - defende os interesses da humanidade, como disse recentemente o sociólogo progressista norte-americano Burawoy. Trata-se, portanto, de uma vertente com uma formulação próxima do marxismo e contra as tendências mais conservadoras, especialmente da Sociologia norte-americana. Ela defende uma Sociologia Pública composta por sociólogos orgânicos em suas relações com os sindicatos, associações de bairro, comunidades e grupos de imigrantes, organizações de direitos humanos etc. E, ao fazer isso, se torna uma aliada dos que elaboram e praticam uma teria social de inspiração marxista.

Quanto à questão da "mudança de paradigma", tenho uma leitura bastante crítica, uma vez que esta concepção é eivada de um significado epistemologizante que cria paradigmas aos quais a realidade concreta tem que se "encaixar". Minha formação marxista de inspiração ontológica caminha em sentido inverso, visto que confere um primado à realidade concreta e ao objeto em relação ao processo de conhecimento, refutando por essa razão as teses acerca da "mudança de paradigmas".

Significado epistemologizante »

As concepções pós-modernas, que refutam as análises mais abrangentes e totalizantes, vêm se mostrando absolutamente incapazes de compreender o mundo contemporâneo em sua complexidade. Basta pensar que a mais recente crise estrutural do capital fez ressurgir o pensamento de ninguém menos que Marx e sua obra magistral O capital, sendo que os pós-modernos sequer dizem algo minimamente razoável acerca da profunda radicalidade e contundência dessa crise.

O livro Infoproletários: Degradação Real do Trabalho aborda os assalariados do trabalho precarizado do telemarketing, dos trabalhadores de call centers e do mundo virtual, assim como o impacto das novas tecnologias no mundo do trabalho, a classe trabalhadora globalizada, a alienação do trabalho em escala global. Comente esses aspectos, por favor.

Ricardo Antunes - O termo infoproletariado, conforme aparece no livro referido, organizado por Ruy Braga e por mim, onde desenvolvemos a tese de que há um novo contingente em franca expansão na classe trabalhadora, uma espécie de proletariado de serviços que compreende os trabalhadores das tecnologias de comunicação e informação, uma variedade ampliada que abarca desde os trabalhadores/as nas indústrias de software, até aqueles/as que se se empregam nas empresas de call center e telemarketing e que fazem parte do que denomino como sendo a nova morfologia do trabalho. Eles são parte do que a socióloga do trabalho inglesa Ursula Huws chamou de cybertariado ou o que, segundo nosso livro mencionado, tratamos por infoproletariado.

Com a privatização das telecomunicações e seu processo de mercadorização, intensificou-se o processo de terceirização do trabalho, ampliando a classe trabalhadora como resultado dessa mercadorização dos serviços que foram privatizados. Portanto, pensar a classe trabalhadora hoje nos obriga a compreender também esse amplo contingente de assalariados. Naturalmente, o trabalho nas tecnologias de informação tem especificidades, no que concerne às formas de reificação, estranhamento ou alienação, pois de trata se um trabalho que vivencia cotidianamente o fetiche da técnica, tendo, por isso, marcas ainda mais profundas em sua interiorização.

Na análise sociológica da tecnologia, alguns autores a despeito dos impactos sociais provocados por novas tecnologias concebem a tecnologia como algo exterior à sociedade. O que mudou na relação tecnologia e trabalho em termos de representação na análise sociológica?

Ricardo Antunes - Não concordo com a tese da transformação da ciência na principal força produtiva e muito menos de que ela seja autônoma. Esta concepção desconsidera um elemento essencial dado pela complexidade das relações entre a teoria do valor, ciência e trabalho, isto é, desconsidera que o trabalho vivo, em interação com a ciência e a tecnologia, constitui uma complexa e contraditória relação social capitalista, que tolhe e limita a expansão autônoma da ciência. Como indiquei no livro Os sentidos do trabalho, não se trata de dizer que a teoria do valor-trabalho desconhece o papel crescente da ciência no mundo produtivo, o que seria algo grotesco, mas que a ciência se encontra plasmada por relações capitalistas, está no limite, impedida em sua possibilidade de desenvolvimento autônomo, uma vez que se encontra subordinada às relações entre capital e trabalho, a qual a ciência não pode superar.

E é esta restrição estrutural, que libera e mesmo impele a expansão da ciência para o incremento último da produção de valores de troca, que impede o salto qualitativo societal para uma sociedade produtora de bens úteis segundo a lógica do tempo disponível. Por isso a ciência não pode se converter na principal força produtiva dotada de autonomia. Sendo prisioneira desta base material, menos do que uma cientificização da tecnologia de que equivocamente falou Habermas, há um processo de tecnologização da ciência, conforme indica precisamente o filósofo húngaro István Mészáros. Sendo prisioneira do solo material estruturado pelo capital, a ciência não pode tornar-se a sua principal força produtiva, mas ela interage com o trabalho, pois isso é imprescindível para participar do processo de valorização do capital.

Curiosamente, ao contrário, portanto, do admirável mundo da ciência com satisfação no trabalho, tenho afirmado que a era da informatização do trabalho, típica da fase informacional-digital, tem aumentado a época da informalização do trabalho, com o aumento da precarização enquanto límpida tendência dominante, quando se analisa o mundo do trabalho.

No artigo "Afinal, Quem é a Classe Trabalhadora Hoje?", publicado originalmente na revista Margem Esquerda, edição n.º 7, você descreve a classe trabalhadora enquanto um conjunto ampliado de trabalhadores em suas múltiplas variações ocupacionais. Nesta sociedade atual, marcada pelo desenvolvimento das forças produtivas, desenvolvimento tecnocientífico, inovações tecnológicas, automação, robótica, informática, cibernética, quem é mesmo proletário do ponto de vista marxista?

Ricardo Antunes - Sabemos que Marx e Engels consideravam classe trabalhadora, trabalhadores e proletariado como sinônimos. E mais, que na Europa de meados do século XIX os operários que inspiraram a reflexão e ação de ambos ganhavam expressão corpórea no proletariado industrial, que recebia a denominação comum ora de classe trabalhadora, ora de proletariado.

Creio, então, que nosso principal desafio teórico e político hoje é procurar entender quem é essa classe trabalhadora, esse proletariado moderno, ou o que denominei de modo abrangente como a classe-que-vive-do-trabalho. De modo sintético, pode-se afirmar que ela compreende a totalidade dos assalariados, homens e mulheres que vivem da venda da sua força de trabalho e que são despossuídos dos meios de produção, conforme a definição marxiana. Tem como núcleo central o conjunto do que Marx chamou de trabalhadores produtivos, que são produtores de mais-valia; que são pagos por capital-dinheiro; expressam uma forma de trabalho coletivo e social e que realizam tanto trabalho material quanto imaterial.

Portanto, a classe trabalhadora (ou o proletariado) hoje não se restringe somente aos trabalhadores produtivos e nem apenas aos trabalhadores manuais diretos, mas incorpora a totalidade do trabalho coletivo que vende sua força de trabalho como mercadoria em troca de salário para valorizar o capital. É a composição do conjunto de trabalhadores produtivos que produzem mais-valia e que participam do processo de valorização do capital, mas dela são parte evidente todos aqueles/as que vivem da venda da sua força de trabalho, incluindo os chamados improdutivos, os terceirizados e os desempregados. Assim, em minha opinião, a classe trabalhadora incorpora também o conjunto dos trabalhadores improdutivos, aqueles cujas formas de trabalho são utilizadas como serviços, seja para uso público, como os serviços públicos tradicionais, seja para uso capitalista.

É por isso que a classe trabalhadora hoje é mais ampla, heterogênea, complexa e fragmentada do que o proletariado industrial do século XIX e início do século XX, pois também o capitalismo tem condicionantes muito diferentes daqueles existentes em sua gênese.

Em nossa concepção ampliada estão excluídos da classe trabalhadora os gestores do capital, que são parte constitutiva da classe dominante, pelo papel central que têm no controle, hierarquia, mando e gestão do capital e de seu processo de valorização, bem como os pequenos empresários, a pequena burguesia urbana e rural que é detentora - ainda que em pequena escala - dos meios de sua produção. Por fim, estão excluídos também aqueles que vivem de juros e da especulação.

Diversos autores, dentre os quais Sérgio Prieb (O Trabalho à Beira do Abismo Uma Crítica Marxista à Tese do fim da Centralidade do Trabalho), destacam que as transformações que estão ocorrendo no mundo do trabalho, com o desenvolvimento de inovações tecnológicas, ao contrário de diminuírem o esforço dos trabalhadores, aumentam a precarização e, em consequência, a exploração. Comente os efeitos desta configuração dinâmica determinada pela natureza da sociedade atual.

Ricardo Antunes - Como pude indicar em resposta anterior, em plena era da informatização do trabalho, estamos conhecendo a época da informalização do trabalho, dos terceirizados, precarizados, subcontratados, flexibilizados, trabalhadores em tempo parcial, do subproletariado. Se, no passado recente, só marginalmente a classe trabalhadora presenciava níveis de informalidade, hoje é explosivo o índice dos que se encontram nessa condição, ou seja, dos que são desprovidos de direitos, fora da rede de proteção social e sem carteira de trabalho. Desemprego ampliado, precarização intensificada, arrocho salarial acentuado, perda de direitos, esse é o desenho mais frequente da classe trabalhadora. Mas atenção: a causa não é a tecnologia (que não tem vida própria), mas a lógica destrutiva do capital que comanda uma dada forma de tecnologia.

Dou um exemplo claro: hoje a humanidade poderia trabalhar muito menos horas por dia (ou por semana), tendo um tempo ampliado fora do trabalho, capaz de se converter autenticamente em tempo livre. Mas para isso é imprescindível quebrar a lógica do capital, do mercado, do dinheiro, o que recoloca no centro do debate a questão de estruturar um movo modo de vida, um novo sistema de metabolismo social que reponha o tema vital do socialismo. Uma breve mirada pelo cenário atual aponta para um século XXI com alta temperatura nas confrontações entre a totalidade do trabalho social e a totalidade do capital global, em suas multiplicidades de formas, em sua grande maioria articulando interesses de classe, gênero, etnia, gerações, que estamos vivenciando hoje em praticamente todos os continentes, da Ásia à Europa, do Oriente Médio à América Latina e à África, com suas particularidades e singularidades. Tudo muito distante do que o grotesco Fukuyama um dia chamou de fim da história.

Desafio sindical

Não são poucos e podemos sintetizá-los, indicando que os principais experimentos em curso hoje em busca do sindicalismo independente e de classe vêm procurando:

1. Romper a enorme barreira social que separa os trabalhadores/as "estáveis" dos trabalhadores/as em tempo parcial, precarizados, em expansão no atual cenário mundial;

2. Auxiliar na auto-organização dos desempregados;

3. Reconhecer efetivamente o direito de auto-organização das mulheres trabalhadoras, que sempre estiveram em minoria (mesmo quando são majoritárias, como no telemarketing) no espaço sindical;

4. Articular as questões de classe com aquelas que dizem respeito ao gênero, geração, etnia;

5. Incorporar as novas categorias de trabalhadores/as que não têm tradição anterior de organização em sindicatos;

6. Romper com a tendência crescente de institucionalização e burocratização, que tão fortemente tem marcado o movimento sindical em escala global e no Brasil, e que o distancia das suas bases sociais;

7. Quebrar a barreira imposta pelo capital, entre luta sindical e luta parlamentar, entre luta econômica e luta política, articulando e fundindo as lutas sociais, extraparlamentares, autônomas, que dão vida às ações de classe.


Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: Folha de S.Paulo - Opinião
Data: 2012-01-26
Autor: Ruy Braga
Comentário Boitempo:
Título: A rebelião do "precariado" europeu
Matéria:


O ataque aos direitos sociais na Europa defende os interesses da oligarquia financeira; estamos vendo o tempestuoso início de uma era de luta de classes

"Que mundo tão parvo

Onde para ser escravo

É preciso estudar"

Deolinda, "Parva que eu sou"

Após a Segunda Guerra Mundial, o crescimento econômico europeu, associado à institucionalização de direitos sociais, pareceu eliminar a insegurança da relação salarial.

Ainda que boa parte do trabalho intermitente e sub-remunerado continuasse sendo atribuída a jovens imigrantes, a combinação da proteção do trabalhador nacional com o consumo de massas (ou seja, a promessa do Estado social) se transformou em um poderoso amortecedor da luta de classes.

No início dos anos 1980, François Mitterrand resgatou do desterro o projeto da União Europeia.

Aquela promessa ajudou uma Europa que tinha acabado de sair de ditaduras filofascistas (em países como Espanha e Portugal) e de uma experiência de luta armada (como na Itália e na Alemanha) a enfrentar a competição com o neoliberalismo estadunidense.

Mesmo refém dos limites fiscais impostos pelo Tratado de Maastricht (um teto de 3% de déficit orçamentário), um continente unificado pelo binômio "eficiência e proteção" seduziu vários países do ex-bloco soviético e também parte significativa da imaginação política progressista global.

A atual encruzilhada europeia quebrou a promessa: os ajustes baseados na eliminação de direitos e os cortes orçamentários impostos pela "Troika" -a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional- recolocaram a insegurança no coração da relação salarial.

Os alvos foram as economias mais castigadas pela crise econômica. Primeiro foi a Grécia, seguida de perto por Portugal e pela Itália.

A recente rebelião do "precariado" europeu (ou seja, aquele setor da classe trabalhadora formado por jovens à procura do primeiro emprego, imigrantes e trabalhadores temporários) representa não apenas o fim de um ciclo de expansão econômica, mas o tempestuoso início de uma era de luta de classes.

"Geração à rasca", "Movimento 15-M", "Anonymous"... Não importam os nomes, a crescente degradação da proteção aos assalariados trouxe para a cena política uma fração de classe espremida entre a ameaça da exclusão social e o incremento da exploração econômica.

A luta de classes tende a se orientar pelas características desse jovem "precariado": trata-se de uma geração mais educada e internacionalizada do que seus pais, integrada "horizontalmente" em redes informacionais, além de divorciada por completo do pacto social do pós-guerra. Isso faz com que tanto a forma como o resultado da luta se tornem menos previsíveis.

Alguns sociólogos (como Guy Standing e Robert Castel) se referem a esse jovem "precariado" como uma "nova classe perigosa".

Eles estão acompanhados pelas autoridades políticas: na semana passada, às vésperas do anúncio de mais um plano de "austeridade" e diante de uma greve nacional de taxistas e caminhoneiros que ameaçou bloquear as principais rodovias do país, o primeiro-ministro italiano, Mario Monti, um economista e dublê de político escolhido a dedo pela "Troika", fez uma exigência.

Ele queria mais empenho dos governos da Alemanha e da França para baixar os custos do endividamento italiano. (Em 2012, a Itália precisa rolar € 320 bilhões a uma taxa de 7% ao ano.)

Para fortalecer a sua reivindicação, Monti evocou o "perigo" da ação intempestiva dos trabalhadores na periferia da eurolândia.

A bravata de Monti errou o alvo. Até agora, o jovem "precariado" demandou apenas que os governos honrem a promessa feita a seus pais.

O perigo está no amplo ataque aos direitos sociais orquestrados pela "Troika" a fim de salvaguardar os interesses da oligarquia financeira. As verdadeiras "classes perigosas" não são as que combatem nas ruas e nas praças. Elas estão confortavelmente instaladas nos escritórios da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu.

RUY BRAGA, 39, é professor do departamento de sociologia da USP, organizador de Infoproletários: degradação real do trabalho virtual (Boitempo) e autor de A nostalgia do fordismo: modernização e crise na teoria da sociedade salarial(editora Xamã)


Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo: O Estado de S.Paulo - Aliás
Data: 2009-10-11
Autor: Christian Carvalho Cruz
Comentário Boitempo:
Título: Admirável mundo novo?
Matéria:

Ao contrário do prometido, a tecnologia não aliviou a deterioração do trabalho, diz sociólogo: 'Apenas a transformou'

A não ser em seus livros, em que analisa com acidez marxista as transformações do trabalho e suas implicações na vida cotidiana, o sociólogo Ricardo Antunes, da Unicamp, tem dificuldade de contar a dura verdade a um trabalhador. Certo dia lhe telefonou uma funcionária do banco querendo saber por que ele não pagava contas pela internet. "Porque eu não lido bem com tecnologia", Antunes disfarçou. A moça insistiu dias depois. "Porque eu não confio na internet", foi a segunda resposta que ela ouviu. Só no terceiro contato o sociólogo abriu o jogo: "Porque eu não quero que você perca seu emprego". É justamente do trabalho no admirável mundo imaginado pelos entusiastas da era digital que trata seu novo livro, a coletânea de ensaios Infoproletários: degradação real do trabalho virtual (lançado pela Boitempo). Organizada em parceria com o também sociólogo Ruy Braga e com lançamento previsto para o dia 26 deste mês, a obra faz um recorte preferencial pelos operadores de telemarketing e trabalhadores de call center, expressões máximas da atual precarização do trabalho, segundo Antunes. Contudo, na entrevista a seguir, o sociólogo envereda também por outros desdobramentos da nova realidade, na qual ele vê poucos motivos de celebração. "Não é possível que o século 21 transcorra com essa destruição do trabalho em escala monumental sem que algumas 'placas tectônicas' se movimentem- e eu não estou falando de geofísica, obviamente", ironiza. "A história está aberta para qualquer tipo de saída."

EIS O INFOPROLETARIO

"O proletariado não acabou, ao contrário do que muitos previram e desejaram. Ele se transformou. O livro é uma tentativa de compreender essa transformação. Infoproletariado, ou ciberproletariado, são termos que compreendem uma ampla gama de trabalhadores que floresceu nas últimas três décadas e meia a partir do aumento do uso da tecnologia da informação, da globalização e da degradação das condições de trabalho. Esse triplo processo originou um tipo de proletário contraditório. Ele é de ponta, moderno, porque usa tecnologia avançada, mas é atrasado, porque herdou condições de trabalho vigentes no início do século 20. Analisar esse fenômeno é ir além do invólucro místico de certa sociologia segundo a qual a tecnologia traria para o trabalho o admirável mundo novo. Talvez fosse mais correto falar em abominável mundo novo.

MAIS COMPLETA TRADUÇÃO

"O operador de telemarketing é a expressão mais completa de infoproletário. Um trabalhador sob controle absoluto. Ele fica isolado em baias de modo que não converse com o colega do lado, tem tempo contado para ir ao banheiro, é punido se não cumpre metas e, como na indústria fordista, faz um trabalho prescrito e repetitivo levado ao limite. Um quadro de sofrimento e sujeição totalitária. Em franca expansão mundial, os call centers são, obviamente, importantes empregadores de jovens. Mas até eles percebem a tragédia em que se encontram. Em poucos meses não suportam o emprego, mas não podem sair, pois lá fora a opção é o desemprego. Sintomático que antes do início da jornada diária os teleoperadores se reúnam em um momento de concentração, com música agitada, palavras de ordem, etc. É o seu momento catártico para enfrentar a barbárie que virá.

E AÍ PARCEIRO...

"O infoproletário não se rebela. Afinal, ele não é um trabalhador, ele é um "colaborador". Eis uma engenharia ideopolítica das empresas, nascida nesse novo mundo do trabalho. Elas precisam da aquiescência e do envolvimento dos trabalhadores para tê-los só pensando nelas. No seu jogo de palavras, um colaborador não é parte da classe operária, não se sindicaliza, não pensa em política. Colaborador é parceiro, quase sócio. Por isso até almoça no mesmo restaurante dos gestores. Como, por definição parceria implica ajuda mútua, na bonança ou na tragédia, eu pergunto a essas empresas: por que o seu colaborador é o primeiro a ser penalizado em tempos de crise? Estamos diante de uma falácia, logicamente.

VOLUNTARIO NAO, OBRIGADO

"É o caso também da chamada web 2.0, em que os indivíduos são "convidados" a colaborar com empresas de internet. Há uma utilidade social clara nisso, não nego: o cidadão pode dividir com outros cidadãos quaisquer informações que julgue importantes. Porém, há um segundo elemento, que é o capital se aproveitando de mais uma brecha para gerar valor. Como no trabalho voluntário, mais uma forma de mascarar a autoexploração. Ao procurar emprego hoje você estará em desvantagem se não mostrar no currículo que fez ou faz trabalho voluntário. As empresas valorizam isso. Mas se você tem que fazer trabalho voluntário para conseguir um emprego, então ele se tornou trabalho compulsório. No Brasil existem perto de 20 milhões de trabalhadores voluntários. É evidente que eles substituem 20 milhões de assalariados que estariam recebendo para realizar um trabalho agora feito por voluntários que são obrigados a sê-lo. Que coisa ...

HOMEOFFICE

"Outro desdobramento do cibertrabalho é o trabalho a distância, o melhor dos mundos para o capital. Você trabalha em sua casa, onde o público e o privado se embaralham: como não há definição do que é trabalho e do que é descanso, a jornada se estende. Você fica sem sempre disponível e pode ser incomodado a qualquer hora por questões de trabalho, afinal você não está só em casa, está também no escritório. A noção de tempo desmorona com a vida privada. É uma nova modalidade de precarização permitida pela tecnologia. O pior é que virou tendência, essa é a nossa tragédia. Sou capaz de compreender o lado positivo do trabalho a distância para certo tipo e trabalhador que dispõe de "capital cultural" e acha bom ter controle sobre o próprio tempo. Mas o inverso disso é a individualização, o isolamento, o fim do trabalho coletivo e a quebra dos laços sociais.

TERREMOTO SOCIAL

"O avanço tecnológico atual é tamanho que poderíamos trabalhar tranquilamente três horas por dia durante três ou quatro dias por semana. Todos produziríamos e viveríamos bem. Mas como realizar isso nesses tempos de sociedade que vive em plena superfluidade? As pessoas precisam ir ao shopping, consumir sem parar, mesmo sem saber o quê nem pra quê, não é mesmo? Alguma coisa está fora de ordem. E não é possível que o século 21 transcorra com essa destruição do trabalho em escala monumental sem que algumas "placas tectônicas" se movimentem – e eu não estou falando de geofísica, obviamente. Cinco anos atrás quem diria que os Estados Unidos tomaria medidas estatizantes para impedir a falência de seu sistema financeiro? Quem diria que no modelo imaginado pelo american way of life o essencial automóvel se tornaria também moradia da classe média? A história está aberta, inclusive para saídas ainda mais à direita."



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05/03/2013 - Marx: a criação destruidora
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