Title:COMO DOIS E DOIS SÃO CINCO [How Two and Two Make Five]
Subtitle:Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)
Author:Pedro Alexandre Sanches
Pages:416
ISBN:85-7559-058-8
Establishing a surprising relationship between the politics of Jânio Quadros and the success of Roberto Carlos, Pedro
Alexandre tells the fascinating story of singer Roberto
Carlos` career, from his first unsuccessful recording with Polydor, at the peak of the jovem guarda movement, until
today.
Listen to the song Como dois e dois são cinco [How two and two make five] on Youtube.
Tom Jobim about Roberto Carlos: "He`s the King! Vox Populi, Vox Dei!"
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo:Carta Capital
Data:2007-06-22
Autor:Ricardo Lísias
Comentário Boitempo:
Título:O marketing da emoção
Matéria:O lamentável e confuso episodio que tirou de circulação o livro Roberto Carlos em Detalhes, de Paulo César de Araújo, fez ressurgir a sombra do autoritarismo que, vez por outra, aparece por trás da Justiça brasileira, frouxa o suficiente para reativar mecanismos que proíbem a livre circulação de idéias, o suporte de opiniões contrárias e a construção da história. Por mais que certa retórica jurídica queira contornar o problema, houve censura, cujas conseqüências não foram bem estimadas.
O romancista J. M. Coetzee publicou um livro notável sobre censura que precisa ser traduzido no Brasil: Giving Offense. Para Coetzee, a censura, acreditando agir a partir de interesses de uma comunidade, cria ofensas imaginárias e, não raro, supõe defender a comunidade quando, na verdade, age sobre fantasmas.
No caso de Roberto Carlos em Detalhes, o cantor resolveu defender-se juridicamente sobre algo que, por enquanto, fica no plano do imaginário, reforçando assim o mito sobre a própria imagem. No entanto, aberto o precedente, o fantasma que sustenta a censura começou a assustar as editoras que, agora, ao receber uma biografia, além do costumeiro parecer técnico, estão adotando a análise jurídica como critério de publicação. Assim, caso haja uma sombra de possível processo, a biografia ou acaba mutilada ou nem chega às livrarias.
Um historiador (e confesso que estou um pouco constrangido por ter de escrever esse tipo de coisa) trabalha diretamente sobre fontes primárias. Assim, cataloga documentos, procura entrevistar personagens relevantes, levanta imagens, percorre a imprensa e, em resumo, faz um apanhado geral de todo tipo de discurso produzido sobre um evento. No caso da história da arte, o próprio material o próprio material produzido pelo artista toma relevo, ao lado de outros documentos. A partir daí, o historiador opta por redigir algum tipo de conclusão sobre o material que reuniu. Biógrafos são historiadores e alguns deles são notáveis. Basta lembrar de Suetônio.
Ora, é óbvio que qualquer pessoa (inclusive artistas famosos) tem o direito de resguardar a imagem e zelar pela intimidade tanto de si quanto de sua família. Para isso, basta não dar declarações, não permitir ser fotografado, enfim, evitar a produção de fontes primárias - sempre tendo consciência de que o discurso artístico que produz é público e, portanto, pode ser estudado de mil maneiras diferentes. Qualquer personalidade que não queira ser biografada deve, portanto, evitar a produção de fontes primárias sobre si. Ao menos por enquanto, ninguém é capaz de escrever a biografia do escritor Thomas Pynchon...
Roberto Carlos nunca se protegeu de fontes primárias: chegou mesmo a encontrar-se publicamente com ninguém mais ninguém menos que um papa. Obviamente, o cantor sabia que um batalhão de fotógrafos registraria o acontecimento. Ele sempre alimentou a história da cultura em que se insere, mas, de repente, adota o procedimento jurídico para evitar que as fontes primárias que ele mesmo produziu resultem em um estudo historiográfico. A leitura atenta tanto do livro censurado quanto do resto da biografia sobre Roberto Carlos e a Jovem Guarda explica o que fez o cantor tomar tal atitude.
O livro de Paulo César de Araújo é dirigido ao público que consome a música de Roberto Carlos: a linguagem é simples (às vezes resvalando para o vulgar), com raras exceções não há quaisquer preocupações teóricas e praticamente a cada página o autor renova a admiração pela música do homem do calhambeque.
Não é à toa, para além do nocaute que deve ter levado na audiência de conciliação que Paulo César saiu chorando quando viu que o livro seria recolhido.
Ele éum enorme fã do seu algoz. Por que Roberto Carlos não se importou com outros títulos, como por exemplo, Como Dois e Dois São Cinco (Boitempo Editorial), de Pedro Alexandre Sanches? Esse deve ser o melhor estudo sobre Roberto Carlos e sua turma. Mas não procura atingir o grande público. Então, pôde circular.
Os historiadores são unânimes em dizer que Roberto Carlos fez questão de construir a imagem de homem romântico, hipersensível, que coloca nas letras das músicas sentimentos que ele próprio cultiva. O público consumidor comprou a idéia, insólita e antiquada, mas que ainda perdura no nosso senso comum, quatro gerações atrasado. Sendo o cantor romântico ao extremo, seu público esperava de fato que ele tentasse algum ato heróico para defender os próprios sentimentos e, do mesmo jeito, manter intocada a máquina que o faz produzir canções de amor. Sabemos que esse é o sentimento mais nobre e intocável do mundo.
Roberto Carlos, ou os seus assessores, sabiam que um contencioso jurídico traria mais visibilidade ao livro. Um processo e ele iria imediatamente para os cadernos culturais e a internet. Do mesmo jeito, é claro que parte grande do público de Roberto Carlos não dá nenhuma atenção para suplementos culturais e, salvo os mais moderninhos, vai ter de chamar os netos para baixar Roberto Carlos em Detalhes no Emule.
O cantor está, isso sim, dando satisfações para o seu público, mantendo a imagem de hipersensível e, com tudo isso, dando outro golpe de marketing. Nada, aliás, que espante muito. Mas há, sim, algo que choca: como a Justiça pode dar crédito para uma coisa dessas? Causa espécie apenas saber que um trabalho de historiador possa ser alvo de algum tipo de "querela jurídica" e, ainda mais, terminar num risível "Termo de Conciliação", sendo simplesmente recolhido de circulação.
Ao que parece, todo o imbróglio se deu por conta do artigo 5°, inciso X da Constituição e o artigo 20 do Código Civil. A Constituição diz o seguinte: "São invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação".
Já o Código Civil, um pouco mais saboroso, especifica: "Salvo se autorizadas, ou se necessárias à administração da Justiça ou à manutenção da ordem pública, a divulgação de escritos, atransmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa poderão ser proibi
das, a seu requerimento e sem prejuízo da indenização que couber, se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade, ou se destinarem a fins comerciais".
As duas leis são necessárias para a tranqüilidade de qualquer pessoa, mas fica claro, sobretudo no Código Civil, que elas se referem
às fontes primárias. Continuarei dando exemplos: se eu algum dia resolver publicar um grupo de cartas, ou poemas inéditos, ou mesmo fotografias, ou qualquer coisa que um artista tenha produzido, mas mantido em âmbito privado, só posso fazer com a devida autorização do autor.
Mas se ele mesmo publicou, ou deixou-se fotografar, ou fez quaisquer declarações, criou material para os estudiosos, que não invadem intimidade alguma. Eles, simplesmente, vão aos arquivos e copiam o que é público, procuram as fotografias e as interpretam, entrevistam as pessoas e selecionam as informações. Quem não gostou pode escrever outra história. Se há defeitos no livro de Araújo, quem deve apontá-Ios são os historiadores.
Se, portanto, as justificativas jurídicas parecem tão frágeis, por que o livro Roberto Carlos em Detalhes foi tão rapidamente retirado de circulação? Quem responde é o Dicionário Houaiss: "2. exame a que são submetidos trabalhos de cunho artístico ou informativo, ger. com base em critérios de caráter moral ou político, para decidir sobre a conveniência de serem ou não liberados para apresentação ou exibição ao público em geral; 3. restrição à publicação de informações, pontos de vista ou produções artísticas com base nesse exame (00')'" Essas são duas definições do termo "censurà'. Não resta dúvida de que foi o que aconteceu.
Por último, é importante tentar estimar por que a censura voltou com tanta força. Uma resposta simples é a de que, simplesmente, nossos homens de direito não sabem como funciona a história. Mas a resposta não é satisfatória.
O caso é que o autoritarismo que organizou a censura como a conhecemos hoje, a partir do golpe de 1964, continua com o aparelho montado. A Justiça brasileira ainda não abriu os documentos da ditadura e muito menos instaurou amplos procedimentos de julgamento dos crimes de tortura. Nossa democracia é manca e vive levando tombos. Se a Justiça quiser demonstrar que vivemos em um Estado de Direito de fato, precisa abrir quaisquer documentos e não, ao contrário, permitir que eles não sejam manipulados.
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo:Revista Living
Data:2007-07-14
Autor:Álvaro Jinkings
Comentário Boitempo:
Título:Como Dois e Dois São Cinco
Matéria:Com a polêmica em torno da proibição da biografia “Roberto Carlos em Detalhes”, de Paulo César de Araújo, surge uma curiosidade: por que o cantor proibiu aquele livro, e não “Como Dois e Dois são Cinco”, do crítico musical Pedro Alexandre Sanches?
Embora o livro não seja propriamente uma biografia, ele toca nas mesmas questões do livro de Araújo, de forma mais ampla e ainda vai mais fundo nas relações entre a Jovem Guarda e a “modernização conservadora” do país durante a ditadura e o surgimento de uma indústria cultural no Brasil.
O autor relaciona a história de vida e a produção musical extremamente popular de Roberto Carlos com as mudanças do período, e suas estratégias para se manter no topo da popularidade. Uma história muito mais reveladora que os detalhes pessoais que possam ter incomodado o “Rei”.
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo:Jornal do Commercio
Data:2004-12-21
Autor:
Comentário Boitempo:
Título:Um homem que se chama Brasil
Matéria:O jornalista Pedro Alexandre Sanches destrincha a vida de Roberto Carlos (e de Erasmo e Wanderléa) e define o artista como a tradução perfeita do nosso País
Em Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa) (Boitempo Editora, 413 páginas, R$68), o jornalista paranaense, de A Folha de S. Paulo, Pedro Alexandre Sanchez dá um mergulho crítico na obra de Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa, com análises paralelas, comparativas, entre RC e alguns dos seus concorrentes/rivais ao longo desses 40 anos em que o “Rei” paira onipresente no cenário da música popular brasileira. O livro é uma continuação na dissecação da MPB iniciada pelo autor com Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba (2000, da mesma editora).
Sanchez ocupa-se do trio que comandou a Jovem Guarda, e dos que chama de “anticarlistas”: Marcos Valle, Raul Seixas, Tim Maia, Belchior, Rita Lee e Wilson Simonal. Dedica também muito espaço a Caetano Veloso, que parece ser uma obsessão sua (no livro anterior não consegue evitar destilar uma relação amor/ódio entre ele e o compositor baiano).
Não é uma obra para fanzocas, ou nostálgicos, que esperam ver refletida sua juventude em Como Dois e Dois São Cinco, que passa de raspão pela história (incluindo fofocas e curiosidades), dos artistas focalizados, e concentra-se em examinar a ressonância magnética de suas músicas, atitudes, contextualizando-as dentro da situação política do País. Entre os capítulos há divagações, em itálico, que o autor alerta que podem ser lidas, ou não. As análises são subjetivas, pode-se discordar delas. Ao comentar, por exemplo, Louco Por você, o álbum inaugural de RC, Sanchez, como, aliás, todos que empreenderam empreitada semelhante, passa por cima do óbvio: o estilo “carlista” (para citar um termo de PAS) vem de dois ídolos do cantor: Anísio Silva e João Gilberto. Não por acaso, Louco Por Você começa com Não é por mim, sucesso menor de Anísio Silva. E mais: o romantismo kitsch, a ingenuidade, a moralidade pequeno-burguesa da música de RC estavam em concordância com o que acontecia mundo afora. O pop brasileiro esteve sempre, senão tecnologicamente, pelo menos esteticamente afinado com a contraparte internacional. Por exemplo, a inflação de roquinhos versando sobre monstros ou extraterrestres e peles-vermelhas são ecos de uma voga corrente nos EUA: The Purple People eater, de Sheb Wooley, Dinner with drac, Zacchariah e Apache, Geronimo, com os Shadows, respectivamente.
Como Dois e Dois São Cinco é escrito em estilo claro, com algumas digressões é certo, mas o encadeamento de disco com disco, o jogo de espelho na trajetória do trio, e na carreira de Roberto Carlos em relação aos seus rivais, torna a leitura fascinante, quase um romance, ou uma novela, que se sabe mais ou menos como vai terminar, mesmo assim se continua atento até o final: RC mantendo-se no trono durante intermitentes quatro décadas, Erasmo Carlos com altos e baixos, mas sempre o fiel escudeiro, ou vice-rei, e Wanderléa, errática desde o fim da Jovem Guarda, em 1968, à procura do tempo perdido e, aparentemente, desistindo na década passada. PAS é declaradamente um “carlista”, mesmo que o considere conservador durante a maior parte da carreira, reacionário nos anos 90. O livro, que começa com a era Juscelino, termina com a subida de Lula ao poder. Um brasileiro comum, como Roberto Carlos, que chegou lá. A conclusão do autor, paradoxalmente é enunciada no prefácio: “Traquinagens à parte, quero defender aqui: Roberto Carlos é um dos mais intensos e completos sinônimos de Brasil que já existiram, quase assim um mito do nosso folclore. Nutrido do misto de amor e resistência (repulsa?) que todos sentimos por ele, Roberto poderia se chamar Brasil”.
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo:Folha de S. Paulo
Data:2004-12-07
Autor:Alexandre Matias
Comentário Boitempo:
Título:Livro revê a trajetória de Roberto Carlos
Matéria:Depois de dissecar cerebralmente o cânone central da MPB dos festivais da Record para cá em seu primeiro livro ("Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba", 2000), o repórter e crítico da Folha Pedro Alexandre Sanches dedica-se a um território pouco visitado e muito menos compreendido. Burilando sobre canções e discografias como artefatos de uso pessoal de seus objetos de estudo, Sanches deixa de lado as verdadeiras bíblias de referências que eram os álbuns de Caetano, Chico, Paulinho, Jorge e Gil. Parte para abismo desconhecido, de traumas, superstições e caprichos, de um universo mais denso e vasto: Roberto Carlos.
"Como Dois e Dois São Cinco" (editora Boitempo; R$ 68; 398 págs.) não apenas se deita sobre todos os discos do monarca da canção, como se apóia em sua corte direta, as obras completas de Erasmo Carlos e Wanderléa, para melhor compreender o legado do velho garoto de Cachoeiro de Itapemirim. É um relato triste e impiedoso, não por ser cerebral justamente -pelo contrário.
A escolha por Roberto Carlos se deu por importância, já que Sanches o considera "em termos de volume, quantidade, presença e popularidade, o maior artista da história do Brasil". "Se formos falar sobre presença estética e artística, acho que estamos só engatinhando na nossa capacidade e vontade de compreender a extensão e a complexidade dele para a cultura brasileira. Roberto não tem um tamanho, mas todos, que sua estatura é a de qualquer brasileiro. Esse é seu segredo: ele é igualzinho a qualquer um de nós. Ele é meio um Lula da música popular. É o sujeito mais banal e normal do mundo, com dores e angústias que todo mundo conhece estampadas no rosto e na voz. Talvez por isso mesmo tenha se transformado num ícone de massas, num símbolo fortíssimo, onipresente", explica.
Sanches parte para tal missão com preparativos extras. Não é uma viagem para fora, e sim um mergulho na alma brasileira, uma jornada ao centro da Terra - e, para isso, ele se equipa de uma ferramenta pouco usual em suas incursões: a emoção. Ao ser confrontado de forma direta por um amigo sobre o dúbio território que caminhava em seu primeiro livro ("aquilo ali é ficção, né?", pergunta-o no prefácio), Sanches assume o papel intrinsecamente subjetivo de sua leitura e intercala sua narrativa central com capítulos em ficção, em que encarna personagem ora conhecidos, ora anônimos, para conceituar, informalmente, a atmosfera em que cada período analisado se localiza. Desnecessários, tais capítulos (em itálico) podem ser pulados, mas revelam uma faceta inconsciente do autor - entre "Panamérica" e a América beat -, que se fragiliza em público para melhor entender o Rei.
"Não é um livro de ficção, como também não é um livro de fatos", Sanches explica melhor. "A crítica mais freqüente que ouvi sobre meu primeiro livro foi que eu fazia interpretações delirantes num tom de quem tinha absoluta certeza de que era exatamente como tudo tinha acontecido mesmo. Tento corrigir essa rota agora, testando brincadeiras que indiquem que uma interpretação de determinada coisa é igual e tem tanto valor quanto todos os outros zilhões de interpretações que essa mesma coisa pode ter, a gosto do freguês."
Se falta a "Como Dois e Dois" a arrogância afirmativa do primeiro livro, sobra a emotividade exagerada, como há de convir. Por vezes, o livro soa lacrimoso e cheio de choramingos, e esta característica o equivale a Roberto Carlos - não existe emoção calculada, racional. Exposto, Sanches desce do pedestal da crítica e aponta o dedo para si mesmo: "Este livro é uma grande declaração de amor a você, Roberto", diz à abertura. E, como todas as grifes que lidam com o amor (Jesus Cristo, Beatles, "Star Wars", RC - a lista não tem fim), é provável que "Como Dois e Dois..." atinja um público ainda maior que o (pequeno) do primeiro livro.
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo:Blog Babel
Data:2009-03-11
Autor:Ana Paula Sousa
Comentário Boitempo:
Título:Nem autorizada, nem proibida
Matéria:Curiosamente, uma outra biografia de Roberto Carlos, Como Dois e Dois São Cinco (Boitempo Editorial), permanece nas livrarias – liberada e discreta.
O autor da biografia “não proibida” do “Rei”, o jornalista Pedro Alexandre Sanches, não disfarça certo espanto diante do silêncio em relação ao seu livro e esboça algumas explicações para o caso que, a seu ver, é não só lamentável como perigoso.
Pedro chama a atenção, em primeiro lugar, para o comportamento da mídia. “Na época do primeiro veto e do confisco de parte da tiragem do livro do Paulo César, a imprensa demonstrou aquela indignação de praxe. Mas, para ser sincero, a indignação me parece de fachada.”
Ele diz não ter visto nenhum esforço por parte da imprensa para compreender realmente o que estava acontecendo, quais eram as motivações do Roberto Carlos. “Será que não são motivações mais econômicas do que filosóficas?”, pergunta. De fato, se o livro de Araújo fizer sucesso, sua biografia “oficial” pode não vender o que ele sonha.
O jornalista e crítico musical jamais foi procurado para falar sobre porque o seu livro, publicado dois anos antes de Roberto Carlos em Detalhes, não foi perseguido pelo “rei”.
“Se não perguntaram para mim, acho que posso concluir que também não perguntaram ao Roberto Carlos, aos advogados dele, às editoras. Não é esquisito isso? É uma pergunta para a qual não tenho resposta, e que me angustia bastante.”
“Não consigo entender o desinteresse geral e a falta de curiosidade sobre o que motivou e diferenciou os dois casos, e sobre que consequências perigosas disso tudo não para o Roberto ou para a editora Planeta, mas para o Brasilzão, para o direito que temos ou não temos de saber da nossa própria história e de escrever e ler com liberdade. De “gozar a liberdade de uma vida sem censura”, como dizia um certo grande cantor.
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo:Jornal do Brasil
Data:2009-04-19
Autor:Pedro Alexandre Sanches
Comentário Boitempo:
Título:Os 50 anos de carreira de Roberto Carlos
Matéria: Roberto Carlos é um índio. Você há de estranhar essa minha afirmação, mas, eu digo e repito, e não é só pelo fato de ele ter nascido em 19 de abril, Dia do Índio, três dias antes do aniversário do descobrimento do Brasil. Nem tive tempo (ou presença de espírito) para colocar isso literalmente no papel em meu livro Como dois e dois são cinco – Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa), mas foi nessa época, de tanto olhar a clássica imagem de seu rosto tristíssimo na capa do LP de 1972, que comecei vagarosamente a me dar conta de que Roberto Carlos era – e é – um índio.
Não estou tentando dizer que ele seja um tupi, um guarani, um bororó ou um botocudo. Quando o defino como “índio”, quero dizer (e isso consegui escrever no livro, ufa) que RC é o brasileiro por excelência, o brasileiro original e essencial. Tem a expressão triste e massacrada, a docilidade submissa e (novamente) massacrada de todo brasileiro médio, seja índio, negro ou branco. E por isso tanta gente gosta tanto dele. Porque se identifica. E por isso mesmo tanta gente detesta tanto os caracóis vira-latas dos cabelos dele. Porque se identifica.
Ainda aqui você me estranhará. Brasileiríssimo, um cara que quis copiar o matuto Elvis Presley? Um sujeito que trouxe para cá, acaipirado, o yeah yeah yeah dos quatro manés de Liverpool? Pois é, mas o que haveria de novo (ou de velho) nisso? Carmen Miranda não foi interpretar latinas subalternas em Hollywood? Mano Brown não preferia o cego Stevie Wonder ao assum preto Roberto Carlos? Tecneiros de rave e roqueiros “indie” paulistanos não desprezam Chico Science enquanto se juram nascidos na Grã-Bretanha?
Em outros termos, a rejeição à própria origem não é (ou foi) um de nossos trágicos traços distintivos nestes 50 anos de reinado do capixaba do Itapemirim (percebe os nomes indígenas?), tempos de ditadura e tal e coisa?
Minha hipótese é de que, sim, e não é por outra razão, que RC passou tanto tempo disfarçando brasilidades atrás de iê-iê-iês, baladas à Tony Bennett, hinos gospel. E conquistou fãs suburbanos sulistas com os primeiros, românticos interioranos nortistas e nordestinos com os segundos, católicos e evangélicos e candomblezeiros com os terceiros. Enquanto isso, em Gotham City, uns e outros ficaram disfarçando não gostar de seus boleros e assoviando só no chuveiro seus temas de motel, tal qual Waldick Soriano dizia acontecer com socialites que volta e meia apareciam em seus shows. De repente, estava todo mundo gostando de RC, os que admitiam e os que nem às paredes confessavam. De repente, estava todo mundo gostando de si mesmo, sem nem perceber.
Nesse balanço, RC dominou corpos, corações e mercados, ao sabor de cantos indígenas como Quero que vá tudo pro inferno, As curvas da estrada de Santos, Amada amante, Além do horizonte, Amigo, As baleias, Caminhoneiro, Amazônia... Isso sem falar dos sinais de fumaça emitidos por seu parceiro sioux, ou apache, ou nhambiquara, o extraordinário Erasmo Carlos.
Tento afirmar que RC é um mar de rosas? Não, claro que não. Ele também é acomodado, inerte, moralista, mimado, autoritário, censor. Nada disso é legal, mas como condená-lo à forca ou ao degredo, se nós também somos tudo isso? Afinal, Roberto Carlos é eu e você. E nós somos o índio Roberto Carlos.
Pedro Alexandre Sanches é repórter da revista Carta Capital e escreveu o livro Como dois e dois são cinco – Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa) (Boitempo, 2004).
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo:Revista Billboard
Data:2009-10-01
Autor:Pedro Alexandre Sanches
Comentário Boitempo:
Título:O rei e eu
Matéria: Além de jornalista e crítico musical, sou au¬tor de um livro sobre Roberto Carlos:Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wandeléa) - ed. Boitempo,2004. Meu livro não foi um sucesso de marketing e, não sei se por isso ou por outros motivos, não foi interditado, como aconteceu a seguir com Roberto Cartos em Detalhes - ed. Planeta, 2006 -, escrito por Paulo César de Araújo, autor também do importante Eu Não Sou Cachorro, Não - Record, 2002 -, em que trata dos precon¬ceitos da intelectualidade brasi¬leira contra nossos artistas mais populares (RC incluso).
Morrendo de medo, escrevi e lancei meu livro sem pedir permissão ao Rei, mas roguei à Boitempo que lhe enviasse um exemplar assim que saiu da gráfica. Naquele dezembro, não compareci à tradicional entrevista coletiva de RC, mas soube por uma assessora da gravadora Sony que, na ocasião, alguém lhe perguntou sobre Como Dois e Dois São Cinco e Roberto respondeu, segundo ela, que ainda não tinha lido, mas acreditava que devia ser bom, pois me considerava um bom jornalista. Nenhum órgão de imprensa (nem a Folha de S. Paulo, onde eu trabalhava na época) publicou qualquer informação sobre esse detalhe. E eu, passados quase cinco anos, continuo sem saber se ele leu ou não leu, muito menos se tem alguma opinião sobre o livro.
Até poucos dias atrás, a maior proximidade que eu havia tido de RC se dera nessas situações absolutamente impessoais (e improdutivas, em minha opinião) de coletivas. Nunca entrevistei Roberto cara a cara, e sou um dos muitos jornalistas que se amontoam na fila para fazê-I o, uma fila que nunca anda. E de repente, na madrugada do último dia 4 de agosto, me vi dentro do camarim do artista (do meu ídolo, por que um crítico musical não poderia dizê-Io?). Eu e um dos diretores da Billboard Brasil, Antonio Camarotti, que eu conhecera poucos minutos antes.
Poderia ter aproveitado para finalmente perguntar a Roberto sobre meu livro. Mas não o fiz, por¬que estava ali não como escritor, mas como o jornalista incumbido de construir uma reportagem so¬bre Roberto Carlos. Não cabia, atéporque eu precisava usar aqueles preciosos minutos (foram cerca de quatro, nas minhas contas) para tentar arrancar alguma declaração do homem que não dá entrevistas.
E acabei perguntando sobre Lady Laura, até agora não sei explicar por quê.
Mas, não, espere, acho que es¬tou inventando desculpas, meio àmaneira do taxista Aderaldo - que me foi apresentado pelo Camarotti, de quem, a propósito, eu também estava com medo. Porque, sim, esta é a crua realidade: não per¬guntei porque estava morrendo de medo de Roberto Carlos.
Jornalista musical há 17 anos, me acostumei a enfrentar sem maiores sobressaltos figuras his¬tóricas da MPB, como Chico Buar¬que e Caetano Veloso, ou outros de meus maiores ídolos, como Jorge Ben Jor, Rita Lee e Erasmo Carlos. Mas diante de Roberto Carlos, confesso, pela primeira vez tremi feito vara verde. Pensei mesmo que fosse dobrar as per¬nas e cair ali mesmo, na frente do cara. Vivendo e aprendendo...
Quanto a ele, não faço ideia nem ao menos se estava ligando o nome à pessoa, mas me pareceu reagir à tremedeira alheia com a naturalidade divertida de quem já viveu essa cena um milhão de vezes (e eu sobrevivi, viu, Aderal¬do?, e perdi o medo de você, viu, Camarotti?). E eu, torno a repetir, gastei meu tempo perguntando sobre Lady Laura...
Continuo sem entender muito bem o que me deu, mas talvez tenha a ver com o "fato de, para mim, o momento mais bonito e emocionante desse show (e, sim, eu tentei dizer isso a ele após o diálogo sobre Lady Laura) ser a sequência em que ele emenda "Aquela Casa Simples" (1986), "Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo" (1979) e, claro, "Lady Lau¬ra" (1978). Talvez, simplesmente, porque essas canções me lem¬bram e me fazem sentir saudades de minha mãe e meu pai, da casa deles e da minha cidade.
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo:Jornal Brasil Econômico
Data:2010-02-13
Autor:Pedro Alexandre Sanches
Comentário Boitempo:
Título:O que só um 'robertólogo' poderia ver no navio do Rei
Matéria: Embora tenha passado anos sob
a couraça de crítico musical,
o jornalista Pedro Alexandre Sanches
é tão fã de Roberto Carlos quanto
qualquer outro no cruzeiro que
zarpou levando sua Realeza. Sobre
as águas do Atlântico, mergulhou
no cenário ‘mais surreal, feérico
e rodriguiano’ que jamais conheceu
Há 200 anos Roberto Carlos só
faz shows em estádio, ginásio
ou na tela da TV Globo.
Masesta noite ele está diante
de uma plateia de “apenas”
mil pessoas.Aorquestra não
se faz presente. O público não está à beira de
um ataque de nervos. É uma experiência
intimista como nunca dantes na história
deste “rei”dapopularidadebrasileira. Mas,
espere um pouco. Alguém pode me beliscar?
É possível que eu estejamesmoemum
show (mais ou menos) íntimo de RC, no
alto de suas cinco grandiloquentes décadas
de música pop e de idolatria romântica?
Não, não estou sonhando. Estou embarcado
no navio Emoções em Alto Mar e, na
sexta-feira 5 de fevereiro, sou um dosmil
exclusivíssimos felizardos presentes.
Nem em sonho eu havia se quer me imaginado
ali, apesar de ter escrito e publicado
um livro centrado na figura desse cara,
Como Dois e Dois São Cinco — Roberto
Carlos (& Erasmo & Wanderléa) (Boitempo).
O outro livro, Roberto Carlos em Detalhes
(Planeta), de Paulo Cesar de Araújo,
foi proibido. E o meu passou embrancas
nuvens, o que de certo modo talvez tenha
sido bom — não fiz “sucesso”, mas também
não fui proibido. Somadas todas essas
circunstâncias, nunca me imaginei entrando
no navio do Lobo Mau mais bonzinho
do pedaço (ou vice-versa?).
Não tenho a menor dúvida de que pertenço
à imensa legião de fãs dele, embora
tenha passado anos camuflado no couro
duro de crítico musical “malvado”. Mas
nempor isso foimenorosustoderecebero
convite direto da doce jornalista Léa Penteado,
diretora de comunicação da empresa
que cuida dos interesses profissionais
de RC (e assessora, por muitos anos,
do “malvadíssimo” apresentador de TV
Flávio Cavalcanti). Mais ainda: Léa me
convidou, segundo suas palavras, como
“robertólogo”! Eu pediria para você mebeliscar outra vez, se jánão tivesse pedido.
Pois fui. E mergulhei dentro do cenário
mais surreal, feérico e rodriguiano que jamaisconheci.
Não sei se em algum momento me imaginei
dentro do cérebro de Roberto
Carlos,mas era como se isso estivesse
acontecendo. Canções do dito cujo tocam
sem parar, 24 horas por dia, em todos os
alto-falantes dos 14 andares daquele navio-
-edifício-crânio. Se vale a analogia, diria
que amente de RC é um cenário coloridíssimo
habitado por uma multidão desconcertante,
porummilhãodeamigos(oumelhor,
bemmais amigas que amigos) a persegui-lo
semtrégua,emritmo de aventura.
A multidão, no Emoções em Alto Mar, é
mais espetacular que o anfitrião. São milhares
de mulheres (e alguns homens), a
maioria de idade mais ou menos regulada
com a do ídolo, a desfilar numa montanha
humana, ora em biquínis e maiôs, ora em
magníficos trajes de gala, oito e oitenta.
Curtem a vida adoidada(o)s, falam sobre
RC sem parar, se divertem a valer, bebem,
comem, dançam ao som ao vivo (e escolhido
diretamente pelo dono da cabeça)
dos grupos Exaltasamba e Calcinha Preta.
Diante dos animadores de navio vestidos
de cangaceiros no show do Calcinha, me
pergunto se não estou no navio de outro
rei, o do baião, Luiz Gonzaga. Mas como
anda brasileiríssima amente desse Roberto
Carlos (e que bom que defendi em meu
livro a tese de que RC é o que é porque é o
mais brasileiro de todos os brasileiros)!
Léa conta que o “rei” traz a bordo uma
comitiva de 150 pessoas, na qual inclui seu
corpo de funcionários, demotoristas a seguranças,
todos em férias e acompanhados
pelas respectivas famílias. Se esses
circulam incógnitos emmeio à massa humana,
Roberto, ele mesmo, faz aparições
esporádica sem sua própria cabeça. Dizem
que tem um andar inteiro reservado para
ele (ninguém sabe qual é, e abundamfantasias
sobre passagens secretas e fundosfalsos), e dali só sai para, por exemplo,
premiar os vencedores do karaokê de
canções adivinhe de quem.
A aparição principal é a do show. São seis
sessões, para dar conta de todo o público
pagante (o navio tem capacidade para
3.780 hóspedes, e é otimizadoemduas viagens
de cinco dias cada). O dono de nossas
cabeças inicia os trabalhos íntimo e penetrante,
celebrando o fato de que “moramos
alguns diasnamesmacasa,dormindo sobo
mesmoteto”. Mas aí se inicia um fenômeno
surpreendente. Sem orquestra, jogos de luzes
e outras pirotecnias, o rei está nu. Canta
genialmente e dá às interpretações nuances
e sutilezas que seriam imperceptíveis
num ginásio. Está no controle completo da
situação. É a hora da estrela.
Ironicamente, o público não parece
acostumado a ficar em segundo plano
num show de RC. Sem a fúria louca de
som, cor e luz, a plateia parece intimidada
em gritar, uivar, cantar junto e gritar
“maravilhoso!”—e se encolhe, vai ao terceiro
plano. Dooutro lado do espelho,Roberto
está nitidamente feliz com a oportunidade
(é voz corrente que ele adora esses
cruzeiros), mas parece também inadaptado
à situação de relativa intimidade.
No dia seguinte, uma fã idosa reclama
com Léa a ausência de Cavalgada —mas
como reproduzir a grandiloquência daquela
épica canção sexual sem os artifícios
e adereços de praxe, e como não desapontar
a plateia diante desse vazio?
RC consegue. E não consegue. Estrelas
não mudam de lugar. Estrelas mudam de
lugar. O show termina, mas continua lá
fora, protagonizado por uma rica fauna
social, étnica e cultural. O público do navio,
repito, é mais espetacular que o ídolo.
E o ídolo continua sendo o que é porque
divide a dor e a delícia de ser o que é. E eu, que fui lá tentar entender um pouco
menos de longe a mente dessa minha obsessão,
caio insone na madrugada de despedida.
Me ponho a vagar pelo convés, acabo entrando no cassino às 3 horas da manhã
e dou de cara com...Roberto Carlos.
Não é sonho, não precisa me beliscar. RC
está, sim, na roleta, apostando a própria
sorte em fichas azuis. A expressão é serena,
satisfeita, bonachona. Ele sabe, e todo
mundo ali sabe, que estamos dentro de uma
potente máquina capitalista— a paixão romântica e platônica
é elemento essencial da
equação. E, ao mesmo tempo, ele parece
tão simples e sincero no ato de permitir que
seu capetinha apareça à beira da roleta, por
baixo da lã de brasileiríssimo cordeiro.
Atrás do cordão de isolamento repleto
de velhinhas apaixonadas, canso de esperar
que Roberto pare de apostar e parta
rumo a alguma fresta secreta entre a realidade
e o sonho. Desisto, por ora, de
querer decifrar a esfinge. Entrego os
pontos: vou dormir.
Publicações na imprensa sobre o Livro.
Veículo:Jornal Pampulha
Data:2011-04-02
Autor:Priscila Brito
Comentário Boitempo:
Título:São tantas emoções...
Matéria:
Dupla de maior sucesso da história da música brasileira, Roberto e Erasmo chegam aos 70 anos com um legado musical que atrai gerações
Era1958.Roberto,17, precisava aprender a letra de “HoundDog”, da então sensação Elvis Presley para fazer o número de abertura do show que Bill Haley, outro sucesso do rock nascente, faria no Rio de Janeiro. Numa época em que os LPs ainda não traziam encartecomas letras de músicas – isso só viraria padrão
nove anos depois, com os Beatles – e que usar a internet e o Google para encontrar qualquer
informação era uma realidade que não se
sustentava nem na imaginação, sugeriram ao
cantor em início de carreira que procurasse Erasmo, também 17, carioca da Tijuca e colecionador de toda sorte de material sobre o rapaz americano que escandalizava com
o movimento dos quadris.
Por pouco, o encontro não foi em vão. Roberto conseguiu a letra, mas não apresentou a música: menor de idade, foi proibido de subir ao palco. Bill Haley viu sua carreira esfriar. Elvis morreu (há quem diga que não). Mas Roberto e Erasmo dera mal o primeiro passo para uma amizade que se desdobraria em uma parceria musical que especialistas não hesitam em caracterizar como a mais bem-sucedida da música brasileira, comparável à da duplaLennon/McCartney. Foram 500 composições assinadas em conjunto desde a inaugural “Parei na Contramão”, muitas das quais escaparam ilesas do teste do esquecimento para se tornarem sucessos
definitivos, como não se cansam de repetir por aí.
No ano em que os dois Carlos chegam aos 70 anos (Roberto no próximo dia 19 e Erasmo
em 5 de junho) e anunciam a retomada dessa parceria – desde 2003 não há uma música
inédita escrita pela dupla – o Pampulha foi buscar em fãs e estudiosos pistas que expliquem a parceria bem-sucedida da dupla.
Não é tão simples. A longevidade e a força da parceria resulta de uma fórmula que se sustenta na harmonia das afinidades e, ao mesmo tempo, no equilíbrio das oposições de cada um deles. “Eles têm uma química perfeita. O Roberto tem uma formação e uma sensibilidade
bem mais romântica, diferentemente do Erasmo, que tem sensibilidade mais roqueira. Isso acabou resultando no que é conhecido
como balada romântica. Se os dois fossem só roqueiros ou só românticos, talvez não funcionasse bem”, argumenta Paulo César de Araújo, historiador e autor de Roberto Carlos
em detalhes, biografia de Roberto lançada em 2006, mas recolhida das livrarias a
mando do Rei.
A diferença na formação encontra paralelo nas personalidades distintas, evidenciadas em suas obras individuais. Enquanto, no correr dos anos
1970, Roberto deixava transparecer na música sua faceta religiosa, para muitos sinônimo
de conservadorismo, Erasmo escrevia, sozinho, canções de teor mais libertário, como emancipação feminina a questões de sexualidade. “Erasmo nunca levou sua música para esse lado (religioso). No entanto, tocou em temas jamais abordados por Roberto, talvez pela polêmica que suscitavam, como na ótima ‘Close’, onde fala da modelo Roberta Close, a mais famosa transexual brasileira”, observa o mestre em sociologia pela UFMG Daniel Martins.
Por outro lado, ambos cresceram fãs de Elvis
e admiradores de João Gilberto, torcedores do Vasco e leitores das mesmas revistas em quadrinhos, e desenvolveram aptidões semelhantes.
“Ambos fazem música e letra, diferente de Tom e Vinícius, por exemplo. Vinícius fazia a letra e Tom, a música. Roberto e Erasmo têm habilidades próximas, isso contribuiu para a longa produção da dupla”, pontua Paulo César.
Nem por isso essas habilidades tenham sempre sido usadas em conjunto. “As músicas são assinadas pelos dois, mas quando é no disco do Erasmo, tem cara de Erasmo, e quando é no disco do Roberto, tem cara de Roberto. Existem boatos de que muitas músicas foram feitas ou por um ou por outro, mas é evidente que, provavelmente, as melhores foram
feitas pelos dois juntos”, diz o autor de Como dois e dois são cinco (Ed. Boitempo), o jornalista e crítico de música Pedro Alexandre Sanches, ressaltando um mistério propício a mitos da música do porte da dupla.
Não chega a ser, no entanto, um método típico. É bem semelhante ao que fizeram John Lennon e Paul McCartney, outra parceria sem precedentes na história da música. Apesar de terem assinado juntos a imensa maioria das canções dos Beatles, muitas das vezes os ingleses compuseram sozinhos, imprimindo suas personalidades às músicas. Mas o paralelo não para por aí, dando mais pistas da representatividade da parceria. Nos dois casos, ambos conheceram-se na adolescência e, juntos, criaram
clássicos. Ao menos na América Latina, a dobradinha Roberto-Erasmo vendeu mais discos que Lennon-McCartney.
Como observa Paulo César em seu livro, o Brasil talvez tenha sido o único país no qual,nos anos 1960, os Beatles não foram os principais ídolos
e vendedores de discos. Tiveram que dividir o mercado com os sucessos de Roberto e Erasmo.
“Não existe outra dupla de compositores tão fortes e conhecidos como eles. A obra é enorme, com fases distintas. Tem uma discografia respeitável e sucesso pelo mundo”, afirma Fernanda Takai, do Pato Fu, que, na sua história com a obra da dupla, guarda na memória os filmes que via na "Sessão da Tarde” estrelados por Roberto, nos moldes do que também fizeram os Beatles.
China, da banda Del Rey, que faz releituras da dupla, corrobora com a comparação. “Eles são nossos garotos de Liverpool. Um completa a obra do outro, do mesmo modo que Lennon completava Mc-Cartney, e vice-versa. O Roberto
completa a obra do Erasmo por ser o intérprete que é, e o Erasmo completa Roberto com as letras e as belas sacadas poéticas”.