Terciane Alves
A Boitempo Editorial lança, no segundo semestre do ano, quatro obras de escritores estrangeiros inéditas no Brasil: "Baudelaire", de Theófile Gautier; "O Tacão de Ferro", de Jack London; "Os Deuses têm Sede", de Anatole France; "Memórias do Sr. Schnabelewopski", de Heinrich Heine. Também está previsto um livro em homenagem aos 80 anos da morte do escritor norte-americano John Reed (1887-1920), ainda sem título. A obra do autor de "Os Dez Dias que Abalaram o Mundo" (Ten Days that Shook the World) reúne vários contos de diversas obras, em seleção feita pela editora. Os quatro títulos, nunca traduzidos para o português, integram um programa editorial da Boitempo de não só retomar, mas intensificar a recuperação de textos clássicos ou de relevância histórica e literária que foram ignorados ou tiveram ínfimas edições no mercado editorial brasileiro.
"A editora surgiu com essa idéia, mas ela ficou um pouco relegada em função de outros projetos. Nesse ano, priorizei essas publicações", explica a editora e proprietária da Boitempo, Ivana Jinkings. O projeto prevê ainda o lançamento de outros quatro livros até a metade do próximo ano. São eles: "Porto Calendário", do baiano Osório Alves de Castro, grande amigo e correspondente de João Guimarães Rosa; "Manuscritos Econômico-Filosóficos", de Karl Marx (textos inéditos); "Para Além do Capital", de István Mészáros; "Pedra Bonita", de Araripe Jr., entre outros.
Ivana diz que há uma infinidade de livros, de primeiríssima qualidade, que nunca foram publicados no Brasil ou tiveram uma única edição e estão há anos esgotados. Por isso, ela pretende resgatar a importância de determinadas obras e épocas. O fato de alguns livros ficarem meses nas listas de mais vendidos sem que se encontre uma única razão para tanto sucesso, e outros, de alto nível intelectual ou estilístico, passarem quase clandestinos pelas abarrotadas listas de lançamentos é revelador da imprevisibilidade do mercado, entende Ivana. A ironia é que grande parte dos títulos a serem lançados pela Boitempo editorial estão em domínio público (pela lei brasileira, descarta-se a necessidade da compra dos direitos autorais da obra após 70 anos da morte do escritor).
Um Baudelaire exótico
"Baudelaire", obra de Théophile Gautier (1811-1872), prevista para ser lançada em setembro, resulta de um ensaio escrito para prefaciar a primeira edição francesa do livro "As Flores do Mal" (Les Fleurs du Mal), de Charles Baudelaire, lançado na segunda metade do século XIX. No entanto, as edições brasileiras nunca trouxeram a tradução do texto. Para Mário Laranjeira, tradutor da obra e professor de Literatura Francesa e de Tradução Poética da Universidade São Paulo, o texto de Gautier teve extrema importância para Baudelaire se firmar no meio literário porque representou o aval de um dos grandes escritores do período. O texto de Gautier tem mais importância pelas informações do que pela crítica feita a "As Flores do Mal". Gautier narra como conheceu Baudelaire, o gosto que tinha pelas mulheres, perfumes, sempre muito atento ao sabor e gostos exóticos, explica Laranjeira. Para justificar a ausência de tradução da obra no Brasil, ele diz que, com o tempo, o prestígio de Baudelaire superou o do amigo. Gautier escreveu vários textos históricos sobre poesia. "O ensaio de Gautier destaca uma obra que foi um monumento da literatura francesa e ocidental. 'As Flores do Mal' é um marco, pois introduz a modernidade da poesia".
A professora Gloria Carneiro do Amaral, doutora em Literatura Francesa, também autora de "Aclimatando Baudelaire" (Editora Annablume), destaca que "As Flores do Mal" é um livro dedicado a Gautier, com expressões de respeito e de admiração: "poeta impecável", "mestre amigo". "Os dois poetas franceses foram amigos chegados desde que se conheceram. O texto apresenta um retrato pessoal de Baudelaire por uma pessoa que o conheceu bastante e uma análise de sua obra por outro poeta importante, um dos responsáveis pela difusão da teoria da arte e do parnasianismo na França." A professora está elaborando um ensaio que será publicado como prefácio de "Baudelaire" . Ela salienta que o texto de Gautier foi lido pela geração seguinte de poetas como Rimbaud, Mallarmé e Lautréamont, orientando o contato que tiveram com esta obra fundamental que é "As Flores do Mal".
"Os Deuses têm Sede" (Les Dieux ont Soif), de autoria de Anatole France (1844-1924), inédito no Brasil, é considerado o grande responsável pelo Prêmio Nobel que o autor recebeu em 1921. Inconformado com a inexistência do título em português, o crítico literário brasileiro Antonio Candido recomendou a Ivana que elaborasse a publicação. "Ele me disse que a obra é um dos melhores romances que leu na vida. Depois da leitura, também me convenci de sua importância", conta ela. A tradução está sendo elaborada pela crítica literária Maria Cristina Cupertino.
"O Tacão de Ferro", um dos principais romances do norte-americano Jack London (1876-1916) e prevista para ser lançada em novembro, já caiu em domínio público, mas ainda permanece inédito no Brasil. A expressão que batiza o romance era utilizada por London quando se referia à Plutocracia — meio em que homens ricos têm preponderância. No livro, o escritor investiga as relações homem–mulher, patrão–empregado. A obra, no parecer dos editores, tem muito a revelar sobre a faceta de investigador social do escritor. No início do século XX, London fez questão de conhecer as habitações miseráveis de Londres, que descreveu em "O Povo do Abismo", em 1903. "Memórias do Sr. Schnabelewopski", de Heinrich Heine (1797-1856), também em processo de tradução, revela a prosa do famoso poeta alemão radicado na França, grande responsável pela difusão dos ideais da Revolução Francesa. A novela (de 1831) está sendo traduzida por Marcelo Backes, crítico literário que faz doutorado em Heine, na Alemanha.
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